Introdução: O Podcast Confissões Consentidas e o Convidado Nero
No episódio do podcast Confissões Consentidas, o apresentador Mestre Cruel (Renan) recebe Nero. Seguindo o protocolo de acessibilidade, Renan se descreve como um homem cis branco de cabelo castanho, 'um pouco gordinho', usando uma camisa de couro com detalhes em azul. Nero, então, faz sua autodescrição: 25 anos, cabelo castanho, regata trançada com alças de corrente, corpo magro definido, branco, pessoa transmasculina não binária (pronomes elu/ele).
Infância e Juventude: Da Patricinha à Menina dos Cavalos
Nero nasceu e cresceu em São Paulo, com um período no litoral sul. Diz que só começou a 'viver de fato' a cidade após a pandemia, pois antes era muito fechado no bairro e na casa. Até os 12 anos, performava o papel de 'menina patricinha' — gostava de bonecas, 'coisinhas' — por imposição social. No entanto, sua verdadeira identificação era com os cavalos. Aos 5 anos, em um almoço de Dia das Mães, viu uma menina treinando cavalo (galopando e pulando) e fez a primeira e única birra de sua vida para pedir para andar. Seu pai cedeu, e ele praticou hipismo dos 5-6 anos até os 18-19 anos. Parou ao se tornar vegetariano por questões éticas (não queria mais se associar à indústria, embora ame os animais). Nero foi vegetariano desde os 17 anos e não come carne. Ele define o hipismo como um esporte repleto de pessoas milionárias, sem divisão por gênero (categorias são por experiência, altura dos saltos ou dificuldade).
Descoberta de Gênero e a Virada: 'Eu não sou um NPC'
Até os 16-17 anos, Nero achava que era uma 'mulher cis' — estava 'tentando performar uma coisa que disseram para ele fazer'. Seu mantra para reconectar com sua autonomia é: 'Eu não sou um NPC. Não tenho que performar um papel imposto para mim.' A descoberta de sua identidade transmasculina não binária veio depois que ele desenvolveu um senso de que 'podia ser a pessoa que quisesse'. Ele começou a hormonização com testosterona em 2021, aos 21 anos.
Primeiros Contatos com o BDSM: Da Infância aos Mangás Yuri
Nero relembra que sua primeira memória afetiva do BDSM era da infância: 'gostava de brincar de ficar presa' no jogo polícia e ladrão, e sentia uma afinidade sensorial com a situação de estar preso. Durante a adolescência, consumia mangás e animes Yuri (gênero de romance lésbico) como forma de arte erótica, pois nunca se identificou com pornografia explícita em vídeo ('fico olhando as caras das pessoas, acho engraçado, rio dos gemidos — não é kink shaming, é uma parte de mim que analisa'). Ele gravou muitas cenas suas, mas não assiste ('mais para comparação, ver como minha voz mudou com a testosterona').
Pandemia, Relacionamento e a Entrada no BDSM
Durante a pandemia, Nero foi morar com uma pessoa com quem se relacionava — que já praticava um pouco de shibari. O relacionamento, que era para ser não monogâmico, tornou-se 'fechado pelo contexto' (isolamento social). Foi nesse período que ele começou a 'brincar melhor' com o BDSM. Após o fim desse relacionamento, Nero conheceu Lui e Dani em um 'exclusive', e teve uma sessão com eles. A partir daí, integrou-se ao círculo social de fetichistas que tinham vindo de Florianópolis para São Paulo, e também conheceu Mayana e Caline (da casa Love Nox). Foi suspenso em sua segunda sessão de shibari em público. Ele se integrà 'com calma e tranquilidade'.
Posição no BDSM: Switcher Cansado, Brat e Fogo como Principal Pira
Nero se identifica como switcher ('não no sigilo, mas sou cansado'), com pouca vocação para dominar ('se precisar faz, é gostoso, tem suas piras'). Ele também é brat. Sua principal prática no momento é fire play ('coisa que eu mais faço é levar fogo, não faço fogo'). Outras preferências: bondage (restrição de movimento e sentidos), sensation play (busca pelo sensorial) e exibicionismo. Ele atribui seu 'quê de perigo' ao fato de lidar com cavalos de 500 kg desde os 5 anos.
Das Artes Visuais ao Circo: Iluminação como Paixão
Após parar o hipismo, Nero passou anos sem uma paixão para cultivar como hobby. Tentou desenho e artes visuais, mas 'cometeu o erro de querer já meter trabalho' sem ter prática suficiente. Trabalhou em creche de cachorro, assistência de fotografia, barista (fez curso, tecnicamente é 'barista aposentado'), e chegou a fazer cursinho para veterinária. Teve um burnout e, morando sozinho, teve a ideia de fazer uma escola de teatro — não como ator, mas como iluminador. Antes disso, fez cursos de extensão de introdução às artes circenses no Sesc. 'Troquei o cavalo pelo circo. A única crueldade animal é comigo mesmo quando me exercito demais.' Ele encontrou no circo um lugar onde podia se apaixonar e se aprofundar, e a iluminação permitiu um ritmo de trabalho que não tira 'a vontade de viver' nem 'o tesão pela vida'.
Interseção entre Arte e Fetiche: A Persona Cômica e o Brat
Nero percebeu que o fetiche se tornou um 'lugar de conforto' e uma forma de expressar quem ele é. Ele alimenta sua persona cômica no fetiche — um 'palhacinho bratezinho, sarcástico', que faz um jogo de 'subordinado que faz merda intencionalmente para colocar o mestre que está acima na hierarquia, numa jogada de palhaço branco'. A arte circense e o fetiche se comunicam nessa performance de hierarquia e subversão.
Jogo Rápido: Vermelho, Medo de Cair de Moto e Pet Play
No quadro de perguntas rápidas, Nero revela que sua cor favorita é vermelho. Uma interjeição que usa o tempo todo: eita. Seu medo é cair de moto. A pessoa que admira não é um ídolo, mas sua rede de apoio. Para interpretá-lo em um filme, escolheria Yuri (membro de sua equipe, que 'o entende de boa'). Uma prática fetichista que ainda não fez mas tem vontade: pet play. Por fim, ele se define em uma frase: 'Organizadamente caótico'.
Considerações Finais e Redes Sociais
Nero divulga suas redes sociais: Instagram pessoal @nerogamurphy e Instagram fetichista @deviantlittlemonster (deviant = desviante; 'não é da Lady Gaga'). Mestre Cruel divulga @confissoesconsentidas, @domcsp e o site www.mestrecruel.com.