#34 / Tecnologia na educação: inteligência humana na era da IA - com Leonardo Penna

Início \ Produções \ #34 / Tecnologia na educação: inteligência humana na era da IA - com Leonardo Penna

Introdução: Aprendizagem na Era da Resposta Imediata

O podcast “Entre uma coisa e outra” recebeu Leonardo Penna, diretor de tecnologia da Avenus, escola de São Paulo, para uma conversa essencial sobre o papel da inteligência artificial na educação. Formado em design pela UFRJ, com pós-graduação e mestrado pela PUC-Rio com foco em usabilidade, ergonomia e interação humano-computador, Leonardo atua na construção de diretrizes para o uso da IA na educação, incluindo o letramento crítico dos estudantes, a avaliação de ferramentas e a proteção de dados.

A pergunta central do episódio foi: em um mundo com acesso a tantas informações, estamos aprendendo mais ou apenas encontrando respostas com mais facilidade? Leonardo explicou que a IA generativa criou um descolamento entre o processo e o produto. Antes, o processo (a aprendizagem) levava ao produto (o símbolo do aprendizado). Com a IA, é possível saltar diretamente para o produto com esforço mínimo — gerar uma redação, responder a perguntas complexas ou produzir uma reflexão sobre qualquer tópico. O desafio, portanto, é repensar os modelos de aprendizagem diante desse novo cenário.

O Modelo Pedagógico da Avenus: Foco no Processo e na Intencionalidade

Leonardo apresentou o modelo pedagógico da Avenus, que se baseia em projetos interdisciplinares. Disciplinas como ciências, artes, inglês e história são conectadas em um único projeto, sempre contextualizado à realidade dos alunos e com protagonismo estudantil. Nesse modelo, o processo é o foco, e não o produto final. A culminância do projeto é um produto, mas o valor está na pesquisa, na reflexão e no debate.

Quando a aprendizagem é pautada pelo processo, a IA não gera prejuízo; pelo contrário, se usada intencionalmente e pontualmente, pode ampliar as possibilidades criativas dos projetos. A palavra-chave que Leonardo repetiu várias vezes foi intencionalidade: o professor precisa ser explícito sobre a expectativa de uso da ferramenta em cada atividade.

Quando a IA Ajuda e Quando Ela Atrapalha

Leonardo diferenciou situações em que a IA pode facilitar a aprendizagem daquelas em que ela deve ser evitada. A resposta depende do objetivo da atividade. Em uma aula de português ou inglês cujo objetivo é desenvolver a voz própria do aluno, seu estilo de escrita e sua capacidade de lidar com a frustração do processo criativo, a IA não é ideal, pois salta direto para o produto e priva o aluno de desenvolver essa voz. O professor pode, nesse caso, declarar: “Meu objetivo de aprendizagem com essa atividade é esse e por isso não cabe o uso de inteligência artificial”. A IA poderia ser usada apenas para uma correção ortográfica posterior, se o objetivo for esse.

Por outro lado, em um projeto em que os alunos foram convidados a repensar o que poderia ter mudado na Idade Média e criar artefatos visuais para sustentar essa ideia de futuro, a IA foi usada para gerar imagens que seriam impraticáveis de outra forma. Nesse caso, ela ampliou a possibilidade criativa sem tomar o espaço do processo reflexivo do aluno.

O Papel Insuistituível do Professor na Mediação da Aprendizagem

Questionado sobre o futuro da educação e o papel do professor, Leonardo foi enfático: o professor é importante em todos os aspectos. Primeiro, pela relação humana — um conjunto de adultos que se preocupam com o bem-estar e a aprendizagem dos alunos. Segundo, porque o professor cria, por meio de atividades planejadas e uso intencional de tecnologia, um espaço seguro para o aluno se desenvolver, errar e se preparar para a vida fora da escola. É na interação com o professor que se desenvolvem competências socioemocionais, pensamento crítico e uso consciente de tecnologia. Sem ele, “não sobra muito”.

Exemplos Práticos: Do Jogo dos Incas à Narrativa Coletiva no Fundamental I

Leonardo trouxe dois exemplos de uso positivo da tecnologia. No primeiro, alunos do oitavo ano estudavam a civilização inca e desenvolveram um jogo sobre ela. A tecnologia reduziu a barreira técnica para a criação do jogo, permitindo que os alunos processassem o conhecimento de forma mais intensa: como transpor uma civilização para um jogo? Que personagens criar? Com a IA, foi possível gerar elementos do jogo em curto período, ampliando o que era possível.

No segundo exemplo, com alunos do segundo e terceiro ano do fundamental, a professora manipulava a ferramenta de IA, e os alunos davam inputs para a construção coletiva de uma narrativa. Após a história ser gerada, a culminância era a discussão sobre autoria: quem é o autor? Os alunos deram ideias, a professora inseriu os dados e a IA devolveu o texto. O objetivo era iniciar reflexões sobre o que a tecnologia representa, sem expor crianças pequenas a ferramentas sem controles de segurança.

Riscos e Cuidados: Por Que Evitar Ferramentas Comerciais com Crianças

Leonardo foi categórico ao recomendar cautela no uso de ferramentas comerciais de IA (ChatGPT, Gemini, Claude) com crianças e adolescentes até 16 anos. Essas ferramentas são probabilísticas, não determinísticas, e é difícil garantir quais serão os outputs. Também é difícil mediar a relação de uma criança em desenvolvimento com algo que “fala como humano, mas não é humano”.

A recomendação é usar ferramentas com camada protetiva, construídas sobre essas tecnologias, como o Flint, um chatbot específico para educação. Ele notifica a escola sobre interações com tópicos sensíveis, permite entender o tipo de interação dos alunos e possui guard rails para garantir que ninguém seja exposto a riscos desnecessários.

Pensamento Crítico e o Combate às “Alucinações” da IA

Leonardo destacou que a IA generativa não necessariamente está certa. Ela tem, em seu próprio mecanismo de funcionamento, incentivos a alucinar: o modelo busca a resposta mais provável e sempre tenta dar uma resposta, mesmo quando ela não é clara, com o mesmo tom de certeza. Na Avenus, o ponto central é a construção do olhar crítico em relação à tecnologia, entendendo que ela não é neutra e tem vieses associados aos dados com que foi treinada.

A escola desenvolve atividades em que os próprios alunos identificam o fenômeno da alucinação no dia a dia. Em vez de usar a ferramenta e depois trabalhar o erro, o propósito da atividade é tentar fazer a ferramenta alucinar, encontrar as fontes citadas e questionar: “Será que é isso mesmo? De onde ele está tirando essa informação?”. Isso acontece em múltiplos projetos, num espaço seguro, antes de os alunos serem colocados no mundo real.

O Papel do Technology Integrator e a Formação de Professores

A Avenus conta com a função de Technology Integrator — três profissionais que colaboram com o uso de tecnologia, auxiliam professores, fazem parcerias em projetos específicos e conduzem atividades formativas para professores e alunos. Eles não têm aula; seu objetivo é integralmente pensar como a tecnologia é integrada à proposta pedagógica.

Equilíbrio entre Tecnologia e Experiências Analógicas

Leonardo explicou que, apesar de a Avenus ser uma escola tecnológica desde a origem, isso não significa uso irrestrito de tecnologia. Há momentos em que ela simplesmente não deve fazer parte da atividade. A chave é a intencionalidade: não usar tecnologia quando ela não agrega nada. Um exemplo do equilíbrio é a “biblioteca viva”: a escola não tem uma biblioteca central, mas livros espalhados por todo o campus — corredores, prateleiras, próximo às escadas. Os alunos são estimulados a usar esse acervo, desenvolvendo o hábito da leitura em papel. A mensagem que a escola passa pela construção do ambiente é tão importante quanto o discurso.

Recomendações para Escolas e Famílias: Formação e Políticas Contextualizadas

Para escolas que estão implementando projetos de tecnologia, Leonardo recomenda que o primeiro passo seja a formação do professor, a interface entre a tecnologia e os alunos. É preciso que ele entenda quando a tecnologia traz benefício e quando pode ser deixada de lado. O segundo passo é escolher ferramentas com proteções adequadas a cada faixa etária. A política de uso de IA não pode ser única para toda a escola; deve ser pautada pela faixa etária, pela disciplina e pelo tipo de atividade. Uma política horizontal gera armadilhas: o que é adequado para o oitavo ano pode ser um risco para o terceiro.

Para as famílias, Leonardo identificou duas preocupações frequentes. A primeira é se o filho está realmente aprendendo, já que a IA pode gerar o produto. A resposta é que, se o foco da aprendizagem é o processo, a redação final tem menos valor do que a pesquisa, a reflexão e o debate. A segunda é sobre o mercado de trabalho. O uso na escola não é o mesmo uso corporativo, mas a essência — saber o que as ferramentas são, seus potenciais e riscos — transfere-se para a vida profissional. A escola propicia um ambiente seguro para desenvolver competências críticas.

A Importância do Diálogo Aberto sobre o Uso da IA

Leonardo relatou o caso de uma família em que a mãe perguntou ao filho se ele havia usado IA e ele negou, embora ela suscitasse que sim. Ele explicou que essa resistência em admitir o uso só aparece se os adultos tratam o uso como problemático. A conversa deve ser menos binária (“não pode” ou “deixa”): é melhor perguntar “me conta que atividade é essa, o que você está fazendo, por que está usando?”, entendendo o objetivo da atividade e o que o professor havia dito sobre o uso da IA.

O Profissional do Futuro: Soft Skills e Pensamento Crítico

Quito compartilhou a reflexão de um CEO de tecnologia: os filhos precisam saber pensar, fazer as perguntas certas e avaliar se uma resposta funciona. Se o filho se tornar um expert na ferramenta da moda, em um ano isso não servirá para nada. O profissional do futuro é aquele que sabe se adaptar às mudanças. Leonardo concordou: o pensamento crítico, o conforto com o contraditório, a capacidade de dialogar, de desenvolver relações sociais, de entender diferentes perspectivas e de ser resiliente à frustração continuam sendo o diferencial. Ele lembrou que, há dois anos, o foco era ensinar a “escrever prompts”; hoje, a IA entende até prompts ruins, e a habilidade tornou-se obsoleta. As soft skills permanecem extremamente relevantes.

Dicas de Fontes: MIT, MEC e Common Sense

Para educadores, Leonardo indicou o conjunto de práticas do MIT sobre IA na educação, disponível publicamente, e um documento recente e completo do Ministério da Educação (MEC). São fontes nacional e internacional que apresentam um projeto mais delineado; a escola deve entender o que faz sentido em seu contexto, pois não há receita única. Para as famílias, indicou a organização Common Sense, que produz muito material sobre cidadania digital, uso de tecnologia por crianças e adolescentes e como as famílias podem ser suporte nesse processo. A mensagem final é de parceria: família, escola, professor e aluno juntos na criação de um ambiente seguro de aprendizagem.