Introdução: A Inquietação como Motor da Transformação
No sexto episódio do podcast Equilibrando Pratos, as apresentadoras Thaísa (engenheira agrônoma) e Ana Lúcia (psicóloga) recebem o psicólogo, palestrante, escritor e podcaster Alexandre Coimbra Amaral. Com uma trajetória marcada por transições e uma profunda conexão com as ideias de Paulo Freire, Alexandre compartilha sua visão sobre masculinidades, saúde mental e os desafios de equilibrar os pratos da vida. Ele é o criador de um grupo de reflexão para homens, que existe há quase 8 anos, e oferece um olhar único sobre como os homens estão (ou não) lidando com as transformações sociais e emocionais do século XXI. Este post resume os principais insights dessa conversa transformadora.
A Jornada de um Aprendiz Eterno: Psicologia, Inquietação e Paulo Freire
Alexandre se define por sua inquietação, que sempre o levou a lugares novos e à criação. Ele se descreve como um transgressor que não se acomoda ao status quo. Sua trajetória inclui estudar psicologia, especializar-se em terapia de família, viajar pelo Brasil por seis anos (descobrindo o país real para além da grande mídia) e se reinventar constantemente como psicólogo, escritor, podcaster e professor. Para ele, a marca de sua trajetória é nunca estar pronto, assumindo-se como um eterno aprendiz.
Ele se declara filho de Paulo Freire, cujas ideias transformaram sua visão de mundo. Para Alexandre, o amor deve ser "raivoso" – um amor à vida que se conecta com a raiva do que não está certo para transformar o mundo, em oposição a um amor submisso e obediente. Essa filosofia o coloca em um estado de gerúndio constante: "tô fazendo, tô me transformando, tô desaprendendo, tô reaprendendo, tô caindo, tô levantando, tô errando".
O Grupo de Homens: Um Espaço de Escuta e Desconstrução
Há quase 8 anos, Alexandre criou um grupo de reflexão para homens, que começou presencialmente e hoje acontece online de forma quinzenal e gratuita. A motivação veio de sua experiência como terapeuta de família, onde a mulher é quem geralmente traz o parceiro para a terapia. O homem, historicamente, não vem, pois assuntos ligados a emoções e conflitos são vistos como "coisas de mulher".
O grupo, que já teve mais de 200 participantes online em uma única noite, incluindo homens de diferentes idades, classes sociais, raças e até de outros países (como Austrália e Colômbia), tem regras claras:
- Gratuidade e abertura: não há cobrança e é aberto.
- Sem obrigação de participar ativamente: homens podem ficar com a câmera fechada, apenas ouvindo.
- Não hierarquia e não violência: não se parte da premissa de que ninguém precisa estar pronto ou falar a coisa certa. Qualquer tipo de violência, no entanto, é motivo para expulsão imediata.
O objetivo é que os homens possam falar de suas emoções, falhas, medos e tristezas, e até chorar sem pedir desculpas, sem as máscaras impostas pelo patriarcado (virilidade, potência, conquista e acumulação). Um participante de quase 80 anos relata o que perdeu na vida por não ter se comprometido afetivamente, servindo de exemplo para os mais jovens.
As Tensões Geracionais e a Quebra do Pacto Narcísico
Alexandre observa que a transgeracionalidade é natural: nenhuma geração é igual à outra. No entanto, a grande mudança atual é a maior permissão social para que os mais jovens questionem as figuras de autoridade. Ele cita o caso de Bill Clinton e Monica Lewinsky como um marco cultural que abriu uma brecha para se questionar "pais" poderosos.
Hoje, os próprios filhos estão pontuando para os pais comportamentos que não são mais aceitáveis, como práticas homofóbicas e relações de gênero desiguais. Isso tensiona as relações e quebra o "pacto narcísico" entre os homens (termo de Cida Bento) – um pacto de silêncio onde um não fala das desvirtudes do outro. Esse pacto perpetua uma masculinidade tradicional que está sendo desafiada.
Muitos homens chegam ao grupo após um pedido (ou ultimato) das companheiras, que se empoderaram e não aceitam mais certas dinâmicas. Outros chegam após o fim de um relacionamento, sem entender o que aconteceu. O grupo também aborda a relação dos homens com o tempo, já que a cultura não lhes pactua um projeto de ter tempo para si, resultando em homens idosos com um déficit de encontro e testemunho afetivo.
Diversidade, Equidade e Inclusão nas Empresas: O Luto da Exclusividade
Para Alexandre, as empresas são um microcosmo da sociedade. A palavra que tensiona as relações nas empresas hoje é poder. Historicamente, os espaços de poder foram ocupados por homens brancos. Quando mulheres e outros grupos passaram a disputar esses espaços, a dinâmica se transformou.
Ele descreve como as mulheres, nos anos 80, tiveram que se "masculinizar" (simbolizado pelas ombreiras dos blazers) para serem aceitas e respeitadas em um ambiente de guerra. Hoje, o movimento de diversidade, equidade e inclusão (DEI) causa tensão, e muitos homens brancos sentem que estão perdendo a exclusividade. Para que o DEI funcione, é necessário que esses homens assumam o luto da perda da exclusividade e entendam que, ao dividir o poder, multiplicam-se os resultados, construindo projetos mais palatáveis para toda a sociedade.
No entanto, a reação comum de um homem que não está preparado para ser questionado por uma mulher (especialmente uma mais jovem) é recorrer à força que a cultura patriarcal lhe deu permissão (bater na mesa, desqualificar). A nova jurisprudência sobre assédio moral, aliada ao poder de denúncia das redes sociais (e o temor do cancelamento), está forçando uma mudança de comportamento no ambiente corporativo.
O Assédio Moral e a Inovação: O Silêncio como Proteção
Alexandre critica a cultura do silêncio nas empresas. Muitas reuniões terminam sem que ninguém fale abertamente sobre os problemas, pois o pressuposto é que o silêncio protege. No entanto, a verdadeira inovação não acontece sem tensão. Ele argumenta que não existe inovação sem tensão, e silenciar a tensão é silenciar a inovação.
A saúde mental nas empresas não pode ser tratada apenas de forma individual (oferecendo um aplicativo de terapia). Uma nova onda, menos focada em coaching e mais em psicologia, trabalha as relações e a segurança psicológica. O objetivo é capacitar as pessoas para lidar com a tensão inerente ao trabalho (prazos, metas, pressão) sem partir para a agressão, acolhendo a diferença de forma colaborativa. Para ele, é preciso tirar o véu e assumir: "nós temos um problema/tensão aqui, como vamos lidar com ela?".
Equilíbrio, Imperfeição e a Dança sobre os Cacos
Em um vídeo comentado durante o podcast, Alexandre desconstrói a noção de equilíbrio. Para ele, a ideia de um ponto médio estável entre polos opostos é uma das noções mais perversas que inventamos. O verdadeiro equilíbrio, para ele, é como o de uma pessoa que anda numa corda bamba com 300 pratos caídos no chão. Ela se corta nos próprios cacos, coloca um band-aid e segue dançando sobre eles. Portanto, equilíbrio rima com imperfeição.
Alexandre vive assumindo seus pratos quebrados em todas as esferas da vida: trabalho, vida conjugal, paternidade e amizades. Ele prefere a reparação à mentira de que está dando conta de tudo. Ele se vê como falho, imperfeito e pequeno, e nunca se interessou em se posicionar socialmente como um cara infalível. A grande dica para os homens, especialmente, é aprender a se colocar de maneira mais verdadeira, abraçando a vulnerabilidade, mesmo com o medo do julgamento, do rechaço e do abandono. Quando um homem se permite ser vulnerável, ele se torna um motor de transformação para os espaços que ocupa.
Conclusão: O Convite para o Abraço Compassivo da Imperfeição
Alexandre encerra com uma mensagem poderosa: o destino de todas as máscaras é cair. Quando a máscara gruda na pele, a pessoa nem sabe mais que a está usando, o que é pior ainda. A excelência anda de mãos dadas com a imperfeição; não existe excelência perfeita. O convite é para que todos tenham compaixão com os pratos que deixam cair, em vez de se tornarem seus próprios algozes. A grande transformação, seja nas relações de gênero, na família ou nas empresas, passa por assumir a imperfeição, tirar os véus das tensões e permitir o diálogo genuíno, mesmo (e especialmente) quando ele é desconfortável. É nesse lugar de aprendiz constante que a vida, de fato, acontece.