O Advogado do Futuro: Habilidades, Tecnologia e o Impacto da IA no Mercado Jurídico
O mercado jurídico está passando por uma transformação sem precedentes. Em uma conversa reveladora, Lucas, professor da FGV Law e pesquisador do Centro de Estudos e Pesquisas (CEP), compartilha insights valiosos sobre o futuro da profissão, baseados em pesquisas empíricas realizadas com centenas de escritórios e departamentos jurídicos. A principal conclusão é clara: a tecnologia não é uma vilã, mas uma aliada que exige novas habilidades e uma profunda compreensão do Direito.
A Trajetória de um Jurista Tecnólogo: Da Propriedade Intelectual à Pesquisa Aplicada
A jornada de Lucas no mundo jurídico começou de forma não linear. Apesar de sempre ter sido um entusiasta de tecnologia, videogames e computadores, sua paixão pela leitura e pelo estudo dos "porquês" o levou ao Direito. Durante a graduação, descobriu a área de Propriedade Intelectual, que naturalmente lida com inovação e tecnologia. Essa descoberta foi o ponto de partida para uma carreira que une o universo jurídico ao tecnológico.
Lucas atua como professor na pós-graduação da FGV Law, lecionando disciplinas de Direito e Tecnologia, Proteção de Dados e Direito Digital. Além disso, auxilia na disciplina de Direito Digital da graduação, ao lado de Marina Feferbaum, Alexandre Pacheco e Guilherme Klafke. O objetivo é claro: formar profissionais jurídicos que já tenham a tecnologia como uma aliada em sua prática diária. Sua trajetória acadêmica sempre caminhou lado a lado com o mercado, e a pesquisa aplicada tornou-se uma ferramenta essencial para entender e antecipar as tendências do setor.
Metodologia de Ensino: Estudos de Caso e a Batalha de Prompt
A abordagem pedagógica adotada por Lucas e seus colegas é inovadora e prática. Na disciplina de Direito Digital, a metodologia ativa é a base do aprendizado. Os alunos não apenas assistem a aulas expositivas, mas mergulham em estudos de caso emblemáticos, envolvendo grandes empresas de tecnologia no Brasil. A participação de convidados que vivenciaram esses casos ou os estudam com profundidade enriquece a experiência, proporcionando um aprendizado "mão na massa".
Os alunos são desafiados a apresentar seminários e a propor soluções jurídicas para problemas complexos. Devido ao grande número de estudantes, as turmas foram divididas para garantir uma interação mais próxima. Uma das atividades mais criativas é a "batalha de prompt", em que os alunos, divididos em grupos, recebem um mesmo caso e exploram como diferentes comandos (prompts) podem gerar resultados distintos em sistemas de inteligência artificial. O exercício ensina, na prática, que a tecnologia é uma ferramenta poderosa, mas que seu uso responsável e eficaz depende da habilidade de quem a opera.
Diferenciando Tecnologia de Inteligência Artificial
Lucas faz uma distinção crucial entre "tecnologia" e "inteligência artificial". A IA é um campo de estudo amplo e antigo, que engloba subáreas como aprendizado de máquina e modelos de linguagem (LLMs). O boom recente da IA generativa popularizou o termo, mas é um erro reduzi-lo a ele. Quando se fala em novas tecnologias para o Direito, é preciso considerar um espectro muito mais amplo de ferramentas.
- Jurimetria: Estatística aplicada ao Direito, utilizada para analisar a probabilidade de sucesso de um caso com base no histórico de decisões de um determinado tribunal ou juiz.
- Blockchain: Tecnologia de registro distribuído, útil para a preservação de provas devido à sua imutabilidade e segurança.
- Sistemas proprietários e de mercado: Ferramentas especializadas para gestão de processos, análise de contratos e outras tarefas jurídicas.
A escolha da tecnologia ideal depende do caso de uso específico de cada escritório ou profissional. Enquanto a jurimetria pode auxiliar em decisões estratégicas sobre acordos, o blockchain pode ser a solução para garantir a integridade de uma prova digital. A IA generativa, por sua vez, é mais uma ferramenta nesse ecossistema, e não a única.
Jurimetria no Brasil: Previsibilidade com Limitações
Sobre a eficácia da jurimetria no cenário brasileiro, Lucas é ponderado. Ele reconhece que a complexidade da mente humana e a subjetividade dos juízes impõem limites à previsibilidade. No entanto, quando aplicada a bases de dados higienizadas e bem curadas, a jurimetria pode oferecer boas medidas estatísticas. É possível, por exemplo, analisar a linha de raciocínio de um magistrado específico e avaliar se é mais vantajoso fazer um acordo ou levar o caso a julgamento.
A dificuldade, segundo ele, reside em explicar ao cliente por que casos semelhantes podem ter resultados diferentes em varas distintas. Ainda assim, para fins de análise estatística e gestão de riscos, a tecnologia já atingiu um bom estado de desenvolvimento. A evolução das pessoas e a mudança de entendimento dos juízes ao longo do tempo são fatores que a tecnologia precisa continuar aprendendo a lidar.
A Pesquisa do CEP: O que o Mercado Realmente Busca
Uma das contribuições mais valiosas de Lucas é a apresentação dos dados da pesquisa do CEP sobre o advogado do futuro. Divulgada em 2023, com base em dados coletados no mesmo ano, a pesquisa ouviu cerca de 500 escritórios de advocacia e departamentos jurídicos. O resultado mais surpreendente foi a descoberta da habilidade que mais faltava nos novos profissionais: saber Direito.
Muitos entrevistados relataram que os candidatos se preocuparam demais em desenvolver outras habilidades e de menos em dominar o conhecimento jurídico fundamental. O recado é claro: a base técnica é o core da profissão e não pode ser negligenciada. A pesquisa, no entanto, não parou por aí. Ela também revelou a importância das soft skills, como a capacidade de negociação, visão de negócio e gestão de riscos, que são essenciais para que o advogado dialogue com o board de uma empresa, por exemplo.
A Tecnologia como Habilidade de Diálogo
Onde a tecnologia se encaixa nessa expectativa? Lucas explica que não se espera que o advogado seja um programador, mas sim que ele saiba conversar com os desenvolvedores. Ele precisa ter desenvoltura para entender o que um técnico pergunta e conseguir dialogar minimamente. Saber que "Python é uma linguagem que os desenvolvedores usam" já é um diferencial. A tecnologia, portanto, não é uma hard skill no sentido de programar, mas uma habilidade técnica de comunicação e entendimento que permite ao jurista transitar em um mundo cada vez mais interconectado.
O profissional do futuro precisa ter a sensibilidade de combinar as habilidades técnicas com as soft skills para transitar sem percalços entre o mundo jurídico, o técnico e o de negócios. Afinal, as empresas esperam que o jurídico não apenas resolva problemas, mas que dê resultado e contribua para a estratégia do negócio.
O Impacto da IA Generativa: Menos Contratação, Mais Qualificação
A pesquisa mais recente do CEP, divulgada em 2026, focou nos impactos da inteligência artificial generativa. Os dados revelam que, embora não haja uma demissão em massa de profissionais júniores e estagiários, as empresas estão contratando menos para esses níveis. A expectativa é que o advogado júnior já entre com um nível de responsabilidade maior, mais próximo de um pleno, pois tarefas como fazer a primeira versão de um contrato estão sendo executadas por sistemas de IA.
A pesquisa também identificou uma lacuna preocupante: uma boa parte dos profissionais usa IA para assuntos que não conhecem, e apenas quem fez o prompt revisa a entrega. Como alguém que não conhece o assunto pode fazer uma boa revisão? Essa é uma questão crítica, pois o risco de inserir informações equivocadas é grande. A orientação é clara: use a IA, mas peça ajuda a um especialista ou estude mais o assunto para poder revisar o conteúdo de forma eficaz.
O Funil Está Cada Vez Mais Estreito
Lucas observa que o funil de contratação está cada vez menor e a peneira, mais fina. As empresas estão contratando menos, mas melhor. Saber lidar com tecnologia, especialmente IA generativa, já é um diferencial competitivo para a contratação. A visão de longo prazo é essencial: se os escritórios focarem apenas no custo imediato e não investirem na formação de novos profissionais, estarão fadados a não ter bons profissionais no futuro. Os estagiários de hoje serão os sócios e executivos de amanhã.
A Revolução da IA Generativa: Uma Mudança de Paradigma
Lucas e o entrevistador concordam que a IA generativa pegou a todos de surpresa, inclusive pensadores como Richard Susskind, autor do clássico "Tomorrow's Lawyers". A grande diferença desta revolução tecnológica é que ela está impactando o trabalho intelectual de forma severa, algo que não aconteceu nas revoluções anteriores. Tarefas que exigiam habilidades específicas, como a edição de uma foto por um designer, estão sendo automatizadas.
O que tornou a IA generativa tão disruptiva foi a sua popularização e acessibilidade. Antes, sistemas de IA eram caros e restritos a grandes bancas. Hoje, com uma assinatura de R$ 100 a R$ 150 por mês, qualquer advogado, inclusive no interior do país, tem acesso a uma ferramenta poderosíssima. Isso nivelou o jogo, e a questão não é mais se o escritório usa IA, mas como ele usa.
Governança e o Diferencial Competitivo
O diferencial competitivo agora está no nível de governança, na qualidade da base de dados e na capacidade de treinar a IA com o conhecimento específico do escritório. Assim como as planilhas de M&A de um escritório nunca foram iguais às de outro, o sistema de IA também não será. A forma como cada escritório usa a tecnologia e o quanto de conhecimento ele já gerou ao longo dos anos para treinar um modelo proprietário é o que definirá a entrega de valor ao cliente.
A Precificação dos Honorários e o Futuro do Trabalho Jurídico
A pesquisa do CEP também abordou o impacto da IA nos modelos de precificação. Cerca de 17% dos entrevistados acreditam que o modelo de hora faturável tende a cair nos próximos cinco anos. A lógica é simples: se uma tarefa que levava 1 hora e 15 minutos agora leva 15 minutos, faz sentido cobrar por 15 minutos. A tendência é que a cobrança migre para modelos baseados em demanda, projeto ou benefício econômico, com honorários mais fixos e menos flutuantes.
Além disso, as demandas estão chegando diferentes. O escritório não recebe mais um pedido para "fazer o contrato", mas sim para "revisar um contrato" que já foi redigido com auxílio de IA. Essa mudança no fluxo de trabalho impacta diretamente o modelo de precificação.
Um ponto crucial levantado é que a grande maioria dos entrevistados não sentiu uma redução na carga de trabalho com a IA. Pelo contrário, muitos relataram que o trabalho se manteve ou até aumentou. Implantar e gerenciar a IA dá muito trabalho, e a tendência é que, com mais eficiência, as empresas e escritórios assumam mais demandas, ocupando o tempo que seria "liberado".
O Brasil no Cenário Global: Protagonismo e Regulação
Questionado sobre a posição do Brasil em relação a mercados mais desenvolvidos, Lucas é otimista e critica a "síndrome de vira-lata". Ele afirma que o país não está atrasado e que, em alguns aspectos, é visto como um grande centro de referência. A aprovação do ECA Digital, por exemplo, é uma lei que o mundo inteiro está observando.
No que diz respeito à IA no mercado jurídico, o Brasil também não fica para trás. As Lawtechs e Legaltechs internacionais querem muito vir para cá por causa do volume de dados: são 38 milhões de processos novos por ano, um verdadeiro celeiro para treinar sistemas. O Judiciário brasileiro, inclusive, é pioneiro no uso massivo e declarado de IA, com resoluções do CNJ que estabelecem diretrizes para seu uso.
Sobre a necessidade de uma regulação específica para IA, Lucas defende um equilíbrio. Ele critica o modelo europeu, que, em sua visão, "regulou por regular" e acabou minando a inovação. A abordagem ideal, segundo ele, é a da regulação responsiva, similar à LGPD: permitir que a tecnologia se desenvolva, mas com transparência e responsabilização em caso de danos. A discussão não deve ser sobre abrir a propriedade intelectual dos modelos, mas sobre garantir que seu uso não cause mal às pessoas.
Conclusão: Resistir Menos e Aprender Mais
A mensagem final de Lucas para os estudantes e profissionais de Direito é de adaptação e abertura. A tecnologia veio para ficar e não vai embora. O Direito nem sempre vai conseguir acompanhar a tecnologia do ponto de vista regulatório, mas os profissionais não podem fechar os olhos. É preciso aprender a manusear e lidar com isso, entendendo que a IA pode ser muito mais uma aliada do que uma vilã que vai tirar empregos.
Ela pode ser um bom assessor, um bom estagiário, que auxilia no trabalho e permite que o advogado foque no que realmente importa: a visão estratégica e a solução de problemas complexos. A pesquisa do CEP, que terá um próximo passo em fevereiro de 2027 para medir o ROI e o valor gerado pela tecnologia, serve como um chamado à ação. Para os escritórios, o recado é: fiquem alertas. Para os profissionais, a orientação é: resistam menos e estejam mais abertos a aprender, pois os impactos podem ser extremamente positivos.