Introdução: Quem é Mysaki?
No episódio do podcast 'Confissões Consentidas', o apresentador Mestre Cruel (Renan) dá as boas-vindas a Mysaki. A conversa começa com uma descrição visual detalhada: Mysaki é uma mulher branca, de olhos e cabelos pretos, com cabelo mais enrolado e liso na raiz, alta (1,72m), usando um corselet e calça preta, com piercings no lábio e no nariz. Ela é natural de Curitiba, Paraná, e atualmente é autônoma, tentando viver de Shibari.
Infância, Neurodivergência e o Diagnóstico Tardio
Mysaki revela que sempre foi muito introvertida e teve dificuldade de interagir e socializar. Ela tem diagnóstico tardio de autismo e altas habilidades, descoberto há cerca de dois anos. Ela descreve a combinação como 'bizarra', pois um compete com o outro, criando uma mascarada. Na infância, ela sempre teve muitos interesses específicos e hiperfoco – características que se encaixam no autismo. Ela aprendeu a socializar com muito esforço, e o diagnóstico a ajudou a se entender melhor.
O diagnóstico veio de forma inusitada: no grupo de Shibari de Curitiba, o Pequeno Dojas (que se reúne toda terça-feira), ela percebeu que se identificava mais com as pessoas neurodivergentes. Amigos a incentivaram a buscar uma avaliação, e o processo foi longo e difícil, mas as coisas fizeram muito mais sentido depois. Mysaki recomenda fortemente a terapia e a busca por diagnóstico para quem apresenta características.
O Casamento Baunilha e a Repressão dos Fetiches
Mysaki foi casada por quase 9 anos (começou aos 17 anos) em um relacionamento baunilha (convencional, sem práticas BDSM). Desde muito nova, ela teve contato com elementos fetichistas através da cultura japonesa (mangás, animes, Tumblr) e via muito sobre Shibari e BDSM, mas quando tentava introduzir isso no relacionamento, o parceiro não tinha interesse. Ela chegou a comprar uma corda de algodão para testar algumas amarrações sozinha, mas se sentia vazia, pois não havia uma troca. O relacionamento terminou há cerca de 3 ou 4 anos, e foi a partir daí que ela pôde explorar sua sexualidade.
A Entrada no Shibari e no BDSM: Da Curiosidade à Prática
Mysaki teve contato com o conteúdo fetichista antes mesmo do Shibari, mas foi o Shibari que a fez mergulhar de cabeça. Ela se considera uma shibarista fetichista, com um desenvolvimento muito maior no Shibari do que no BDSM em si. Ela é bottom (receptiva) e também switcher, embora tenha inicialmente resistido a amarrar outras pessoas por ser introvertida e ver o Shibari como algo muito íntimo. Com o tempo, ela percebeu que posição top é diferente de dominação, e que é possível ter características de sub/bottom mesmo na posição de quem amarra – uma troca horizontal, como uma dança.
O ponto de virada foi em setembro de 2024, no evento Atados no Parque em Curitiba, um evento aberto, à luz do dia e tranquilo, que ela recomenda para iniciantes. Foi ali que ela sentiu acolhimento e decidiu que precisava experimentar mais. Com a dificuldade de encontrar pessoas para amarrá-la, ela aprendeu a amarrar sozinha (self-tying) e mergulhou no hiperfoco do Shibari, comprando cordas de juta e estudando intensamente.
A Filosofia de Ensino e o Projeto IT
Mysaki tem formação em moda e matemática (licenciatura), e seu campo de pesquisa sempre foi a didática e metodologia de ensino. Ela aplica esses conhecimentos no ensino do Shibari, desde a escolha de figurinos (para performances) até a forma de ensinar. O projeto dela é o IT, que vem da filosofia oriental 'Ichigo Ichie' – viver o presente como se fosse a última vez. Ela aplica essa filosofia ao Shibari, desconectando-se do mundo para estar apenas com a pessoa no momento da amarração.
O projeto inclui:
- Aulas particulares e workshops.
- Hope Jams em Curitiba – encontros de corda onde as pessoas se reúnem para praticar Shibari, trocar ideias, tomar um refrigerante e comer salgadinhos (longe do tatame). É um ambiente acolhedor e descontraído.
- Sessões de Shibari erótico e artístico.
Ela também faz performances, considerando a composição de fibras e roupas para garantir mobilidade e conforto. Seu objetivo é mostrar que o Shibari pode ser praticado à luz do dia, sem necessariamente envolver nudez ou conotação sexual – embora não haja problema se houver. Mysaki não quer higienizar o Shibari, mas sim oferecer outras vertentes para alcançar mais pessoas que têm curiosidade, mas não querem começar em um ambiente de masmorra.
A Importância da História e do Risco no Shibari
Mysaki enfatiza que o Shibari tem uma história ligada a casas de prostituição no Japão, e que tentar apagar essa história é desrespeitoso e desvalida as pessoas que foram lesionadas para que o conhecimento atual existisse. Ela ressalta que o Shibari moderno é focado em segurança, mas surgiu de práticas de punição e lesão. Hoje, os praticantes estudam para mitigar riscos, e muitas descobertas sobre o que não fazer (como amarrar perto de nervos ou de forma a prejudicar a circulação) vieram de tentativas e erro com corpos reais.
Ela usa a frase: 'Não é sobre se acontecer, é sobre quando acontecer'. Queimaduras, dormência, contrações musculares são riscos inerentes à prática, e o importante é saber lidar com eles quando ocorrem. Ela recomenda que iniciantes vão com calma, amarrar uma perna, um braço, fazer um colete – antes de tentar suspensões complexas. O Shibari é como uma sorveteria: você prova um sabor de cada vez para descobrir o que gosta.
Segurança, Referências e Consentimento no Shibari
Mysaki dedica uma parte importante da conversa à segurança, especialmente após os recentes exposedes (denúncias públicas de abuso) na comunidade Shibari. Ela destaca a importância de buscar referências – perguntar a outras pessoas sobre o histórico de um praticante. Em Curitiba, ela tem um amigo que é o 'jornal da cidade', conhece todo mundo e pode ajudar a identificar red flags.
Negociação é fundamental: a pessoa que vai amarrar deve perguntar onde não passar a corda, e a pessoa que vai ser amarrada deve deixar claro seus limites. Para quem não sabe o que não quer, Mysaki recomenda começar pelo que já sabe que não gosta, e ir descobrindo aos poucos, com pessoas de confiança. A comunicação pós-sessão também é essencial – se algo não foi legal, é preciso falar, para que a pessoa saiba e possa melhorar (no mundo ideal). Se a pessoa repete o erro ou culpa a vítima, isso é um sinal de que é uma red flag. 'Respeite, não jogue por baixo do tapete'.
Jogo Rápido: Perguntas e Respostas
- Cor: Preto.
- Sonho: Ter seu espaço físico definitivo.
- Medo: Ser enterrada viva.
- Superpoder: Teletransporte.
- Pessoa que admira na comunidade shibari: Iluminatus (referência internacional).
- Pessoa que admira na vida: Sua avó.
- Ator/atriz para interpretá-la no cinema: Zendaya.
- Indicação de livro: 'Descolonizando Afetos', de Geni.
- Indicação de filme: '10 Coisas que Eu Odeio em Você' – seu filme conforto.
- Prática fetichista que não fez mas tem vontade: Fire Play (brincadeira com fogo).
- Limite rígido: Afogamento (teve uma crise de pânico).
- Mysaki por Mysaki: Insistente – na vida, para fazer as coisas darem certo, para se conhecer, para fazer as coisas em que acredita, mesmo que isso feche portas, pois valores não se compram.
Considerações Finais e Onde Encontrar Mysaki
Mysaki deixa suas redes sociais: o perfil pessoal é @_emysaki (com 'n' e 'k'), e o perfil dedicado ao Shibari e fetichismo é @bratinope (que é uma espécie de proteção para não derrubarem o perfil pessoal). Ela também tem o projeto IT (ICHIE), que é sua marca de ensino e práticas de Shibari. Mestre Cruel reforça o convite para que o público curta, comente, compartilhe, siga o podcast (@confissoesconsentidas e @dommcsp) e, em caso de queda das redes, acesse o site mestrecruel.com ou a rede social fetichista Kinggram. O episódio termina com a despedida 'Ciao'.