Introdução: A Adolescência Como um Problema ou um Reflexo dos Adultos?
O podcast “Entre uma coisa e outra” recebeu a educadora e escritora Carol Delboni, especialista em comportamento adolescente, para uma conversa profunda sobre os desafios contemporâneos dessa fase da vida. A pergunta central que norteou o episódio foi: será que o maior desafio da adolescência é o comportamento dos jovens ou a dificuldade que os adultos têm de compreender essa fase? Carol, autora do livro “Desafios da Adolescência na Contemporaneidade” e colunista do Estadão, defende que compreender essa fase é o primeiro passo para educar com mais afeto, presença e consciência.
A conversa partiu da constatação de que, embora o mundo tenha mudado, a visão do adulto sobre o adolescente permanece ancorada em preconceitos e julgamentos. O adolescente é frequentemente rotulado como chato, mal-humorado, monossilábico e problemático. Esses rótulos, enraizados socialmente, criam bloqueios que dificultam a relação. Carol argumenta que a mudança precisa começar com uma autorreflexão adulta, reconhecendo que a complexidade do mundo atual exige uma nova postura, mais empática e compreensiva, para com os jovens.
O Fim da Rede de Apoio: A Solidão na Adolescência
Um dos pontos mais importantes levantados por Carol Delboni é a descontinuidade do cuidado entre a infância e a adolescência. Durante a primeira infância, existe uma extensa rede de apoio: pediatras, escolas com foco no desenvolvimento infantil, literatura especializada e a própria comunidade (simbolizada pela “pracinha”). Essa mesma criança, ao crescer, perde esse suporte.
A adolescência carece de políticas públicas específicas e de um olhar social estruturado. Não há a mesma profusão de informações e orientações para as famílias sobre como lidar com as transformações dessa fase. Esse vazio é agravado pela formação dos educadores: enquanto os professores da educação infantil são pedagogos preparados para lidar com o desenvolvimento, os do ensino fundamental e médio são especialistas em suas áreas de conteúdo (geografia, história, português), mas não recebem, em sua formação, uma preparação adequada para se relacionar com adolescentes. Eles sabem o que ensinar, mas não como se comunicar com quem está na sala de aula.
O Adolescente Fala Pouco, mas Escuta Muito: A Arte de se Comunicar
Outro mito desconstruído por Carol é a alegação de que os adolescentes não conversam mais. Ela relembra que, historicamente, os adultos nunca escutaram os adolescentes, uma vez que a adolescência nunca teve voz. A diferença é que hoje a infância ganhou protagonismo com políticas públicas e movimentos como o da parentalidade positiva, que incentivam a escuta da criança. Esse mesmo movimento não chegou à adolescência.
Carol enfatiza que os adolescentes são bons ouvintes. O problema é que os adultos insistem em querer conversar com eles como se fossem outros adultos, sentando-se à mesa para um “bate-papo”. Ela sugere que, assim como agachamos para falar com uma criança, devemos “achar o tom” certo para a conversa com o adolescente. Além disso, a comunicação não é apenas verbal. O mundo digital e as plataformas como WhatsApp e redes sociais são canais de comunicação legítimos. Em vez de brigar com esses espaços, os adultos deveriam estar presentes neles para educar, usando-os como ferramentas de conexão, pois o adolescente está ali e aquilo o educa, gostemos ou não.
Autonomia vs. Superproteção: O Paradoxo da Parentalidade Contemporânea
Carol identifica a superproteção como o maior desafio da parentalidade contemporânea, um fenômeno conhecido como parentalidade helicóptero ou overparenting. Ela ressalta que esse comportamento não tem recorte de classe social, manifestando-se em pais de todas as camadas sociais que têm dificuldade de deixar os filhos viverem experiências condizentes com sua faixa etária.
Essa superproteção, movida pelo medo exacerbado da complexidade do mundo, priva os adolescentes de vivências fundamentais. Um exemplo claro é a brincadeira infantil, que hoje é constantemente supervisionada por adultos que coordenam as regras. Na brincadeira livre, a criança exercita a definição de papéis, a resolução de conflitos e o enfrentamento de inseguranças e desconfortos. Sem isso, cresce um adolescente que não aprendeu a lidar com os atritos sociais.
Carol descreve um ciclo perigoso: o primeiro conflito na escola, algo que deveria ser uma oportunidade de aprendizado, é imediatamente interceptado pelos pais, que vão até a instituição resolver a situação. Quando a escola tenta explicar que aquilo é um conflito a ser resolvido pelos jovens, a família, não conseguindo resolver por eles, opta pela fuga: tira o adolescente da escola. A mensagem enviada é: “Você não é capaz de resolver sozinho” e “Se não deu certo, mude”.
Os Pais na Porta da Escola e o Medo do Desconhecido
A dificuldade em ceder autonomia é tão grande que se manifesta em comportamentos extremos. Carol relata casos em que mães se escondem atrás de árvores durante passeios escolares ou seguem o ônibus de carro. O caso mais impressionante foi o de uma mãe que viajou escondida para a Califórnia para acompanhar o intercâmbio do filho, contrariando a orientação da escola, e foi descoberta pela equipe. Isso evidencia uma projeção do medo do adulto no adolescente, que muitas vezes precisa de ajuda psicológica para lidar com sua própria ansiedade.
Ao impedir que o filho vivencie a frustração, o adulto o torna incapaz de performar na vida adulta. Carol afirma que os pais precisam ter coragem para encarar as dores dos filhos, pois é nesse processo de “engasgar e sair do engasgo” que se desenvolve a resiliência.
Saúde Mental e a Cobrança Excessiva: O Preço da Superproteção
A conversa abordou o alarmante aumento dos índices de depressão, ansiedade e autolesão entre adolescentes. Carol aponta três causas principais: o uso excessivo de redes sociais (e o conteúdo consumido, que expõe a violência e a pressão do mundo), a pouca perspectiva de futuro (agravada pela consciência das questões climáticas) e, justamente, a superproteção dos pais. Essa combinação gera adolescentes que não sabem lidar com conflitos, não identificam suas emoções e, ao se depararem com situações que exigem habilidades socioemocionais que não possuem, entram em desespero.
Carol chama a atenção para o comportamento dos pais em eventos esportivos. Ela observa que, hoje, os pais participam intensamente da vida dos filhos, mas projetam neles suas próprias expectativas e frustrações. Ao vivenciarem uma derrota do filho como se fosse sua, xingando juízes e técnicos, os pais transmitem uma carga emocional pesada. Eles premiam tudo (como os certificados dados para todos no fim do ano em clubes e escolas), criando uma falsa sensação de conquista. Isso ensina o jovem que tudo merece um prêmio e o desprepara para lidar com o “não”, com a perda e com a frustração.
A Vulnerabilidade do Adulto Como Ferramenta de Autoridade
Carol destaca um paradoxo fundamental: os adultos acham que se mostrar vulneráveis fará com que percam a autoridade com os adolescentes. A psicologia demonstra o oposto. O adolescente, ao deixar a infância, passa por três lutos: o luto da infância, o luto do corpo (pela puberdade) e, crucialmente, o luto dos pais. Nessa fase, ele começa a enxergar pai e mãe como seres humanos imperfeitos, que erram, mentem e ficam de mau humor.
Se o adulto tenta esconder sua humanidade para manter uma autoridade fictícia, ele perde a conexão. Ao contrário, quando o pai ou a mãe se coloca como um ser humano que também sente e já enfrentou dificuldades, o adolescente passa a vê-lo como uma figura para se espelhar e ser respeitado. Portanto, demonstrar afeto e vulnerabilidade é ganhar autoridade. A frase de Carol é incisiva: “A gente precisa educar pro afeto antes de educar para a sexualidade”.
A Influência da Machosfera e a Violência no Universo Masculino
Carol aprofundou a discussão sobre o comportamento dos meninos, abordando o fenômeno da “machosfera”, um ecossistema machista e misógino que encontra nos adolescentes um terreno fértil. Os meninos de 12 a 13 anos, em pleno processo de descoberta da identidade e da sexualidade, buscam informações sobre como se relacionar com meninas. A internet, por meio de influenciadores, oferece “dicas” de como conquistá-las.
Quando essas tentativas não dão certo, esses conteúdos viram a chave e afirmam que “o problema não é você, são as meninas”. Nesse momento, o menino encontra um lugar de pertencimento, algo que o adolescente busca desesperadamente. Esse universo acolhe a sua dor e valida seu sentimento, algo que, muitas vezes, a família e a escola não fazem. O resultado é um comportamento agressivo e inadequado, que pode escalar para deep fakes, assédio e outras atrocidades. Carol reforça que, ao invés de criticar os meninos, o adulto precisa entender que eles estão experimentando papéis e precisam de figuras adultas que ocupem esse espaço de acolhimento, oferecendo narrativas de afeto e respeito.
O Silêncio do Adolescente Como Grito de Socorro
Carol faz uma distinção crucial entre o adolescente “barulhento” e o “silencioso”. O que briga, que não quer fazer nada, ainda está dando sinais de que quer atenção. O adolescente silencioso, que não dá trabalho, é muitas vezes o de maior risco. Ele pode ter encontrado acolhimento em grupos extremistas ou em bolhas digitais perigosas.
Assim como aprendemos a ler o comportamento de uma criança, precisamos aprender a ler o comportamento do adolescente. O corpo jogado na cama, o trancar-se no quarto e o silêncio excessivo são demonstrações de um pedido de ajuda. A incapacidade do adulto de interpretar esses sinais e oferecer a resposta adequada deixa um vazio que acaba sendo preenchido por influências nocivas.
Conselhos Práticos: Como se Aproximar e Estabelecer Diálogo
Para encerrar, Carol ofereceu um manual prático para pais e educadores que se sentem perdidos e querem se aproximar dos jovens. O primeiro passo é se interessar genuinamente pelo universo do adolescente, despertando curiosidade em vez de desprezo. Ela compara com a infância: temos um deslumbramento pela infância (assistimos desenhos, cantamos músicas) e um desprezo pela adolescência. A inversão dessa lógica é fundamental.
- Escutar a música dele: Se o adulto acha o funk uma porcaria e diz isso, o adolescente coloca o fone e se isola. É preciso fazer com que ele tire um fone, que ele escute o mundo do adulto e o adulto escute o mundo dele.
- Usar o próprio universo do adolescente: Seguir os influenciadores que ele gosta, assistir aos vídeos que ele assiste. Através desse conteúdo, é possível puxar assunto e criar pontes.
- Trazer experiências pessoais: Colocar-se vulnerável diante de um conflito. Contar como se resolveu uma situação difícil, uma insegurança, uma dor, mostrando que é possível sair dela. Isso espelha uma saída para o adolescente.
- Não ocupar o espaço do outro: O adulto deve ocupar o espaço de referência, não deixá-lo vazio, mas também não anular a autonomia do jovem.
Carol recomenda o podcast “Zé Vergonha”, da Fernanda Lima, e a série “Georgia e Ginny” (Netflix) como boas referências para os adultos que querem compreender melhor a adolescência contemporânea, mas alerta: “Assista você sozinho, faça sua lição de casa, não precisa colocar o filho do seu lado”.
O recado final de Carol é por coragem: “A gente precisa aprender a deixar os filhos nadarem no rio, engolir água, se engasgar com a água. A gente não vai deixar ninguém morrer, mas a gente precisa deixar eles se engasgarem e sair do engasgo sozinho.”