ANÁLISE TALKS #001 - Felipe Chiarello: Repensando a formação do advogado

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O Direito Nunca Foi Tão Necessário: Formação, Mercado e as Novas Fronteiras da Advocacia

O cenário atual para o estudante de direito e para o jovem advogado é, sem dúvida, desafiador. Com um mercado saturado, a ascensão da inteligência artificial e as mudanças constantes nas relações de trabalho, a pergunta que ecoa é: qual o futuro da profissão? Em uma conversa profunda e esclarecedora, o Professor Felipe Chiarello, renomado jurista e Diretor da Faculdade de Direito do Mackenzie, aborda esses temas com a experiência de quem vivencia a academia e a prática jurídica há décadas. A mensagem central, no entanto, é otimista e transformadora: o direito não vai acabar, ele vai se reinventar, e a chave para essa nova era está em uma formação humanista, ética e multidisciplinar.

A Crise do Ensino Jurídico: Uma Questão Cíclica e Geracional

O Professor Felipe inicia a discussão contextualizando a chamada "crise do ensino jurídico", afirmando que ela não é um fenômeno novo. Ele menciona uma palestra de um professor do Maense que identificou registros em jornais de 1890 já discutindo a crise do ensino. Portanto, trata-se de um debate cíclico, que hoje se manifesta de forma mais intensa devido a questões geracionais e à velocidade das transformações tecnológicas e sociais. Para o professor, essa dificuldade não é exclusiva do direito, mas permeia todo o sistema educacional, desde o ensino básico até o superior, que é o ponto de deságue de todos os desafios acumulados.

O cerne da questão, segundo ele, está em entender nosso papel nesse processo e buscar melhorar aquilo que recebemos de herança educacional. A saída não está em lamentar a crise, mas em agir proativamente para reformular o ensino, tornando-o mais engajador e conectado com as necessidades do mundo real. A reflexão proposta é sobre como podemos melhorar a formação que recebemos e, a partir dela, construir uma nova realidade para as próximas gerações de profissionais.

Da Paixão pela Sala de Aula à Liderança Acadêmica: A Trajetória de um Educador

A trajetória do Professor Felipe Chiarello é um exemplo de como a paixão pelo ensino e o desejo de transformação podem guiar uma carreira brilhante. Desde o fim da graduação, ele já sabia que queria ser professor, um objetivo que o levou a buscar o mestrado e o doutorado na PUC, movido pela admiração pelo professor Paulo de Barros Carvalho. Sua história é marcada por um episódio que revela sua essência como educador: quando recebeu nota 4 em uma prova de tributário, mesmo tendo certeza do conteúdo, e foi desafiado pelo professor a explicar sua resposta na lousa. Ao defender seu ponto de vista com argumentos, convenceu o mestre, que alterou sua nota para 10, selando sua vocação: "Nossa, isso é muito legal, eu quero ser professor".

Ao longo dos anos, consolidou seu estilo, que prioriza o aprendizado do aluno em detrimento da nota em si. Esse compromisso é reconhecido pelos estudantes, pois foi patrono ou homenageado em todas as turmas que lecionou no Mackenzie, um feito notável, especialmente por lecionar Direito Econômico, uma disciplina que, para muitos, não tem o apelo imediato do Direito Penal. Para ele, a chave do sucesso está em conectar-se com os alunos e demonstrar a importância prática e conceitual da matéria, que dialoga diretamente com o Direito do Estado e a reforma do Estado, áreas de sua especialidade.

A Mudança de Área: Um Giro Acadêmico e Pessoal

Um momento crucial em sua vida acadêmica ocorreu quando, ainda no mestrado em Direito Tributário, um professor o criticou duramente, chamando sua interpretação de "imbecil". Ao defender seu ponto de vista, citando o próprio Paulo de Barros Carvalho, o professor ficou constrangido por ter criticado seu chefe. Esse episódio, que poderia ter sido um obstáculo, tornou-se um impulso. Ele precisou mudar de área, migrando para o Direito Constitucional, onde se encontrou verdadeiramente. Essa reviravolta, impulsionada por uma crítica inicial, o levou a seu verdadeiro caminho, e ele reflete: "Às vezes alguém acha que tá te puxando para baixo, mas tá te empurrando para cima." Foi essa trajetória que o conectou ao Direito Econômico no Mackenzie, completando seu leque de atuação.

O Mercado de Trabalho e a Estratégia do Oceano Azul

Diante do cenário assustador para os novos advogados, com quase 2.000 cursos de direito no Brasil, 200.000 inscritos na OAB e uma taxa de reprovação de 80%, o professor traz uma mensagem de esperança, mas sem ilusões: "Sempre tem espaço para quem é bom." Ele compara a situação à "Estratégia do Oceano Azul", em que a chave não é competir no mercado saturado e sangrento (oceano vermelho), mas criar um novo modelo de atuação, como fez o Cirque du Soleil. A ideia é que o profissional de direito deve contar uma história diferente, desenvolver habilidades que o destaquem da multidão e, com isso, encontrar seu espaço, não apenas para estágios, mas para uma carreira de sucesso.

Networking e a Formação como Diferenciais

Para alcançar esse espaço, duas coisas são fundamentais: o networking e uma formação sólida. A vida acadêmica deve ser vista como um ambiente para construir uma rede de contatos, um conceito popularizado pelo livro "A Cauda Longa", onde as oportunidades surgem por meio de relações pessoais. O professor exemplifica com a história de Guy Kawasaki, que, sem currículo, foi levado por um colega para trabalhar na Apple e, por mérito, tornou-se vice-presidente da empresa. Da mesma forma, alunos do Mackenzie que se destacam em competições internacionais, como o Vis Moot de Viena, são procurados por grandes escritórios, que veem neles talentos diferenciados.

Por outro lado, ele alerta para o risco de as grandes empresas, como JBS, XP e BTG Pactual, estarem criando seus próprios cursos, substituindo a universidade por uma visão singular de formação voltada para seus próprios interesses. O perigo é o empobrecimento da formação geral e a falta de uma visão crítica e abrangente que só uma universidade plural pode oferecer. A universidade nunca foi tão necessária para formar cidadãos e profissionais completos, capazes de pensar além das necessidades imediatas de uma única corporação.

O Papel da Universidade Diante da Inteligência Artificial

A inteligência artificial (IA) é uma das maiores preocupações e, ao mesmo tempo, oportunidades para a advocacia. O professor é categórico ao afirmar que a universidade deve incorporar a IA em sua formação, mas com um arcabouço ético, antropológico e psíquico para orientar seu uso. O objetivo é ensinar que "não vale tudo com IA" e que o profissional precisa entender os limites e o potencial da ferramenta para não ter seu cérebro atrofiado pela tecnologia. A discussão propedêutica e ética nunca foi tão necessária para preparar o advogado para um mundo onde o uso irresponsável da tecnologia pode custar caro.

Nesse sentido, o Mackenzie está na vanguarda, tendo lançado a IA Generativa Inspira e firmado parcerias com o Google para criar agentes específicos para os alunos, sempre com o acompanhamento e a discussão dos limites éticos. A ideia não é substituir a inteligência do aluno, mas potencializá-la com ferramentas modernas, ensinando-o a construir agentes de IA que o auxiliem, mas que não façam todo o trabalho por ele. A formação superior, portanto, deve prover o aluno das ferramentas e, principalmente, da sabedoria para usá-las.

A Formação Multidisciplinar e a Cultura: O Antídoto Contra a Chatice

Um dos pontos mais marcantes e originais da conversa é a defesa da formação multidisciplinar e cultural. O professor conta a história de um estagiário que era tecnicamente brilhante, mas extremamente chato, incapaz de manter uma conversa sobre música, cinema ou arte. A falta de repertório cultural o tornava um profissional limitado, que não conseguia se conectar com clientes em um nível mais profundo. Em contrapartida, ele relata um caso em que, ao negociar um contrato com um cliente italiano, sua habilidade para conversar sobre a cidade de Gênova, tomar um vinho e demonstrar interesse genuíno pela cultura do outro, fez com que o cliente cancelasse o contrato com o escritório de um advogado "chato" para fechar negócio com ele.

O exemplo é um poderoso lembrete de que o direito é, acima de tudo, uma profissão de relações humanas. O cliente não quer apenas um técnico em leis, mas um conselheiro, um parceiro que entenda suas dores, seus interesses e seu mundo. Assistir a um filme, ler um livro, ver uma peça, dançar e entender sobre arte são habilidades tão importantes quanto conhecer o Código Civil. A universidade tem a função essencial de promover essa socialização do conhecimento, formando pessoas interessantes e completas, e não apenas máquinas de fazer petições. O recado final do professor é claro: "Você não precisa ser chata, nem chato".

Networking, Captação de Recursos e a Inovação no Mackenzie

A conversa também explora a inovação em gestão universitária. O professor detalha sua jornada na captação de recursos para pesquisas, um processo que começou de forma humilde com um e-mail para o Facebook (atual Meta) ofertando uma pesquisa sobre o impacto da plataforma no Brasil, especialmente em anos eleitorais. A estratégia deu certo, resultando em um financiamento inicial de R$ 50 mil que, ao longo do tempo, se multiplicou para R$ 2 milhões em projetos, envolvendo alunos de direito, comunicação, computação e engenharia. Esse fluxo de captação de recursos é visto como uma injeção de ânimo fundamental para a universidade brasileira, permitindo a qualificação de professores e funcionários.

Além disso, o professor destaca a importância de inserir os funcionários administrativos nos projetos de pesquisa, oferecendo-lhes a chance de se qualificar e viajar, o que aumenta o engajamento de toda a equipe. O Mackenzie tem se aberto ao mercado, com projetos financiados por empresas como Google, TRT, Apple, além de grandes escritórios de advocacia, como Pinheiro Neto e Matos Filho. Essa parceria com o setor produtivo se traduz em benefícios diretos para os alunos, que são recrutados por esses escritórios em feiras de estágio dentro da universidade, um movimento que valoriza o talento e a formação oferecida pela instituição.

Dupla Graduação Internacional e Cidadania Global

O Professor Felipe Chiarello fala com entusiasmo sobre o programa de dupla titulação do Mackenzie, que o torna a única faculdade de direito do Brasil a oferecer essa modalidade com os Estados Unidos. A ideia, que ele gestou por anos, era proporcionar aos alunos a chance de estudar em um sistema de common law, quebrando a lenda de que era impossível ter um duplo grau com os EUA. Para isso, a faculdade criou 11 disciplinas em inglês, permitindo que alunos estrangeiros, principalmente americanos, venham estudar no Brasil, e que alunos brasileiros possam se preparar para o Bar Exam (exame da ordem americano) ainda na graduação.

O programa tem convênios com importantes universidades como Duke University, St. Mary's University (Texas) e a University of Dayton. Os alunos, muitas vezes, têm seus estudos financiados por grandes escritórios como o Pinheiro Neto, que veem o valor estratégico de ter um profissional já aprovado no Bar Exam de Nova York, Texas ou Califórnia. Essa iniciativa tem fortalecido a comunidade de ex-alunos do Mackenzie no exterior, com encontros realizados em Londres e a sensação de que a faculdade forma cidadãos do mundo. A internacionalização é, portanto, um pilar da nova proposta educacional, que abre portas e prepara o aluno para um mercado globalizado.

A Identidade Institucional e a Diversidade

Abordando a identidade do Mackenzie, o professor esclarece a questão da instituição ser confessional presbiteriana. Ele, que é católico e foi pró-reitor, vê a abertura de todos os eventos com um momento devocional não como um ato de intolerância, mas como a afirmação clara de um DNA cristão. A mensagem é de que a instituição tem uma identidade e a expõe, mas é um ambiente plural onde "entra quem quer". Ele valoriza a liberdade religiosa e a diversidade de pensamento, criticando o estigma que rotula a instituição como sendo "de direita", lembrando que o Mackenzie formou figuras de diferentes espectros políticos, como a Unice (em direito) e o engenheiro Rubens Paiva.

O professor defende que a generalização é ruim e que a verdadeira riqueza do ambiente universitário está justamente na convivência com as diferenças. Para ele, um pai ou mãe que tenta colocar seu filho em uma "bolha" para protegê-lo de opiniões divergentes está, na verdade, o despreparando para a vida real. A universidade tem o papel de ensinar os alunos a dialogar, respeitar e entender a concepção do outro, sem que isso signifique abrir mão de suas próprias convicções. Essa habilidade, segundo ele, é um dos grandes ganhos da formação, que prepara o indivíduo para ser um agente de transformação social e não apenas um profissional técnico.

Clínicas Jurídicas e a Transformação Social

Outro ponto fundamental abordado é a importância das clínicas jurídicas. O professor relembra que, em 2016/2017, ajudou a trazer o primeiro modelo de clínica jurídica para o Brasil, um avanço em relação ao antigo modelo de "escritório modelo", que era estático e pouco inovador. A clínica, como a realizada no Arsenal da Esperança, leva os alunos a atender pessoas em situação de rua, tirando documentos e prestando um "pronto-socorro de cidadania". Essa experiência é transformadora, pois tira o aluno de sua bolha e o coloca em contato com a realidade social do país, fazendo-o sentir-se um agente de transformação.

O exemplo de sua filha, que participou de uma clínica e considerou a experiência absolutamente transformadora, é um testemunho do poder dessa abordagem. O professor contrasta essa experiência edificante com o conteúdo frequentemente negativo das redes sociais, propondo a universidade como um contraponto que ensina os alunos a "fazer o bem". Mais de 100 alunos são levados ciclicamente a essas clínicas, onde aprendem, na prática, o sentido humanista da profissão, que muitos buscam ao ingressar na Defensoria Pública ou em projetos pro bono.

Conclusão: O Direito do Futuro

Para finalizar, o professor aborda a questão que atormenta muitos estudantes: a inteligência artificial vai acabar com a advocacia? Sua resposta, baseada em pesquisadores como Richard Susskind, é que o direito não vai acabar, mas se multiplicará. Novas figuras profissionais surgirão, como designers jurídicos, engenheiros do direito e mediadores. Ele enfatiza que, com o avanço da IA, todas as novas relações humanas dependerão do direito. Um carro autônomo que atropela alguém gera uma questão de responsabilidade civil que exige a atuação de um jurista. A luz que acendemos em casa é fruto de uma concessão regulada por um contrato e uma agência reguladora.

Portanto, o advogado do futuro precisará de mais criatividade do que de capacidade de repetição. As tarefas burocráticas e repetitivas serão, de fato, automatizadas, mas a análise crítica, a criatividade para encontrar soluções inovadoras e a empatia para compreender as complexas relações humanas serão cada vez mais valorizadas. A mensagem final do Professor Felipe Chiarello é um convite à ação e ao desenvolvimento pessoal: "Vá assistir um filme, leia um livro, veja uma peça, dance, cante, entenda sobre música, sobre arte, porque você não precisa ser chata, nem chato." Essa é a síntese de sua visão: um profissional completo, culto, ético e apaixonado por sua profissão é a resposta para os desafios do mundo jurídico contemporâneo.