ViMoCast 43: Como Implementar Cuidados Paliativos no Hospital | Dr. Rodrigo Lima (Rede D’Or)

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Introdução: A Jornada de um Paliativista no Brasil

Neste episódio do Vimocast, recebemos o Dr. Rodrigo Lima, médico graduado pela UFRJ, especialista em clínica médica pela UFPR e em medicina paliativa pelo HC da USP. Rodrigo é ex-assistente dos cuidados paliativos do HC e atualmente coordenador nacional da Câmara Técnica de Cuidados Paliativos da Rede D'Or. A conversa explora os desafios e as estratégias para implementar serviços de cuidados paliativos no Brasil, desde a sensibilização de gestores até a criação de sistemas de dados e a humanização da assistência.

Rodrigo compartilha sua trajetória pessoal, desde a infância em Juiz de Fora (MG), passando pela influência de sua mãe médica, até a descoberta dos cuidados paliativos durante um intercâmbio na Universidade de Toronto, no Canadá. Ele destaca a importância de estruturar serviços com base em evidências, métricas e planejamento financeiro, e não apenas na boa vontade ou na romantização da área.

Da Pesquisa Básica à Vocação Paliativa: A Influência do Intercâmbio no Canadá

Rodrigo conta que inicialmente não queria seguir medicina, influenciado pelas críticas da mãe ao mercantilismo da profissão. Seu interesse original era por pesquisa básica, tendo realizado quatro anos de iniciação científica com modelos animais de asma. Durante a faculdade na UFRJ, ele presenciou as dificuldades estruturais do hospital (como a implosão da “perna seca”) e a falta de cuidados paliativos estruturados.

A virada de chave ocorreu no intercâmbio para a Universidade de Toronto, onde ele tentou estágios em imunologia e hepatologia sem sucesso. Ao receber uma lista com opções, escolheu cuidados paliativos por curiosidade. Lá, ele viu um serviço maduro, com transição entre ambulatório, internação e unidades específicas (hospice). Essa experiência o fez perceber que “existe um jeito diferente de cuidar dessas pessoas” e o motivou a se especializar.

De volta ao Brasil, Rodrigo trabalhou no pronto-socorro do Hospital Copacabana (Rio), atendendo uma população idosa, e sentiu a necessidade de trazer o modelo canadense. Prestou residência em clínica médica na UFPR (Curitiba), onde já havia um serviço de cuidados paliativos estruturado com interconsultas, ambulatório e leitos virtuais. Ele agradece aos preceptores locais e destaca a importância de ter mentores e uma rede de apoio durante a formação.

Implementação de Serviços na Rede D'Or: Da Sensibilização à Estruturação

Após a residência, Rodrigo enfrentou a questão: onde trabalhar? Ele sabia que não encontraria uma estrutura idêntica à canadense e que precisaria ajudar a construir serviços. Inicialmente, atuou como hospitalista no São Luís Itaim, observando a falta de equipes paliativas e o manejo inadequado de sintomas (ex.: paciente em uso de metadona sem prescrição adequada).

Uma oportunidade surgiu no Hospital São Luís de São Caetano, motivada por uma auditoria da JCI (Joint Commission International). Rodrigo foi contratado para atender aos requisitos de cuidado de fim de vida (COP – Care of Patients). Ele destaca que a entrada por demandas de certificação é uma estratégia viável para quem deseja implementar serviços em hospitais privados.

Primeiros Passos: Interconsulta e Métricas

Rodrigo descreve o início solitário: sozinho, três vezes por semana, seis horas por dia, estruturando tudo do zero. Ele precisava planilhar dados para mostrar resultados aos gestores. Na auditoria JCI, ele teve 15 minutos para apresentar o serviço, explicando ferramentas de triagem, avaliações e planos de cuidado. Uma métrica que ele usava era o “tempo para definir um plano de cuidado” – mesmo que o plano fosse um trial ou “limitação nenhuma” – para evitar que as equipes ficassem “em cima do muro”.

Ele alerta para o uso inadequado do conceito de “potencialmente inapropriado” (baseado na resolução CREMESP 355), que pode se tornar uma muleta protelatória. Sua recomendação: mesmo que o plano de cuidado esteja em construção, é preciso registrar algo no prontuário, nem que seja “candidato a tudo”, para que os colegas de plantão se sintam respaldados.

Padronização da Comunicação no Prontuário

Um dos grandes aprendizados de Rodrigo foi a necessidade de padronizar e simplificar a comunicação do plano de cuidado. Ele observou que os médicos que lêem a evolução focam na conduta, não nos textos longos. Portanto, a conduta deve conter a informação essencial de forma clara: “paciente full code” (ressuscitar) ou “medidas de conforto”.

Ele criou um texto padrão para pacientes em avaliação inicial, deixando explícito: “plano de cuidados em construção, todas as medidas indicadas”. Isso facilita a auditoria, a passagem de caso e o trabalho das comissões de revisão de óbitos. Além disso, ele recomenda que informações sensíveis (conflitos familiares, percepções sobre a equipe) não sejam registradas no prontuário aberto, por questões de LGPD e para evitar problemas com familiares que tenham acesso.

Modelos de Remuneração e Financiamento

Rodrigo aborda um dos maiores desafios para a sustentabilidade dos serviços: o financiamento. Ele descreve três modelos principais:

  • Faturado: o serviço recebe por procedimento realizado, dependendo do que o plano de saúde paga. O problema é que o paliativista é remunerado como clínico geral, e se houver outro clínico no caso, pode não receber. É considerado inviável para a realidade atual.
  • Produzido: o serviço combina um valor fixo por paciente avaliado. A dificuldade é que o profissional pode ser levado a atender pacientes estáveis para “faturar”, em detrimento daqueles que demandam horas de atenção.
  • Pacote ou turno: o profissional recebe um valor fixo por período de trabalho, independentemente do número de pacientes. Este modelo tem se mostrado mais sustentável, pois permite que o paliativista se dedique ao que é necessário sem a pressão da produtividade numérica.

Rodrigo ressalta que, no início, o valor da hora pode ser baixo, mas com o tempo e a demonstração de resultados (qualidade técnica, qualidade percebida e impacto no NPS), é possível reajustar. Ele destaca que o tripé de negócio da Rede D'Or – qualidade técnica, qualidade percebida e resultado financeiro – está alinhado com o que o cuidado paliativo oferece.

A Câmara Técnica de Cuidados Paliativos da Rede D'Or

Em 2023, Rodrigo e outros colegas (como José Afonso) fundaram a Câmara Técnica de Cuidados Paliativos dentro da Rede D'Or, algo que não existia até então. Eles realizaram um censo com os 70+ hospitais da rede (hoje cerca de 79) para mapear políticas, equipes e graus de maturidade.

Os resultados mostraram que muitos hospitais tinham médicos interessados, mas sem hora dedicada ou financiamento, atuando na base do voluntarismo. Rodrigo compara esses serviços a “casas na areia”: sem base e sem sustentabilidade. Ele enfatiza a necessidade de criar cargos de gestão específicos para cuidados paliativos, à semelhança de outras especialidades, e de garantir contratações formais (como ocorreu em Brasília com a criação da carreira de médico paliativista na Secretaria de Saúde).

Em outubro de 2024, será realizado o II Simpósio Nacional de Cuidados Paliativos da Rede D'Or (dias 2 e 3, em São Paulo, no IDOR), com formato gratuito, presencial e telepresencial. Rodrigo deixa o convite e promete disponibilizar o link de inscrição.

O Sofrimento Existencial e o Autocuidado do Profissional

Rodrigo compartilha um caso recente que o marcou profundamente: um homem de 41 anos, com adenocarcinoma de pulmão metastático para coluna cervical, evoluindo para fim de vida, muito lúcido e com uma filha pequena. Durante uma visita, após a filha sair, o paciente desabou em choro, lamentando que ela teria que crescer sem ele. Rodrigo reflete sobre como lidar com o sofrimento existencial refratário – que não responde a psicoterapia, psicodélicos, cetamina ou terapia da dignidade – e a importância de simplesmente estar presente, ouvir e compartilhar a dor.

Ele admite ter saído “acabado” desse atendimento e discute o delicado equilíbrio entre não se endurecer (para não perder a empatia) e não se deixar consumir pela contratransferência. A solução, para ele, passa por:

  • Terapia regular (ele fez análise por 10 anos e hoje faz TCC).
  • Exercício físico, que faz diferença absurda no humor.
  • Estabelecer limites: não levar o trabalho para casa, ter momentos em que não se fala de casos difíceis.
  • Cultivar um “sagrado” pessoal. Rodrigo não é religioso (se define agnóstico), mas a música ocupa esse lugar para ele, permitindo-lhe chorar, reconectar e elaborar as experiências.

Ele relembra uma aula no Sírio que comparava Cecília Saudes e Brueira: “o sofrimento só é sustentável quando não tem ninguém que cuida” versus a realidade de que, mesmo com cuidado, o sofrimento é real e nos atravessa. A aceitação dessa travessia, sem a necessidade de dar sentido narrativo a tudo, é parte do amadurecimento profissional.

Estratégias para Quem Está Começando: Networking, Dados e Persistência

Rodrigo deixa um recado prático para os profissionais que desejam implementar cuidados paliativos em seus hospitais ou cidades:

  • Comece pela assistência ponta: dê as caras, seja chamado para casos, mostre seu valor resolvendo problemas reais.
  • Colete dados desde o início: planilhe indicadores (número de avaliações, tempo para definir plano de cuidado, redução de desperdícios, impacto no NPS). Dados são a linguagem da gestão.
  • Apresente resultados para os gestores: mostre como o cuidado paliativo melhora a qualidade técnica, a percepção do paciente e até o resultado financeiro (ex.: estudo de farmacoeconomia com óxido nítrico na Rede D'Or).
  • Faça networking: troque experiências com quem já implementou serviços. Use congressos, câmaras técnicas, grupos de WhatsApp, e não tenha medo de perguntar. “Não precisamos inventar a roda, mas adaptá-la à nossa realidade.”
  • Busque financiamento sustentável: lute por hora dedicada, contrato formal ou modelo de turno, em vez de depender apenas do faturado ou produzido.
  • Estude referências: leia o material do Center for Advancement of Palliative Care (CAPC) dos EUA, participe de congressos latino-americanos e siga especialistas como Douglas Crispin, Ricardo Tavares e Jonathan.
  • Mostre-se indispensável para os fluxos hospitalares: quando a direção perceber que o hospital não funciona bem sem o paliativista, o serviço se torna perene (“casa na rocha”).

Indicações Culturais e Contato

Para finalizar, Rodrigo indica o filme “Hamnet” (em cartaz e concorrendo ao Oscar), que aborda o luto de forma impactante por meio da arte, com atuações impressionantes. Ele acredita que a obra é especialmente relevante para quem lida com a morte diariamente.

Os ouvintes podem encontrar Rodrigo em seu Instagram profissional: @doutor.rodrigolima (tudo junto). Ele também participa do projeto Papers (coordenado por Cláudia) e responde a e-mails na Rede D'Or: rodrigo.lima@rededor.com.br. Ele se coloca à disposição para conversas, trocas e apoio a colegas que queiram implementar serviços – dentro ou fora da rede.

Conclusão: A Maturidade dos Cuidados Paliativos no Brasil

Rodrigo finaliza o episódio com uma nota de otimismo realista: o Brasil já não é mais a “várzea” que era em relação aos cuidados paliativos. Temos mais residências (o HC dobrou o número de vagas), mais profissionais formados, câmaras técnicas, simpósios e uma consciência crescente sobre a importância da especialidade. No entanto, ainda há um longo caminho em termos de financiamento, carreira pública, estruturação de leitos e integração com a atenção primária.

A mensagem final é de persistência e construção coletiva: cada serviço implantado, cada dado coletado, cada gestor sensibilizado é um passo em direção a um ecossistema mais humano e eficiente. Como Rodrigo diz: “É uma batalha árdua, mas vale a pena lutá-la.”