Muito Além do Espetáculo: Os Bastidores da Gestão Cultural com Abraão Mafra

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Muito além do espetáculo: Os bastidores da gestão cultural no Theatro Municipal de São Paulo

Neste episódio do Tomorrow Talks, os apresentadores João Pedro Moraes e Bruno Bettega recebem Abraão Mafra, diretor-geral da Fundação Theatro Municipal de São Paulo. Com uma trajetória que combina direito, gestão pública e uma paixão pela cultura, Abraão compartilha os desafios e conquistas de liderar uma das mais importantes instituições culturais da América Latina.

A conversa explora desde a estrutura complexa da fundação – que vai além do icônico teatro, incluindo a Praça das Artes, escolas de música e dança, e corpos artísticos – até os bastidores da gestão de um patrimônio tombado, os desafios de lidar com talentos criativos, e a importância de levar a cultura para além do centro, com projetos como a Fundação Theatro Municipal Expandida.

O complexo Theatro Municipal: muito mais do que um palco

Abraão começa desfazendo um mito comum: a Fundação Theatro Municipal não é apenas o teatro em si. Ela engloba um verdadeiro complexo, que inclui a Praça das Artes, a central técnica (onde fica o acervo de figurinos e cenografia), e duas escolas centenárias – a Escola de Dança (86 anos) e a Escola de Música (57 anos), que juntas somam mais de 2.000 alunos, em ciclos formativos que duram de 9 a 12 anos. “O aluno entra criança e sai na fase adulta”, explica Abraão.

Essa formação de longo prazo exige um olhar atento não apenas ao ensino artístico, mas também à infraestrutura e ao bem-estar dos alunos. Quando assumiu a direção, Abraão se deparou com situações que considerou injustas: os pais precisavam arcar com o custo de uniformes, sapatilhas de ponta (que custam cerca de R$ 350 e duram apenas 4 meses), e outros materiais. “Tem pais que têm condições, mas e o pai que não tem?”, questionou. Hoje, a fundação fornece uniforme completo para os alunos da escola de dança e investiu mais de R$ 700 mil em novos instrumentos para a escola de música, além de restaurar instrumentos raros.

Tradição versus legislação: modernizando a máquina pública

Abraão destaca um dos maiores desafios da gestão pública: distinguir o que é tradição do que é legislação. “Se é tradição, vou acabar com todas. Se é legislação, vou seguir.” Ele exemplifica com uma norma antiga que congelava 10% dos cargos da fundação – uma lei que já havia sido revogada, mas que ninguém havia atualizado. Ao identificar isso, ele contratou cinco novos funcionários que estão na ativa até hoje.

Outro exemplo foi o reajuste salarial dos professores, que estavam há 10 anos sem correção. Abraão conseguiu um reajuste de 25%, valorizando os profissionais que formam as futuras gerações de artistas. Além disso, concluiu um prédio de 10.000 m² dedicado exclusivamente aos corpos artísticos – incluindo a Orquestra Sinfônica Municipal, o Balé da Cidade, o Coro Lírico, o Quarteto de Cordas e a Orquestra Experimental de Repertório, que conta com 86 alunos bolsistas.

Diálogo com o criativo: o desafio de liderar artistas

Abraão, que não é músico nem bailarino, mas sim um gestor formado em direito, enfrentou o desafio de liderar profissionais altamente criativos. “O criativo tende a não ser tão racional quanto um gestor.” Ele observou que seus antecessores vinham das áreas artísticas (dança ou música) e tendiam a privilegiar sua própria área. Sua visão holística permitiu equilibrar as demandas de todos os corpos artísticos e escolas, criando um ambiente onde o diálogo e a escuta ativa são prioridades.

Ele também instituiu o coffee break para os alunos durante as apresentações de resultado (como Dom Quixote e Quebra-Nozes), tratando-os como artistas desde cedo. “O aluno que entra na fundação, além de aluno, eu trato como artista.” Essa mudança, aparentemente pequena, teve um impacto significativo na autoestima e no senso de pertencimento dos jovens.

Contrato de gestão: desburocratizando a programação artística

A Fundação Theatro Municipal opera com um orçamento anual de cerca de R$ 168 milhões, dos quais R$ 132 milhões são destinados ao contrato de gestão com uma organização social (atualmente o Instituto Bacarelli). Abraão explica que a natureza jurídica da fundação, similar à de uma secretaria, exigiria processos licitatórios para cada evento – o que inviabilizaria a programação dinâmica de um teatro como o municipal.

O contrato de gestão com o Instituto Bacarelli, que tem histórico de atuação em formação cultural (incluindo o primeiro teatro construído em uma favela), permite que a programação seja gerenciada de forma mais ágil, com indicadores de metas e prestação de contas rigorosa. “Você acaba desburocratizando o processo.” A organização social é responsável por apresentar planos de trabalho, relatórios mensais, trimestrais e anuais, que são monitorados por uma unidade interna da fundação.

Theatro Municipal Expandido: levando a cultura para a periferia

Um dos projetos mais inovadores da gestão de Abraão é a Fundação Theatro Municipal Expandida, que leva o ensino de música e dança para regiões periféricas da cidade. Em 2024, ele criou polos em parceria com a Secretaria Municipal de Educação, começando pelo CEU Três Pontes (zona leste), com 160 alunos de violão, flauta, balé clássico e danças contemporâneas. Depois vieram o CEU Parelheiros (zona sul, 200 alunos), o CEU Jardim Paulistano (zona norte, 200 alunos), e em agosto de 2025, o CEU Irapuru (zona oeste), com aulas de piano, flauta, balé e danças contemporâneas.

Cada polo custa cerca de R$ 230 mil por ano – um valor surpreendentemente baixo – e as aulas são ministradas por ex-alunos da Fundação Theatro Municipal, criando um ciclo virtuoso de formação e empregabilidade. “Já teve pessoas que pensaram que custava 5 milhões por ano, mas não. É R$ 230 mil.” Abraão conta que, no primeiro polo, sete alunos prestaram o processo seletivo para ingressar na Praça das Artes e foram aprovados. “O projeto transforma o indivíduo em tudo.”

Além do aspecto educacional, o projeto também gera zeladoria local: as comunidades passam a cuidar mais dos espaços públicos, os comércios locais são movimentados, e a economia gira. “Quando a Fundação Theatro Municipal chega no território, o gramado fica impecável, o jardim cuidado, as guias pintadas.”

Indicadores e retorno social

Abraão é enfático ao falar sobre indicadores de desempenho na gestão pública: “Número não mente.” Quando assumiu, o público de sessões não onerosas do complexo Theatro Municipal era de 15.000 pessoas por ano. Em 2023 e 2024, saltou para 207.000, e em 2025 já ultrapassou 225.000. Esse crescimento veio de uma política de abertura e diálogo com o entorno, incluindo a participação na Virada Cultural (pela primeira vez com corpos artísticos se apresentando e o teatro aberto 24 horas), e a realização de eventos de outras secretarias, como a entrega da carteira da OAB e cerimônias do Ministério Público.

Ele também destaca a importância da captação de recursos – atualmente, a organização social tem a meta de captar 8% do repasse no primeiro ano, com expectativa de chegar a 50-60% no futuro. Abraão compartilha experiências de gestão no Rio de Janeiro, onde, com orçamentos reduzidos (R$ 600 mil e R$ 640 mil em dois equipamentos), conseguiu multiplicar o público por meio de parcerias locais, como a com a pizzaria Dominus e com a distribuidora de bebidas de um comerciante local.

Os desafios de um patrimônio tombado: restauro, não reforma

O Theatro Municipal é um prédio tombado, inaugurado em 12 de setembro de 1911, que completa 115 anos em 2025. Sua manutenção exige restauro, não reforma. Qualquer intervenção precisa ser aprovada por órgãos de patrimônio histórico, e mesmo detalhes como a instalação de ar-condicionado são proibidos por questões estruturais. “Não dá para colocar um ar-condicionado porque teria que furar uma obra de arte.”

Abraão menciona que o salão nobre, por exemplo, possui um carpete dos irmãos Campana, e por isso, alimentos e bebidas escuras (como vinho tinto) são proibidos, e há limitação de decibéis para não danificar os vitrais. A restauração é cara e demorada, mas essencial para preservar a história. Ele também compartilha curiosidades, como o fato de que as arquibancadas laterais (os “órgãos”) eram o lugar mais caro do teatro na inauguração, porque as pessoas pagavam para serem vistas, não para assistir ao espetáculo.

Lições para líderes: gestão de crises e legado

Abraão reflete sobre o que um CEO pode aprender com a gestão de um teatro público. “Na máquina pública, você pode ter um orçamento X hoje e amanhã ter a metade. Você tem que fazer acontecer com o que tem.” Ele enfatiza a importância de documentar processos e institucionalizar boas práticas por meio de portarias e decretos, para que as mudanças não se percam com a troca de gestão.

Ele também critica a militância na gestão pública, defendendo que o foco deve estar em garantir o direito da população, não em promover agendas partidárias. “Eu faço programação com o gosto da população, não com o meu gosto pessoal.” Ele lamenta que, muitas vezes, opositores políticos sabotem projetos de qualidade por questões ideológicas, em vez de se unirem em prol do bem comum.

Onde encontrar e como apoiar a Fundação Theatro Municipal

Abraão convida todos a conhecerem o Theatro Municipal e seus projetos. As visitas guiadas são gratuitas e podem ser agendadas pelo site oficial. Os ingressos para concertos e óperas têm preços acessíveis: a partir de R$ 12 para concertos e R$ 32 para óperas. O projeto Domingão Tarifa Zero também facilita o acesso ao centro nos finais de semana.

Para quem deseja se inscrever nas escolas de dança e música, os perfis no Instagram são @edaspftm e @emmftm. O perfil oficial da fundação é @fundacaotheatromunicipal (com H) e o perfil pessoal de Abraão é @abrmafra.

Ao final, Abraão deixa uma mensagem: “A cultura não é um mito. Ela é gestão, formação e direito de todos. Venham conhecer, ocupar e se encantar. O theatro municipal é de vocês.”