Confissões Consentidas - Ep. 10 - Dornelles

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Introdução: O Podcast Confissões Consentidas e o Princeso do Funk

No episódio do podcast Confissões Consentidas, o apresentador Mestre Cruel (Renan) recebe o cantor Dornelles, a quem apresenta como 'princeso do funk'. O programa é um espaço da comunidade fetichista para o mundo, e Renan segue o protocolo de acessibilidade descrevendo-se como um homem branco de 33 anos, cabelo castanho, usando uma camisa de couro sem mangas. Dornelles, então, faz sua autodescrição: tem 26 anos, vem do 'sufoco de Olaria', no pé do Complexo da Penha, no Rio de Janeiro. Ele se define como cantor de funk LGBT, com letras que misturam 'muita baixaria, coisinhas leves, um pouco de política e ações conscientes'.

Infância, Igreja e a Repressão da Sexualidade

Dornelles revela que sua infância foi profundamente marcada pela religião: seu pai é pastor e sua mãe é levita (cantora no coral). Ele chegou a ler a Bíblia toda e chegou a pedir a Deus que o 'curasse' de sua homossexualidade. Aos 17 anos, no colégio, ele percebeu que se sentia atraído por outros meninos, mas sua primeira reação foi a repressão, pois em seu bairro e família ser LGBT era considerado 'uma grande vergonha'. Ele relata que entre 2016 e 2020 houve muitas discussões em casa, chegando a ter o celular e 'tudo' tirado dele. Hoje, porém, ele mantém uma boa relação com sua mãe, chegando a viajar com ela e seu marido. Dornelles salienta que, em sua época (nascido em 1999), ser um 'viado' com unha ou cabelo pintado era motivo para ser 'massacrado' — algo que, segundo ele, felizmente melhorou para as crianças de hoje.

Carreira: Covers, Funk e a Estética Fetichista como Rebeldia

Dornelles começou sua carreira em 2019 fazendo covers ruins no YouTube. No início, ele engrossava a voz para cantar, pois as referências do funk em sua região (como o baile da Gaiola) eram todas hétero, e ele sentia que precisava disfarçar quem era. A virada veio na pandemia de 2021, com o clipe de 'Queimado', onde ele reuniu 40 LGBTs no Complexo da Penha — um clipe que ele considera um 'estouro' e que representa muito para ele. Sobre sua relação com o fetichismo, Dornelles afirma que não necessariamente se considera um praticante, mas que a estética fetichista o atrai profundamente porque ela carrega rebeldia — a mesma palavra que move sua música. Ele precisou ser rebelde dentro de sua própria casa para mostrar quem era, e vê no universo fetichista esse mesmo espírito de liberdade e afirmação.

Clipes, Fetiches e Autenticidade: Putífero e a Cena do Rio

O clipe de 'Putífero' foi gravado na boate Seven (no Rio de Janeiro), um espaço de sauna interativa. Dornelles fez questão de escalar atores que realmente trabalham na cena local, com corpos diversos — não os padrões musculosos e brancos. Ele cita nomes como Licurgo (um homem com barbão) e afirma que a boate Seven, em um dia comum após o trabalho, exatamente o que se vê no clipe. Outras casas mencionadas são a Taurus e a Black Cat. Dornelles esclarece que, embora frequente esses ambientes para apoiar amigos (como Jorge, dono de uma casa), ele e seu marido Thiago têm um relacionamento monogâmico há 7 anos (juntos desde 2012). Ele ressalta que é possível ser monogâmico e ainda assim frequentar espaços fetichistas, conversar com pessoas e fazer amizades — e que é importante trazer essa 'normalidade' para seus fãs, quebrando a ideia de que quem trabalha com pornografia ou ambientes sexuais só fala de sexo.

EP 'Putaria Legalizada': Política, Ódio e Afirmação

Dornelles lançou recentemente o EP 'Putaria Legalizada'. A capa viralizou e gerou polêmica, mas ele explica que a capa é uma 'reafirmação' de quem ele é: 'tá tudo bem se todo mundo me atacar por ser viado, eu sou viado e vou sustentar todo esse ódio'. Ele afirma que não existe outro caminho para um homem artista gay senão o ódio e as críticas — tudo vira polêmica — e que ele faz questão de ser 'cru' em suas letras. As faixas incluem títulos como 'Carícia na Próstata', 'Passiva Agressiva' e o 'A Chuca Vai Cantar'. O EP é altamente político: a faixa 'Blindado' (um feat com Aruan Shiker, artista da Bahia) fala sobre tiroteios, operações policiais e a realidade de moradores do Rio de Janeiro. A faixa 'Visita Íntima' termina com o discurso de Inês Brasil ('Policial, para de matar'). A faixa 'RJ Tá Foda' aborda a violência urbana. Dornelles reflete sobre a dor de ver amigos de infância se tornarem traficantes — pessoas com quem jogava videogame e que hoje estão na esquina da rua de sua mãe. Ele também critica a valorização de artistas como Anitta (que considera 'revolucionária' e que o Brasil deveria valorizar 'mil vezes mais') e cita um sonho de parceria com Beyoncé. Seu top 3 do EP, segundo um membro de sua equipe, inclui 'Blindado' (a favorita), 'Do Fantástico' e 'Carícia na Próstata'.

Clipes, Polêmicas e a Música 'Noi'

Dornelles destaca o clipe de 'Noi' (com quase dois anos, mas ainda muito querido), que traz referências à lacraia (interpretada por Cesane) e coreografias. O clipe gerou polêmica por incluir Baby Sunset, uma criança de 13 anos que dança voguing. Dornelles defende a escolha: arte não é literal, e Baby Sunset é uma criança super talentosa que compete e vence adultos na cena ballroom do Rio de Janeiro. Ele quebra o tabu conservador de que 'gays querem fazer a cabeça das crianças' ao mostrar uma criança artista sendo aplaudida por sua arte.

O Boicote de 'Putífero' e 'Putífero Pro Max'

Dornelles revela que as músicas 'Putífero' e 'Putífero Pro Max' foram derrubadas do Spotify devido a reclamações de duas pessoas que trabalhavam com ele. 'Putífero Pro Max' estava no Top 7 Viral do Brasil. Ele está em processo judicial contra essas pessoas, aguardando uma liminar para que as músicas voltem enquanto o processo corre. Ele afirma que não pode revelar os nomes por orientação de seus advogados, mas que assim que possível, falará publicamente. A música, mesmo derrubada, continua tocando na Europa e chegou ao Japão — o que ele considera 'muito louco' para alguém que veio do Complexo da Penha.

Jogo Rápido: Medo, Sonhos e Autenticidade

No quadro de perguntas rápidas, Dorneles revela que seu medo é 'voltar pro sufoco'. Seu sonho é 'ficar uma vez no topo' (topo relativo, ele deixa Deus cuidar). Se pudesse ter um super poder, escolheria voar. Sua música favorita do momento é 'Ice do Fantástico'. Quando perguntado o que gostaria que as pessoas sentissem com seu EP, responde: 'Liberdade'. 'Seja você. Não importa se você é um homem gay na indústria. Não tem outro caminho senão o ódio. Então mergulhe. Foda-se o público alvo. Foda-se o nicho. Seja autêntico.' Por fim, ele define a relação entre Rafael (seu nome civil) e Dornelles: 'Rafael pelo Dorneles é sacrifício — Rafael sacrifica muito para o Dornelles existir'. Ele se define como 'rei'.

Considerações Finais e Redes Sociais

Dornelles agradece a participação e divulga seu perfil no Instagram: @dornelismusic. Mestre Cruel divulga as redes do podcast (@confissoesconsentidas e @domcsp), o site mestrecruel.com e a rede social fetista brasileira Kink Grun. Dornelles anuncia que cantará no evento Mr. Fetiche no dia seguinte à gravação.