A nova fronteira da cybersegurança: como a gestão de identidades redefine a confiança digital
Neste episódio do Tomorrow Talks, os apresentadores João Pedro Morais e Bruno Betega recebem Micaella Ribeiro, CEO da IAM Brasil e uma das principais especialistas em Identity and Access Management (IAM) do país. A conversa explora desde os conceitos fundamentais de cybersegurança até as tendências mais avançadas, como inteligência artificial, computação quântica e identidade descentralizada.
Micaella compartilha sua visão sobre como a pandemia transformou o perímetro de segurança, tornando a identidade o novo perímetro, e oferece dicas práticas para empresas de todos os tamanhos fortalecerem sua proteção digital.
O que é IAM e por que sua empresa precisa disso
Micaella começa explicando que a cybersegurança tradicional focava na proteção de perímetro – firewalls, VPNs e outras barreiras para proteger o que estava dentro da organização. “Antes da pandemia, as pessoas trabalhavam dentro da empresa. Era mais fácil aplicar segurança.”
Com o trabalho remoto, esse paradigma mudou. “Hoje, o perímetro está em todos os lugares. A identidade é o novo perímetro.” Isso significa que proteger quem acessa os sistemas (seja um humano ou uma máquina) tornou-se mais crítico do que proteger um endereço de rede específico.
A IAM (Identity and Access Management) é a disciplina que gerencia identidades, credenciais e permissões. Ela garante que a pessoa certa tenha acesso ao recurso certo, no momento certo, pelo motivo certo. “Não existe um ataque cibernético sem uma identidade em algum momento”, alerta Micaella.
Ameaças atuais: Phishing, Deepfakes e IA no cibercrime
Micaella destaca que o phishing continua sendo a principal porta de entrada para ataques. Com a IA, os golpes se tornaram mais sofisticados e rápidos. “Antigamente, o e-mail demorava para ser feito e não ficava tão bom. Hoje, você coloca um prompt no ChatGPT e ele já cria um e-mail com imagem, com uma página falsa bem elaborada.”
Ela menciona um caso real: uma empresa americana foi atacada por uma IA autônoma que realizou todo o ataque, incluindo escalonamento lateral (exploração de outros ambientes) sem intervenção humana. “Isso é uma coisa séria. A IA está explorando vulnerabilidades que talvez o humano não conseguisse identificar.”
Outro golpe crescente é o deepfake. Micaella conta o caso de uma empresa que perdeu milhões de dólares após hackers usarem vídeos e áudios falsos de diretores (capturados em entrevistas públicas) para enganar o diretor financeiro em uma chamada de vídeo. “Era apenas um diretor financeiro verdadeiro na chamada. Os outros eram deepfakes.”
O Conceito de Zero Trust (Confiança Zero)
Zero Trust é um conceito, não uma ferramenta, explica Micaella. Ele parte da premissa de que nunca se deve confiar automaticamente, mesmo que o usuário esteja dentro da rede. Em vez de permissões estáticas, o Zero Trust analisa o contexto: horário, localização, dispositivo, comportamento e histórico.
“Se você sempre entra entre 7 e 8 da manhã e hoje entrou meia-noite, o sistema pode bloquear ou exigir validações adicionais.” Isso adiciona camadas de segurança sem necessariamente atrapalhar o usuário legítimo. A ideia é migrar de regras fixas para decisões baseadas em inteligência e comportamento.
Cibersegurança para Pequenas e Médias Empresas
Micaella ressalta que muitas PMEs ignoram a cybersegurança por acharem que é cara ou complexa. “O Brasil é o quinto país mais atacado do mundo. Pequenas empresas são alvos fáceis porque não se protegem.”
Ela oferece três dicas práticas e gratuitas para começar:
- Conscientização dos colaboradores: Realizar treinamentos simples sobre como identificar e-mails suspeitos, não compartilhar senhas e relatar incidentes. Isso pode ser feito com vídeos do YouTube ou apresentações simples.
- Segundo fator de autenticação (MFA): Ferramentas como o Microsoft Authenticator são gratuitas e adicionam uma camada essencial de proteção. Ela recomenda usar MFA em todas as contas, inclusive redes sociais e sistemas corporativos.
- Checklist de desligamento: Criar um processo para revogar todos os acessos de funcionários que saem da empresa. Isso inclui e-mail, sistemas internos, pastas compartilhadas e licenças. “Já vi funcionários venderem dados ou deletarem pastas inteiras ao sair.”
Além disso, ela sugere usar gerenciadores de senhas (cofres digitais) para evitar o uso de planilhas Excel com credenciais, prática comum e altamente arriscada.
O futuro: Autenticação sem senha e Computação Quântica
A autenticação tradicional (login + senha) está com os dias contados, segundo Micaella. O futuro é passwordless, que combina algo que você tem (dispositivo) com algo que você é (biometria: voz, íris, impressão digital). “Já temos sistemas que enviam um código por e-mail ou fazem leitura de QR Code. O próximo passo é a biometria como fator único.”
Ela também aborda a computação quântica, prevista para estar disponível comercialmente até 2030. Com ela, a criptografia atual será quebrada em segundos, porque a computação quântica opera de forma exponencialmente mais rápida. “Uma senha de 12 caracteres demoraria milhões de anos para ser quebrada hoje, mas com um computador quântico será questão de segundos.”
A saída está na criptografia pós-quântica, um novo padrão que já está sendo desenvolvido. Empresas que lidam com dados sensíveis precisam começar a se preparar agora, especialmente setores como bancos, saúde e governo.
Identidade Descentralizada e o controle dos dados pessoais
Outra tendência emergente é a identidade descentralizada, baseada em blockchain. Nesse modelo, o usuário é dono de seus próprios dados, e a organização apenas verifica se a identidade tem permissão para acessar um recurso, sem armazenar informações pessoais. “Imagine que você é contratado por uma empresa. Você não terá uma identidade nela. Ela apenas valida que você tem acesso.”
Isso reduz drasticamente o risco de vazamento de dados e coloca o controle nas mãos do indivíduo, alinhando-se com leis como a LGPD e tendências globais de privacidade.
A jornada empreendedora de Micaella
Micaella fundou a IAM Brasil há cinco anos, após perceber uma lacuna no mercado: não existia uma empresa dedicada exclusivamente à identidade. Ela viajou para fora, estudou metodologias, e estruturou um modelo de consultoria que combina metodologia, automação e governança. Hoje, a IAM Brasil tem três sócias – todas mulheres – e outras empresas do grupo atuam em educação e inteligência artificial.
Ela destaca a importância de construir autoridade antes de vender: “Passei um ano educando o mercado, fazendo conteúdo, antes de abrir a empresa.” O foco em processos e metodologia permitiu escalar a consultoria mantendo a qualidade, mesmo com novos consultores.
Micaella também fala sobre os desafios de empreender em um mercado nichado e a importância de ter sócios com os mesmos valores. “Nunca levei em consideração que o desafio tivesse relação por eu ser mulher. Construí autoridade com aquilo que faço de melhor.”
Onde encontrar a IAM Brasil e Micaella
A IAM Brasil pode ser encontrada no site iambrasil.com.br e no Instagram (@iambrasiloficial). A empresa também possui uma página no LinkedIn com mais de 8.000 seguidores, onde publica conteúdos relevantes sobre cybersegurança.
A SECM Academy (secmacademy.com.br) é a empresa de educação do grupo, com cursos gratuitos no YouTube (mais de 100 vídeos) e cursos pagos para quem deseja se aprofundar. Micaella também está disponível no LinkedIn para quem quiser trocar ideias.
Ela deixa uma mensagem final: “Cybersegurança não é só para grandes empresas. Pequenos negócios também são alvos. Comece pelo feijão com arroz e proteja sua operação.”