Introdução: Cuidados Paliativos Além das Espécies
Neste episódio especial do Vimocast, recebemos o Dr. Vinícius Perez, médico veterinário especializado em felinos e cuidados paliativos, doutorando em clínica médica veterinária. A conversa aborda a intersecção entre a medicina veterinária e os cuidados paliativos, destacando como essa abordagem inovadora está transformando a assistência a animais em fim de vida e suas famílias, e como as lições podem ser extrapoladas para a saúde humana.
Vinícius compartilha sua jornada pessoal desde a infância, quando aos 6 anos declarou à sua mãe, no Parque da Água Branca em São Paulo, que queria cuidar de animais. A ideia fixa permaneceu até o vestibular, e ele ingressou na Faculdade de Veterinária da USP com o sonho de se especializar em felinos. No entanto, foi durante a residência que ele enfrentou um choque que mudaria o rumo de sua carreira.
A Descoberta do Cuidado Paliativo na Veterinária
Durante o primeiro mês de residência, Vinícius se deparou com a realidade de que nem todos os pacientes podem ser salvos. Ele descreve o momento de crise em que, diante de um animal em sofrimento e sem possibilidades terapêuticas, a única alternativa apresentada era a eutanásia. Isso o levou a considerar desistir da profissão, questionando seu propósito e capacidade.
Foi então que, ao conversar com amigos da área da saúde humana, ele descobriu os cuidados paliativos como uma alternativa ética e técnica para aliviar o sofrimento sem necessariamente abreviar a vida. Em 2015, ainda durante a residência, ele escolheu esse tema para seu TCC e, posteriormente, procurou o Instituto Paliar para se capacitar. Embora a formação fosse voltada para humanos, a instituição abriu as portas para o veterinário, e ele passou a integrar turmas multidisciplinares, aprendendo sobre medidas não farmacológicas, reabilitação e comunicação, que eram completamente aplicáveis à sua prática.
O Estranhamento e a Validação entre Pares
Vinícius relata que, inicialmente, seus colegas veterinários estranhavam a abordagem paliativa. Assim como na medicina humana, a formação tradicional é focada na doença e na cura, e a ideia de cuidar sem curar parece contraditória. No entanto, quando ele apresentou o tema em uma reunião clínica, houve uma forte identificação de muitos profissionais que, sem saber, já sentiam a necessidade de uma abordagem diferente. Ele destaca que o cuidado paliativo não é "bom senso" ou "boa vontade", mas sim técnica baseada em evidências, com ferramentas como avaliação de funcionalidade e planos de cuidado estruturados.
Histórias que Marcam: Amor, Morte e Despedida
Vinícius compartilha um caso que o marcou profundamente: um gato jovem com tromboembolismo agudo e prognóstico fatal. A família tinha crianças pequenas que estavam fora de casa no momento do evento. A mãe, compreendendo a gravidade, expressou preocupação com a forma como os filhos lidariam com o retorno e a perda do animal. O veterinário, então, construiu um plano de cuidado que incluía uma narrativa para as crianças: enviar fotos, explicar a doença e mostrar os cuidados, para que a história da morte do gato não fosse traumática.
Quando as crianças voltaram, o gato entrou em processo ativo de morte e faleceu. A criança, de 3 anos, pôde se despedir e fazer um carinho, e Vinícius descreve a cena como um momento de amor e sentido, que o deixou emocionado e grato. Ele reflete que, embora a dor e o sofrimento estejam presentes, há também muito amor nessas histórias, e que o papel do profissional é sustentar esse espaço de cuidado e acolhimento.
Distanásia, Eutanásia e o Desafio da Comunicação
Um dos pontos centrais da discussão foi a diferença entre as abordagens da distanásia (prolongamento artificial da vida sem qualidade) e da eutanásia (antecipação da morte para aliviar o sofrimento) na medicina veterinária. Vinícius sugere que, devido a fatores econômicos (o custo do tratamento veterinário) e à disponibilidade legal da eutanásia, a distanásia pode ser menos frequente que na saúde humana. No entanto, ele enfatiza que ambos os caminhos podem representar uma forma de negação da morte, seja fugindo dela pelo prolongamento ou pela abreviação sem o devido preparo.
Ele aborda a importância da ortotanásia – o processo de morte natural com conforto e dignidade, sem intervenções fúteis – e destaca que o cuidado paliativo oferece as ferramentas para que os veterinários tomem decisões técnicas e éticas, embasadas em evidências, e comuniquem essas decisões com clareza às famílias. A comunicação, nesse contexto, é uma intervenção técnica fundamental, que pode evitar que a família ou o próprio profissional se sintam pressionados a “tentar até o fim” em situações de sofrimento refratário.
O Luto Não Reconhecido e a Importância do Acolhimento
Vinícius destaca que o luto pela perda de um animal de estimação muitas vezes não é validado socialmente, o que pode complicar o processo de luto. Frases como "mas era só um cachorro" ou "você pode comprar outro" são frequentes e desconsideram o vínculo profundo entre o tutor e o animal. Ele ressalta que, para muitas pessoas, o animal é um amparo social e um membro da família, e a perda pode ser tão significativa quanto a de um familiar humano. O profissional veterinário, muitas vezes, é o único a oferecer esse acolhimento, e, portanto, precisa estar preparado para lidar com o luto de forma estruturada e compassiva.
Desafios e Avanços no Cuidado Paliativo Veterinário
Vinícius aponta a educação e a formação como os maiores desafios atuais. Ele critica a ênfase excessiva no estudo das doenças em detrimento do estudo do cuidado e do sofrimento, e sugere que a inclusão de uma disciplina obrigatória de cuidados paliativos nos cursos de veterinária seria um passo importante. No entanto, reconhece que ainda há poucos profissionais capacitados para ensinar, o que torna o processo gradual.
Ele menciona que, há alguns anos, a literatura sobre o tema era escassa – ele encontrou apenas um parágrafo em um livro de terapia intensiva e uma tese. Hoje, há mais publicações, principalmente nos Estados Unidos, mas ainda são focadas principalmente na "eutanásia humanizada" e no suporte ao luto, em vez de abordar o cuidado paliativo ao longo de toda a trajetória da doença. Apesar disso, ele vê um movimento crescente no Brasil, com mais veterinários se especializando, livros sendo publicados, associações se formando e uma maior demanda por parte dos tutores por cuidados de qualidade.
Formação, Mentoria e Expansão da Consciência
Impulsionado por sua própria experiência de sofrimento e pela demanda de colegas, Vinícius passou a oferecer mentorias e cursos de capacitação para veterinários, abordando manejo de sintomas, comunicação de más notícias, aconselhamento em luto e desenvolvimento de habilidades de comunicação. Ele coordena uma especialização em cuidados paliativos veterinários que está prestes a ser lançada, e também é professor convidado em pós-graduações de diversas áreas, como oncologia, neurologia e reabilitação.
Ele vê esse trabalho como uma resposta à lacuna de formação e como uma forma de transformar a dor pessoal em recurso para outros. Sua atuação profissional atual se concentra em uma clínica exclusiva para gatos em São Paulo, onde ele realiza interconsultas para pacientes internados e acompanhamento ambulatorial de pacientes crônicos. Ele se orgulha de ver a equipe do hospital encaminhando pacientes precocemente e utilizando a terminologia correta, o que demonstra um avanço cultural dentro da instituição.
Mensagem para os Veterinários e Estudantes
Ao final, Vinícius deixa uma mensagem inspiradora para quem está começando ou enfrenta dificuldades: lembrar-se da criança que um dia sonhou em cuidar de animais. Ele incentiva os profissionais a honrar essa história e a buscar conhecimento técnico e emocional para oferecer o melhor cuidado possível, mesmo nos momentos mais difíceis. Ele enfatiza que, no fundo, o cuidado paliativo é sobre amor – um amor que se expressa através de técnica, ciência e compaixão.
Indicações Culturais e Contato
Vinícius indica o livro "O Bilhete de Plataforma", de Dr. Dói, que narra sua experiência como médico paliativista e humano, como uma leitura que toca profundamente o aspecto de ser médico e ser humano. Ele também recomenda que os interessados o encontrem no Instagram, pelo perfil @cpvet.oficial, onde compartilha conhecimentos e está disponível para mentorias e contato.
Conclusão: Uma Visão Ampliada do Cuidar
Este episódio revela como os cuidados paliativos são uma abordagem universal, que transcende as barreiras entre espécies e que pode ser aplicada a todos os seres sencientes. A trajetória de Vinícius Perez, desde a crise de identidade até a liderança em uma nova especialidade, é um exemplo de como a dor pode ser transformada em propósito e de como a persistência e a educação são fundamentais para mudar paradigmas. Sua história enriquece o debate sobre a vida, a morte e o amor, e inspira profissionais de todas as áreas da saúde a olharem para o cuidado com um novo olhar.