Jump Talk #34 – O futuro da educação está na tecnologia

Início \ Produções \ Jump Talk #34 – O futuro da educação está na tecnologia

1. Abertura: tecnologia no mercado de educação e um líder diferenciado

Anderson e Gilberto dão as boas-vindas destacando que o Jump Talk é um programa que recebe líderes de mercado para falar sobre tecnologia, gestão e desafios. O convidado da vez é Igor Freitas, VP de Tecnologia da Cogna, que possui mais de 27 anos de experiência. A conversa promete abordar os desafios de tecnologia na educação, inteligência artificial e carreira. Igor agradece o convite e ressalta sua paixão pela combinação de tecnologia e educação.


2. Quem é Igor Freitas? Uma história que começa na África do Sul

Igor começa sua apresentação de forma inusitada: nasceu na África do Sul, filho de missionários brasileiros que trabalhavam com refugiados de Angola e Moçambique durante a guerra civil. Com dois anos de idade, veio para o Brasil e foi naturalizado, com certidão de nascimento em Belo Horizonte. Viveu em Minas, Goiânia, Brasília e fez faculdade de Ciência da Computação na Federal de Uberlândia. Aos 16 anos já programava e vendia softwares (controle de estoque para autopeças). Empreendeu no início da carreira, vendendo a empresa e vindo para São Paulo, onde está há 24 anos.

Seu primeiro trabalho formal foi como desenvolvedor C e C++ para Linux, configurando provedores de acesso à internet nos primórdios da rede. Ele relata que desenvolveu uma aplicação em Java em 1996/1997 para envio de SMS para a CTBC Telecom. Após vender sua empresa, veio a São Paulo trabalhar com Visual C++ e depois migrou para Java. Trabalhou por nove anos na Borland (dona do Delphi e JBuilder), onde atuou os últimos quatro anos como gerente técnico de vendas (pré-vendas) para México, América Central, América do Sul e Brasil. Essa experiência foi transformadora: aprendeu a fazer as perguntas certas, entender a dor do cliente e tangibilizar necessidades em soluções de tecnologia – “pessoas compram de pessoas”.


3. A virada para o mundo corporativo: Itaú, Livelo, XP, Zamp (BK) e agora Cogna

Em 2010, Igor migrou para o lado cliente, entrando no Itaú, onde ficou nove anos. Começou cuidando de sistemas corporativos (contábeis, gerenciais, fiscais, risco), foi promovido a superintendente de arquitetura de soluções e depois a superintendente de arquitetura corporativa, atuando como ponte entre TI e negócio. Saiu do Itaú para ser CIO na Livelo (programa de fidelidade), depois passou pela XP (transformação), pela Zamp (BK – varejo) e agora está na Cogna (educação). Ele destaca um padrão interessante: todas as empresas pelas quais passou tinham três características comuns: (1) distanciamento entre tecnologia e negócio; (2) necessidade de transformação digital eficiente; (3) desafio de inserir a tecnologia no comitê executivo. Sua “receita de bolo” tem funcionado.


4. Tecnologia humanizada: cerimônias, proximidade e personalização da gestão

Igor acredita que a tecnologia é consequência de um trabalho bem feito por uma equipe engajada. Para isso, implementa práticas simples, mas poderosas: cerimônias recorrentes com todas as pessoas da área de tecnologia (cerca de 600 pessoas na Cogna) para conhecer cada um pelo nome, entender o que fazem e do que gostam. Ele também personaliza seu modelo de gestão para cada um de seus cinco diretores, adaptando a comunicação, a frequência de reuniões e o estilo de interação. Essa abordagem resultou em um aumento de 10 pontos no eNPS em um ano e no maior LNPS (índice de satisfação da liderança) da companhia. “Estar abaixo do radar” permitiu à Cogna passar pelos processos de matrícula e início de aulas sem grandes incidentes, comunicando proativamente quando ocorrem problemas.


5. O desafio da Cogna: 60 marcas, aquisições e um programa de convergência

A Cogna é dividida em três grandes grupos: Crianças e Adolescentes (ensino básico – Anglo, Pitágoras, PH, Saraiva, Scipione, Red Balloon); Graduação e Pós (Anhanguera e 103 unidades físicas, totalizando 1,25 milhão de alunos); e Long Life Learning (cursos livres e infoprodutores – Voomp). Nos últimos dez anos, a empresa cresceu por aquisições, resultando em múltiplos sistemas, ERPs e soluções diferentes. Igor estruturou um programa de convergência que não visa ter uma única aplicação para tudo, mas sim identificar o que é mais adequado para cada contexto (ex.: solução para criança pode ser diferente da solução para pós‑graduação), mantendo backbones comuns, CRM único e dados governados. O programa é liderado pela área de arquitetura corporativa (com a Gisele) e tem forte interface com segurança da informação, dados e engenharia de plataforma.


6. O modelo ágil Cogna: PI Planning com 530 participantes e priorização conjunta

Desde 2018, a Cogna adotou o framework SAFe (Scaled Agile Framework), adaptado como “Cogna Ágil”. A cada trimestre, uma PI Planning (Planejamento de Incremento de Programa) reúne 530 pessoas entre áreas de negócio, produto, tecnologia e áreas corporativas. Os times de engenharia de software são embebidos nas áreas de negócio, enquanto arquitetura, segurança, infraestrutura e SRE são áreas corporativas. A priorização de épicos e histórias é feita de forma conjunta, e até mesmo demandas de tecnologia (como gestão de APIs ou segurança) precisam concorrer com demandas de negócio dentro do mesmo orçamento e priorização. Isso garante alinhamento estratégico e evita decisões unilaterais.


7. Inteligência Artificial na Cogna: governança, marketplace e aplicações reais

Igor revela que a jornada de IA na Cogna começou pelas áreas operacionais e só depois foi para os alunos. O presidente Roberto Valério assumiu a iniciativa como pessoal, criando um grupo de trabalho multidisciplinar (tecnologia, jurídico, dados, segurança). O resultado foi a construção do Cogna IA, um marketplace interno onde soluções de IA passam por avaliação de compliance, segurança (CISO) e business case antes de serem disponibilizadas. A Cogna não usa LLMs públicos como o ChatGPT; utiliza Open AI com Microsoft (interna) e Anthropic com AWS Bedrock, garantindo que os modelos sejam treinados apenas com dados internos e seguros.

Exemplos de soluções já em produção:

  • Edu (para alunos): assistente de ensino adaptativo que interage com o aluno, conhece o conteúdo da semana e o ajuda a se preparar para quizzes, sem dar a resposta pronta, mas mostrando caminhos.
  • Plural IA: voltada para alunos do Anglo e Pitágoras.
  • Jarvis (para tutores): faz correção prévia de trabalhos e TCCs, indicando erros sintáticos, léxicos e de conteúdo, agilizando o trabalho do tutor.
  • Matrícula inteligente: como os documentos de conclusão de ensino médio não são padronizados no Brasil, uma IA mapeia certificados e históricos escolares, extraindo as informações necessárias.
  • Chat interno para áreas corporativas: permite que jurídico, financeiro e outras áreas façam upload de documentos (contratos, planilhas) e interajam com a IA em ambiente seguro, sem vazamento de dados.
  • Integração com Microsoft Office: editores de livros podem usar o Cogna IA diretamente no Word para gerar resumos, correlações e complementos.

8. Ensino adaptativo e o futuro da educação com IA

Igor é enfático: a IA generativa é 100% disruptiva na educação. As possibilidades incluem geração de conteúdo (resumos, podcasts, atualizações), ferramentas para professores (avaliações mais inteligentes, roteiros de aula) e para alunos (roteiros de estudo personalizados, correlação entre livros, identificação de déficits de atenção). Ele cita uma solução recente implantada em uma prefeitura para avaliar a qualidade da leitura de crianças por meio de reconhecimento de voz e IA. No entanto, ele ressalta os desafios: custo, segurança (guard rails rigorosos), ecossistema de dados e garantia de assertividade – a Cogna levou um ano testando até lançar soluções para os alunos.


9. IA substitui o humano? A visão equilibrada de Igor

Igor reconhece a preocupação genuína, mas defende que a IA não substitui o humano, e sim muda a relação com o trabalho. A IA é generativa a partir do conteúdo que produzimos; a curadoria, a crítica e a relação humana insubstituível continuam sendo essenciais. Ele compara com o GitHub Copilot para desenvolvedores: a produtividade aumenta, mas não substitui o engenheiro de software. Na educação, professores e tutores terão seu trabalho potencializado, podendo se concentrar no que realmente importa: o contato humano, a motivação e a adaptação às necessidades individuais. “Não deixe a IA te substituir” – ele recomenda que os jovens continuem se aprofundando no conhecimento de base, não terceirizando o aprendizado para as máquinas.


10. Governança de IA: um case de sucesso

A governança da IA na Cogna foi construída desde o início, com políticas de uso, comitê quinzenal com o presidente, e um marketplace que controla billing, segurança e reuso. Qualquer solução de IA (interna ou de terceiros) precisa passar por compliance, segurança e business case. A descentralização com governança evita a pulverização descontrolada que muitas empresas sofreram (e agora tentam corrigir). Esse modelo permitiu à Cogna evoluir rapidamente, mas de forma segura e com retorno sobre o investimento.


11. Dados como pilar estratégico

Igor reforça que a Cogna tem um CDO (Daniel) e uma forte área de dados, responsável por engenharia de dados, governança e plataforma. A convergência de sistemas e a qualidade dos metadados são fundamentais para alimentar os modelos de IA e para análises de negócio (churn, evasão, cross-sell). Ele cita que a Jump, inclusive, é parceira nessa jornada de dados.


12. O propósito e a paixão pela educação

Igor revela que sua motivação pessoal se conecta com a educação – seu pai foi capelão e diretor de escola presbiteriana, e Igor sempre frequentou o ambiente escolar. Na Cogna, muitos profissionais de tecnologia têm um propósito adicional: já foram alunos da rede, são filhos de professores ou acreditam no poder transformador da educação. Isso reduz o turnover e torna o trabalho mais significativo. Além disso, muitos alunos da Cogna (especialmente no ensino superior) são os primeiros da família a cursar uma graduação – um feito transformacional.


13. Conselhos para jovens e para líderes

Para quem está começando, Igor aconselha: (1) não tente copiar a carreira de ninguém – cada um tem sua individualidade; (2) invista em desenvolvimento de software, pois há enorme demanda e futuro; (3) aprofunde-se em dados e IA, mas sem deixar que a IA o substitua no aprendizado fundamental; (4) concentre-se em temas específicos, pois a quantidade de novidades pode levar à frustração de não ver tudo e não aprender nada. Para líderes, ele recomenda ouvir o time, personalizar a gestão, estar próximo das pessoas e equilibrar o presente (operação, incidentes) com o futuro (inovação, estratégia) – essa é a grande arte da liderança de tecnologia hoje.