Introdução: O Podcast Confissões Consentidas e a Descrição Acessível
No episódio do podcast Confissões Consentidas, o apresentador Mestre Cruel (Renan) dá as boas-vindas à convidada Mis Bruna. O podcast tem como missão falar sobre fetiches e mostrar a dimensão humana por trás das práticas. Seguindo o protocolo de acessibilidade do programa, Renan se descreve como um homem branco de 33 anos, cabelo castanho com mechas, vestindo uma camisa de couro com detalhes em laranja. Mis Bruna, então, faz sua autodescrição: uma mulher branca de 28 anos, com cabelo comprido e loiro, piercings no nariz, vestindo roupa preta de veludo e luvas. Ela se apresenta como dominadora profissional de BDSM há 9 anos, educadora sexual, estudante de psicologia e pesquisadora.
Infância, Repressão Religiosa e Casamento Forçado
Ao ser questionada sobre o que estaria escrito em seu 'verbete do Wikipedia', Mis Bruna revela uma história de superação. Ela vem de uma família evangélica com pais pastores, criada em um ambiente rígido para ser uma mulher submissa. Ela relata ter recebido aulas sobre como se portar, falar, cruzar as pernas e cuidar do futuro marido. Aos 17 anos, foi obrigada a casar com um homem quase 40 anos mais velho. Nascida no Paraná e mudada para a Bahia aos 11 anos, ela se mudou com o marido para São Paulo após o casamento. Ela afirma que, até então, não conhecia o prazer ou o desejo, especialmente o prazer feminino, e que o único prazer que conhecia era o de 'proporcionar'. Em contraste com a rigidez familiar, sua avó foi uma figura materna forte que criou 16 filhos sozinha em situação de pobreza e não era nada submissa.
Violência, Divórcio e Recomeço Sozinha em São Paulo
Aos 18 anos, após um episódio de violência física intensa em São Paulo, Mis Bruna decidiu se divorciar. Ela buscou diálogo com seus pais, mas não teve apoio, pois a igreja não permite o divórcio. Ela descreve o processo como uma ruptura intensa, envolvendo cárcere por uma semana e violências física e moral. Ao assinar o divórcio na Líbero Badaró, em um dia chuvoso, o ex-marido não devolveu seus documentos nem roupas, deixando-a completamente sozinha na cidade. A própria juíza, ciente do motivo, tentou convencê-la a permanecer casada, alegando arrependimento e promessas de mudança do parceiro. Mis Bruna encontrou abrigos para mulheres vítimas de violência, conheceu as ruas e locais de prostituição, que a acolheram. Nesse período, ela descobriu a literatura de Foucault, seu primeiro contato com a dinâmica de poder, e se conectou com a Umbanda e a energia de Pombagira, que ela associa à profundidade do desejo e do corpo.
A Descoberta do BDSM como Ato Político e Subversão
Para Mis Bruna, o BDSM é um ato político que engloba contexto social, econômico, história de vida e contexto familiar. Ela pesquisou o contexto histórico do BDSM, entendendo a subversão por trás das lutas de minorias e mulheres feministas que precisavam de voz na sociedade. Ela explica que o dress code (látex, couro) não é apenas vestuário, mas uma forma de ser visto na sociedade. Após cerca de 3 anos de estudos e pesquisas, ela encontrou sua primeira pessoa com quem pôde ter uma troca prática, descrevendo o momento como um 'ápice' em sua vida. Ela faz questão de diferenciar a submissão sexual no BDSM da submissão que viveu no casamento forçado, afirmando que são 'coisas totalmente diferentes'. Para ela, não existe separação entre a Bruna e a Miss — o BDSM a ensinou a ser quem ela é como mulher e pessoa.
Dominação, Controle e a Conexão Sensorial
Mis Bruna reflete que a dominação/submissão pode ser vista sob duas óticas: controle ou poder. Para ela, pessoalmente, o controle é muito mais forte que o poder, especialmente por lidar com ansiedade — o incerto é um gatilho, enquanto no jogo BDSM, as coisas acontecem 'de forma artificial' como ela quer, do jeito que quer e na hora que quer. Ela enfatiza que o que lhe causa prazer não é 'causar a dor' em si, mas sim o movimento do corpo, a entrega, o olhar, a confiança, o som do flogger e a composição do momento. A confiança na pessoa dominante é o que possibilita acessar lugares mais elevados de desejo. Ela também destaca que muitas pessoas neurodivergentes encontram no BDSM um lugar de conforto justamente por causa do direcionamento e das regras bem definidas, comparando o espaço a 'um campo quentinho, confortável e com regras bem definidas'.
Sessões Profissionais: Briefing, Contratos e Conexão Humana
Como prodome (dominadora profissional), Mis Bruna não aceita qualquer cliente. Seu processo começa com uma conversa amigável para conhecer a pessoa, seu contexto no BDSM, seus fetiches, desejos e sua história. Ela afirma que precisa sentir e se conectar com a pessoa para realizar uma sessão, pois precisa tocar, olhar no olho e ter vínculo — um vínculo que não se constrói de um dia para o outro. Após o primeiro diálogo, inicia-se uma troca saudável de interação. Ela possui um briefing completo sobre saúde física, saúde emocional e comportamento da pessoa. As sessões envolvem acordos sobre práticas, limites rígidos, palavras de segurança e aftercare. Ela utiliza contratos e apresenta à pessoa uma lista de práticas que lhe dão prazer, para que ambas as partes encontrem conexões. Mis Bruna trata seus clientes como seres humanos, não gosta de distância ou de se colocar como ser superior, pois também paga contas, é aluna de faculdade e às vezes fica 'doentinha'.
Diferenciação entre Findom e Prodom
Durante a conversa, Renan e Mis Bruna fazem um adendo importante para esclarecer a audiência: Findom (financial domination) é diferente de Prodom (dominação profissional). Embora possam andar juntas, não são a mesma coisa. Uma pessoa que pratica Findom não necessariamente é uma Prodom, e vice-versa. O esclarecimento surge porque muitas pessoas confundem o trabalho de uma dominadora profissional com a prática de fazer o submisso pagar contas, o que não é o foco de Mis Bruna.
Jogo Rápido: Frases, Superpoderes e o Pico do Jaraguá
No quadro de perguntas rápidas, Mis Bruna revela que um pensador que admira é Ka Yung, que trabalha com o conceito de máscaras. Viola Davis seria a atriz escolhida para interpretá-la em um filme sobre sua vida. Ela não mudaria nada em seu passado. Como super poder útil, escolheria 'acabar com a desigualdade no mundo'. Como super poder inútil, sugeriu 'subir bem alto' (embora Renan tenha achado útil). Ela se define em uma frase como 'sobrevivente'. Sobre práticas fetistas que ainda não realizou, ela cita o 'uso de sonda uretral com eletrochoque' (já usou apenas a sonda) e brinca sobre fazer spanking no Pico do Jaraguá.
Considerações Finais e Redes Sociais
Renan agradece a participação e reforça a importância de compartilhar o conteúdo para desmistificar o fetichismo. Mis Bruna deixa suas redes de contato: Instagram @mistries.bruna e Twitter (X) Dominatrixbruna. Renan também divulga o site www.mestrecruel.com e as redes @confissõesconsentidas e @domcsp, mencionando a possibilidade de encontrar o conteúdo no Kink (rede social fetista brasileira) caso o Instagram derrube os perfis.