Introdução: A Jornada de Tértius – Da Eletrônica ao Legado do Delphi
No episódio do podcast Confraria Cast, Manuel Edésio recebe Tértius (Dormevili), um veterano do mercado de tecnologia com mais de 30 anos de estrada. Tértius é natural de Juiz de Fora (MG) e começou sua trajetória na eletrônica, desmontando carrinhos e brinquedos. Ele fez um curso técnico profissionalizante em eletrônica e, após um estágio na Caixa Econômica Federal (em 1992), descobriu a paixão pela informática. Em 1995, veio para São Paulo no lançamento do Delphi 1 e nunca mais parou. Hoje, ele é uma referência na comunidade Delphi e trabalha na Idera (antiga Borland/Embarcadero), empresa responsável por ferramentas como Delphi, C++Builder e InterBase. O papo aborda a evolução da tecnologia, o papel do software legado, a euforia com a Inteligência Artificial e o valor insubstituível do relacionamento e networking.
Origens e Transição para Tecnologia: Do Hardware ao Desenvolvimento
Tértius relembra que, na adolescência, ele e seus amigos se dividiam entre eletrônica e informática. Enquanto alguns se dedicavam a linguagens como Basic (com linhas numeradas 10, 20, 30), ele preferia a parte física. No entanto, ao entrar em contato com o desenvolvimento de sistemas, tomou gosto pela área. Ele conta que, na época, os eventos presenciais como a Fenasoft e a Codex (no Pavilhão do Ibirapuera) eram as únicas oportunidades de se atualizar e conhecer novidades – muito diferente do acesso instantâneo de hoje. Foi em uma dessas feiras que ele conheceu José Rubens (fundador da Engine Informática, representante da Borland no Brasil) e veio para São Paulo trabalhar com produtos Borland, como Paradox for Windows, Turbo Pascal, Turbo C++ e, claro, o Delphi (lançado em 1995).
O Time de Elite da Borland: Cultura e Autoridade Técnica
Manuel destaca que, na época da Borland, a equipe de tecnologia era um time de elite: os profissionais dominavam não apenas a técnica, mas também negócios, resolução de problemas complexos e oratória. Tértius concorda e atribui isso a uma formação mais robusta de gerações passadas, que aprendiam desde o bit até a infraestrutura completa. Ele cita nomes como Renato Guedes (um “homem show”) e João Carlos (que mantinha uma BBS em casa aos 14 anos). Esses profissionais eram capazes de fazer road shows pelo Brasil, palestrando em várias cidades no mesmo dia para suprir a carência de conhecimento técnico. Tértius lembra que, em uma ida a Manaus, precisou dar três palestras em um único dia – de manhã, à tarde e às 22h – para atender a demanda. A competição com concorrentes que chegavam de Kombi com 10 pessoas era vencida pela autoridade de quem realmente dominava o assunto.
Modismo vs. Continuidade: A Indústria de Software e o Legado
Tértius critica o modismo na indústria de software: empresas que trocam de linguagem ou ferramenta a cada novo funcionário, sem critério de continuidade. Ele ressalta que qualquer desenvolvedor que pega um código de outro acha que está mal escrito – e até mesmo o próprio código de 10 anos atrás parece ruim. Por isso, a continuidade corporativa é essencial. Manuel provoca com uma frase polêmica: “O suprassumo da indústria de software é vender curso, não vender projeto”. Tértius concorda que o vendedor de curso não tem responsabilidade sobre o resultado prático; já o desenvolvedor que “bota a mão no arado” assume riscos reais (como um sistema médico que monitora batimentos cardíacos). Ele faz uma analogia com engenheiros e economistas: o engenheiro constrói e assume o risco da obra; o economista entrega um papel e acabou. Cursos se atualizam e se vendem novamente; projetos legados ficam e precisam de manutenção.
Exemplos de Grandes Softwares em Delphi
Tértius cita casos reais de sucesso de empresas que usam ou usaram Delphi em larga escala:
- RM Sistemas (Belo Horizonte): construída em Clipper e migrada para Delphi, foi vendida por milhões de reais há 15-20 anos.
- CEMIG (Centrais Elétricas de Minas Gerais): usava sistemas em C++ Builder para gerenciar postes e transformadores.
- Banco do Brasil: tem uma mesa de operações no Rio de Janeiro (rua Senador Pompeu) feita em Delphi. Três tentativas de migrar para Java falharam por questões de performance, e o sistema continua ativo.
- Spread e outras grandes empresas de ERP possuem centenas de licenças Delphi.
- Uma grande empresa de tecnologia (que adquiriu a LINX) tem mais de 100, talvez 200 licenças de Delphi.
Tértius revela que a comunidade Delphi no Brasil é a quinta maior do mundo, atrás de Estados Unidos, Alemanha, Rússia e Japão. Só no Brasil, a empresa vendeu mais de R$ 40 milhões em licenças e renovações de manutenção. O legado é gigantesco e muitas empresas continuam comprando licenças novas, especialmente por questões de segurança e conformidade (como as novas regras europeias e a certificação ISO de software).
Inteligência Artificial: Entre a Euforia e a Manutenção de Código
Tértius analisa o momento atual da IA com equilíbrio. Ele observa que, a cada nova onda tecnológica, as pessoas passam por fases de descrença, medo de perder o emprego e, finalmente, adaptação. Ele não quer competir com a IA: “o que ela faz em segundos eu levaria 50 anos”. A diferença é que a IA não entende contexto profundo nem assume responsabilidade por manutenção. Ele dá o exemplo de geração de código: a IA pode produzir rapidamente, mas um desenvolvedor nunca terá a mesma resposta para o mesmo prompt (uma vírgula muda tudo). A manutenção de código gerado por IA é um ponto cego: quem vai entender e corrigir aquele código quando a lei mudar? Como dar manutenção em um código que não foi estruturado por humanos?
Tértius também comenta riscos de segurança: versões de IA foram retidas por seus criantes porque poderiam ser usadas para invadir instituições financeiras. Um erro no FreeBSD (base do MacOS) que existia há anos nunca havia sido encontrado até que uma IA o descobrisse. Ele próprio usa IA como ferramenta – para montar roteiros de viagem, analisar geopolítica ou melhorar seus próprios códigos. Mas alerta: não se pode usar IA como um estagiário que escreve código sem supervisão. O ideal é usar a IA para instrumentar, documentar e otimizar o código existente, não para criar código solto e sem governança.
IA Proativa na Gestão de Dados
Tértius sugere usos mais inteligentes da IA, como treinar agentes para monitorar bancos de dados de forma proativa: detectar índices errados, vazamentos de informação, acessos suspeitos (ex: um funcionário que nunca olhou a folha de pagamento e de repente começa a fazer consultas). O agente poderia cancelar o acesso e disparar uma notificação. Esse tipo de aplicação vai além da geração de código e entra no campo da segurança e governança.
O Papel do Desenvolvedor no Futuro: Produtividade, Não Substituição
Manuel pergunta qual deve ser a postura do desenvolvedor diante da IA. Tértius responde que o profissional precisa deixar de ser parte do problema e se tornar parte da solução. Ele critica o perfil de quem “cria dificuldade para vender facilidade” – isso não cabe mais. O desenvolvedor deve usar o que é melhor para o negócio, aprimorar-se e tornar-se mais produtivo. Áreas que se tornam commodity (como escrever telas simples) podem ser automatizadas, mas o profissional deve migrar para atividades de maior valor. Ele cita o exemplo de uma ferramenta de modelagem de dados (RStudio) que, com IA, gera um pontapé inicial do modelo, mas o especialista precisa revisar e complementar. A IA não infere sozinha – ela gera opções, mas não assume o compromisso de longo prazo.
Novidades Tecnológicas: Delphi 13.1 e Windows ARM
Tértius compartilha as últimas novidades da plataforma Delphi/Embarcadero: a versão 13.1 foi lançada (início de 2026), adicionando suporte a Windows ARM. Agora o Delphi compila para Windows 32/64, Linux, macOS 32/64, iOS, Android e Windows ARM – tudo seguindo o conceito da Microsoft de um único binário para múltiplas plataformas. Em breve, haverá um webinar com componentes novos de IA para instrumentar aplicações. A ideia é permitir que o desenvolvedor integre IA à aplicação final, como um assistente de ajuda contextual (ex: “como faço isso?”). A Embarcadero também já oferece IA interna em ferramentas como o RStudio, que gera modelos de dados seguindo as melhores práticas do DAMA (sem custo adicional, embutido na licença). Para agentes customizados, o cliente precisará treinar seu próprio modelo. Tértius incentiva os desenvolvedores de software legado a atualizarem suas versões de Delphi, pois as novas ferramentas permitem modernizar código antigo com muito mais velocidade (inclusive com mecanismos de refatoração que substituíam componentes legados como BDE de forma automatizada).
O Poder do Networking e do Relacionamento: Mais que Contatos, Doação
Manuel conecta o papo com o tema central da Confraria dos CEOs: networking e relacionamento. Tértius enfatiza que relacionamento é importantíssimo e que sem ele “o mundo não gira”. Ele dá exemplos práticos: uma cliente que era sua maior vendedora trocou de empresa e, por causa do relacionamento, já chamou para apresentar as ferramentas na nova companhia. Ele compara com um restaurante: “vou num restaurante comer comida ruim se for bem atendido, mas não volto num restaurante de comida boa se for mal atendido”. O relacionamento abre portas que nem a melhor ferramenta consegue abrir sozinha.
Tértius compartilha uma filosofia de atendimento baseada em parceria, não em contrato rígido. Ele conta que, mesmo de férias, responde cliente pelo WhatsApp. A facilidade de acesso (telefone, WhatsApp) é mais importante do que processos formais. Ele brinca com seu nome complicado (Dormevili) e como o apelido Tértius (terceiro em latim) facilita a vida. Seu recado final: a comunidade pode encontrá-lo no LinkedIn (basta buscar por Dormevili) e no site da Embarcadero Brasil (embarcadero.com.br). A empresa tem uma equipe user-friendly e está aberta para bate-papo, café no escritório (Chácara Santo Antônio, próximo ao Carrefour da Marginal Pinheiros). Ele anuncia também a Embarcadero Conference 2026, que ocorrerá em 1º de setembro (local a confirmar, provavelmente na Chácara Santo Antônio). Os ingressos começarão a ser vendidos em maio de 2026.
Considerações Finais: Processo, Responsabilidade e Futuro
Manuel encerra agradecendo Tértius pelo bate-papo rico em histórias e lições. Fica claro que, independente das ondas tecnológicas (IA, nova linguagem, novo framework), o processo estruturado, a responsabilidade sobre o código e o relacionamento humano são insubstituíveis. O desenvolvedor que trata seu trabalho como “projeto” e não como “curso” terá relevância duradoura. A tecnologia deve servir ao negócio e às pessoas, e não o contrário.