#03 - Podcast Nyvelados: Nyvi recebe o amigo Bruno PlayHard

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Da Influência à Gestão: Os Desafios de Fundar um Time de Esports

Para muitos influenciadores digitais, a transição para a gestão de uma empresa ou de um time competitivo é um mergulho em águas desconhecidas e, frequentemente, turbulentas. Bruno Playhard, fundador da LOUD, uma das maiores organizações de esports do Brasil, compara sua vida antes e depois da criação do time: "a vida era molza". Construir uma empresa que vai além da sua própria imagem pessoal é uma tarefa que, ao mesmo tempo que traz uma dor de cabeça imensa, também se torna a melhor coisa feita na vida profissional. O segredo, segundo ele, está em encarar o projeto como a construção de um legado, uma história que ultrapassa o conteúdo digital e a história pessoal. Para quem está começando, como a presidente do time Nivelados, a dica é clara: se prepare, pois é um território completamente diferente, que exige aprender sobre a marcha e, muitas vezes, abrir mão de aspectos da vida pessoal para abraçar as novas obrigações.

A Jornada Dupla: Conciliando Conteúdo, Competição e Gestão de Tempo

Uma das maiores dificuldades para quem vira dono de um time é a gestão milimetricamente calculada do tempo. Bruno Playhard relata que, mesmo antes da LOUD, já otimizava sua rotina como influenciador, mas fundar a empresa exigiu que ele abrisse mão de ainda mais coisas, principalmente da vida pessoal. Não se pode simplesmente adicionar um novo conjunto de atividades às que já se fazia; é preciso um replanejamento total. A chave para não enlouquecer é saber delegar e encontrar as pessoas certas. O líder não precisa fazer tudo sozinho; seu papel é empoderar especialistas para que executem as tarefas do dia a dia, desde a parte técnica e estratégica até a gestão de cultura e treinamentos. No caso da LOUD, que hoje conta com cerca de oito modalidades (como Free Fire, Valorant, League of Legends e Fortnite), cada uma exige um formato de trabalho diferente: times presenciais, times remotos que só se juntam em competições, e uma necessidade constante de customização de estratégias, pois não existe uma fórmula mágica ou um modelo pronto que sirva para todos os cenários.

O Equilíbrio Frágil entre Ansiedade, Resultado e Pressão no Esporte

A ansiedade é um fantasma que assomb tanto quem joga quanto quem gere. Bruno admite ser uma pessoa naturalmente ansiosa, que passava mal assistindo aos jogos da LOUD, com o coração disparando a cada derrota, sentindo que o "mundo tinha acabado". Com o tempo e a experiência, essa intensidade diminuiu, mas o frio na barriga nunca desaparece completamente – e isso pode ser visto como algo positivo, um sinal de que a importância dada ao projeto continua a mesma. Para a nova presidente, que sente um frio na barriga ainda mais intenso (brincando ser "caganeira"), a mensagem é de esperança: a situação melhora com o tempo.

Um ponto crucial é o gerenciamento da pressão sobre os atletas. O dirigente deve ter a inteligência emocional para não transferir seu desespero para o time. Bruno aprendeu que, muitas vezes, é melhor nem assistir ao jogo no backstage para não demonstrar decepção, que pode ser interpretada como uma pressão extra negativa. Cada jogador reage de uma forma à pressão – alguns performam melhor com ela, outros pioram – e cabe ao líder identificar esses perfis. A regra de ouro é compartilhar a responsabilidade: a vitória é de todos, e a derrota também.

Aprendendo com os Erros: Frontline, Mansões e a Importância de Testar Rápido

A trajetória de sucesso da LOUD é pavimentada por erros e aprendizados. Antes da LOUD, Bruno e seu sócio criaram a Frontline, um time de Fortnite com uma pegada similar de conteúdo, que até bombou em views e tornou os influenciadores conhecidos, mas não conseguiu escalar para se tornar uma empresa de fato. Foi um fracasso que serviu de combustível para o sucesso posterior. Outro exemplo foi o projeto das "mansões da LOUD", onde a organização pagava casas para os jogadores morarem juntos, treinarem e produzirem conteúdo. O modelo fazia sentido financeiramente na pandemia, pois atraía muitos patrocínios, mas hoje é visto como um investimento que não seria repetido.

A grande lição extraída desses percalços é: vale mais a pena arriscar, errar e entender rápido para mudar, do que não fazer nada. Quando uma ideia não funciona, o ideal é descontinuá-la o mais rápido possível para que ela não se torne tóxica e contamine toda a empresa. Testes pequenos e ágeis são sempre a melhor estratégia antes de um grande comprometimento de recursos.

Desapego da Marca Pessoal e Antecipação de Movimentos no Mercado

Uma das decisões mais assertivas de Bruno playhard foi, desde o início, tentar não associar a LOUD 100% à sua pessoa. Isso lhe dá uma flexibilidade pessoal enorme (poder tirar férias sem que a empresa pare) e constrói um legado que não tem um prazo de validade atrelado à sua imagem. No mercado de criação de conteúdo, o prazo de validade de um influenciador é incerto; algoritmos mudam, o consumo do público se transforma, e a plataforma pode até ser bloqueada. Ter uma empresa que voa sozinha é uma segurança para o futuro.

Outro acerto foi a capacidade de antecipar movimentos do mercado. A LOUD entrou no cenário de Valorant quando ele ainda estava se construindo, o que lhe rendeu reconhecimento internacional. Da mesma forma, a aposta precoce no TikTok antes da maioria das marcas tradicionais fez com que a LOUD se tornasse a marca mais seguida do Brasil no primeiro ano, alcançando mais de 10 milhões de seguidores e conquistando a Geração Z. Por outro lado, Bruno reconhece uma oportunidade perdida: o futebol. A organização demorou a agir, apesar de ver os números e a audiência jovem que não tem mais paciência para 90 minutos de jogo tradicional, consumindo apenas vídeos de dribles e influenciadores. Atrasos na tomada de decisão são apontados como um dos maiores erros, e a recomendação é dominar o território antes que outros o façam.

Cuidados de Imagem, Postura e a Inspiração para Mulheres no Esporte

Ao se tornar presidente ou dono de um time, a pessoa personifica a marca. Bruno admite que mudou seu visual (cabelo arrumado, barba feita) porque entende que não pode mais "meter o louco" ou falar bobagem na internet. Ele tem a responsabilidade de ser um bom exemplo, tanto para os patrocinadores quanto para os funcionários. A coerência entre o discurso e a prática é o que inspira o time a performar. Se o líder exige performance, ele precisa mostrar que está trabalhando duro nos bastidores.

Para a presidente do time Nivelados, que é mulher em um ambiente majoritariamente masculino, Bruno destaca o poder de inspiração que ela carrega. Ele lembra que, há 10 anos, quando começou a trabalhar com videogame, praticamente não havia mulheres no meio. A chegada de figuras femininas em posições de liderança (como presidentes de times) serve como referência para outras meninas. A LOUD, inclusive, tem um público de mais de 30% feminino, mostrando que essa representatividade é crucial para expandir a base de fãs e tornar o ambiente mais saudável. A dica final para ela é a mesma que ele segue: encontre pessoas experientes para ajudar, prepare-se para sofrer, tenha crises de ansiedade, mas aprecie as pequenas conquistas. O primeiro ano pode ser de derrotas, mas desanimar não é uma opção, pois a vitória nunca virá para quem para no caminho.

Lições de Vida: Propósito, Inspiração e o Legado de Transformar Pessoas

Ao longo da conversa, fica claro que o maior combustível para continuar na gestão de alto nível não é o dinheiro ou o sucesso material, mas sim o impacto humano. Bruno se emociona ao contar histórias de pessoas que tiveram a vida transformada pelos jogos e pela LOUD, como um garoto na Finlândia que, inspirado por seus vídeos, tornou-se analista de dados de uma grande organização. Para ele, o próximo passo do legado é usar os jogos para tentar "melhorar a humanidade", combatendo a toxicidade e o preconceito, e ganhando ainda mais escala para amplificar essa mensagem positiva. O maior sonho de Bruno, hoje, não é profissional, mas pessoal: ser pai e ajudar seu filho a construir uma trajetória que traga o mesmo orgulho que ele sente por sua própria história, tentando deixar alguém melhor do que ele foi.

A conversa termina com um recado de torcida e rivalidade amigável: que o time Nivelados vá bem, mas que seja "amassado" pela LOUD sempre que se enfrentarem, um sinal de que, no mundo dos negócios e do esporte, a competitividade anda de mãos dadas com o respeito e a admiração mútuos.