Um Café Pela Ordem | com Dra. Eleonora Nacif

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Introdução: A Essência da Advocacia Criminal e a Importância da Presença

No mais recente episódio do aclamado podcast "Um Café Pela Ordem", o apresentador e advogado Alexandre De Sá Domingues recebe uma das vozes mais potentes e respeitadas da advocacia criminal brasileira: a Dra. Eleonora Nacif. Com uma trajetória institucional de imenso destaque, Eleonora já presidiu o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM) e, atualmente, é a coordenadora do curso de Tribunal do Júri da Escola Superior de Advocacia de São Paulo (ESA-SP). A conversa flui com a intimidade de velhos amigos de trincheira, abordando os dilemas da profissão, a evolução do espaço feminino no Direito e as complexidades de atuar em casos de grande repercussão midiática.

O episódio começa com a tradicional explicação sobre o nome do programa. "Um Café" simboliza o combustível inesgotável das madrugadas de estudo do criminalista, enquanto "Pela Ordem" faz alusão à sagrada prerrogativa de pedir a palavra nos tribunais para corrigir equívocos e garantir o devido processo legal. Questionada sobre qual seria a sua prerrogativa favorita, Eleonora surpreende com uma resposta filosófica e profundamente humana: para ela, a necessidade mais fundamental do advogado contemporâneo é estar presente e conectado consigo mesmo e com o outro. Em uma era dominada por telas, notificações e dispersão digital, a capacidade de olhar nos olhos de um cliente aflito, de um juiz ou de um jurado, oferecendo escuta ativa e foco absoluto, tornou-se o maior diferencial e o maior desafio das profissões calcadas nas relações humanas.

O Avanço da Mulher na Advocacia Criminal e o Combate ao Machismo Estrutural

Alexandre faz questão de destacar o papel desbravador de Eleonora Nacif para as mulheres na seara criminal, um ambiente historicamente dominado por homens. Eleonora reflete sobre o início de sua carreira, no ano 2000 (completando 25 anos de formação). Naquela época, as referências femininas na advocacia criminal eram escassas; ela cita a Dra. Zulaiê Cobra Ribeiro, que logo migrou para a política, deixando uma lacuna de espelhamento para as jovens advogadas. Consequentemente, Eleonora precisou buscar inspiração em figuras masculinas.

Hoje, o cenário apresenta sinais claros de evolução. A eleição da Dra. Patrícia Vanzolini como a primeira mulher a presidir a OAB-SP é celebrada como um marco de vitória. As salas de aula das faculdades de Direito são majoritariamente compostas por mulheres. No entanto, Eleonora alerta que o machismo estrutural continua a operar de forma insidiosa como um mecanismo de desestímulo. Ela aponta que o assédio sexual e moral em reuniões e ambientes forenses não se trata apenas de uma questão de gênero, mas de um "recado" de poder: uma tentativa espúria de dizer à mulher que aquele espaço de combate não lhe pertence. A união e a força das advogadas criminalistas atuais têm sido fundamentais para rechaçar essas intimidações e garantir que a mulher ocupe, com excelência, a tribuna do júri e as mesas de negociação.

Café com História: A Humanidade Oculta no Caso Suzane von Richthofen

No aguardado quadro "Café com História", Eleonora compartilha memórias dos bastidores de um dos casos mais midiáticos da crônica policial brasileira: o julgamento de Suzane von Richthofen. Atuando ainda no início de sua carreira, com cerca de seis anos de formação, ela integrou a equipe de defesa capitaneada por seu pai, o lendário criminalista Mauro Otávio Nacif.

Eleonora decide revelar um momento de profunda intimidade profissional que desconstrói o senso comum sedimentado pela imprensa e por produções recentes de streaming (como a série "Tremembé"). A mídia frequentemente retratou Suzane como uma psicopata fria, manipuladora e desprovida de emoções, alegando que ela teria recebido a sentença condenatória com total indiferença. Eleonora, que foi a responsável por entrar na pequena sala reservada onde a cliente aguardava e lhe comunicar o veredito condenatório, relata uma realidade diametralmente oposta. Longe dos holofotes, Suzane desmoronou completamente, entregando-se a um choro profundo e dolorido. Essa passagem ilustra perfeitamente como a lente mediática muitas vezes desumaniza o réu para satisfazer a sede de espetáculo da opinião pública, ignorando a complexidade da condição humana.

A Mídia Opressiva e o "Trial by Media"

Aproveitando o gancho, Alexandre introduz o tema da influência da mídia no Tribunal do Júri. Eleonora resgata a expressão cunhada pelo mestre Evaristo de Moraes: o "trial by media" (julgamento pela mídia). Quando a imprensa condena um réu por antecipação, a defesa entra no plenário com um placar simbólico de desvantagem absurda, pois os jurados já chegam contaminados por uma narrativa acusatória consolidada. A advogada recorda de raras exceções onde a defesa conseguiu reverter esse massacre, como no caso do Coronel Ubiratan ou na absolvição de Carla Cepollina.

Questionada se a defesa deve ou não ocupar os espaços midiáticos, Eleonora é categórica: sim, deve ocupar, e com a mesma força da acusação. Ela cita como exemplo brilhante o documentário sobre Elize Matsunaga na Netflix. Ao permitir que a ré contasse sua própria versão dos abusos, humilhações e do estado de espírito que a levaram ao crime (com o intuito de deixar um legado de sua verdade para a filha), a produção conseguiu humanizar uma figura até então demonizada nacionalmente. Ocupar a mídia de forma estratégica é, hoje, uma extensão essencial do direito de defesa em casos de alta voltagem pública.

Mitos e Verdades: O Tribunal do Júri e a Banalização da Justiça

No quadro "Mitos ou Verdades", Alexandre questiona se o Tribunal do Júri é um teatro. Eleonora pondera que a afirmação é, simultaneamente, mito e verdade. É mito se o termo "teatro" for usado de forma pejorativa, sugerindo falsidade. Ela repudia falas de magistrados que diminuem a dor do plenário dizendo "isso não é Hollywood" ou "isso não é Netflix". O júri lida com tragédias reais, morte, sangue e famílias destroçadas. Contudo, é verdade que o rito possui uma estética teatral inegável: a imponência da beca, a modulação da voz, os gestos largos e a necessidade de capturar a emoção dos jurados.

Eleonora lança uma crítica feroz às tentativas contemporâneas de esvaziar o Tribunal do Júri e a advocacia (como a implementação forçada de júris virtuais, o cerceamento das sustentações orais e o uso de Inteligência Artificial para redigir sentenças pasteurizadas). A advocacia criminal combativa incomoda porque obriga o Estado e o Judiciário a pensar, a ler e a justificar suas decisões. Citando o advogado Jader Marques, ela crava a máxima: "O futuro é feito à mão". A justiça penal exige um trabalho artesanal, visceral e humano que nenhuma máquina ou algoritmo poderá substituir.

Inspirações e Momento Cultural

Próximo ao encerramento, Eleonora revela as grandes inspirações de sua vida profissional. Além de seu pai, Mauro Otávio Nacif — que lhe ensinou, pelo exemplo prático e não apenas pelo discurso, a ser estudiosa, honesta, digna e a cultivar a fidalguia e o respeito até pelos mais ferrenhos promotores de justiça —, ela cita a ativista e filósofa norte-americana Angela Davis. A leitura constante das obras de Davis, uma mulher negra que vivenciou o cárcere e dedica sua vida ao abolicionismo penal, serve para Eleonora como uma vacina contra o cinismo da rotina forense, mantendo acesa a chama da luta pelos Direitos Humanos e do antirracismo.

No "Momento Cultural", a advogada deixa duas excelentes dicas para o público:

  • O Mauritano (Filme): Baseado em uma história real assustadora de um homem acusado injustamente de terrorismo (ligado ao 11 de setembro) e mantido preso e torturado na Prisão de Guantánamo. O filme é um soco no estômago sobre as arbitrariedades do Estado, o erro judiciário e a quebra de garantias processuais sob a justificativa do pânico social.
  • Ângela Diniz: Assassinada e Condenada (Série/HBO): Inspirada na pesquisa primorosa do podcast "Praia dos Ossos", a série revisita o assassinato da socialite Ângela Diniz por Doca Street na década de 1970. A obra é vital para entender como o renomado advogado Evandro Lins e Silva utilizou a tese machista da "mulher fatal" e da "legítima defesa da honra" para culpar a vítima por seu próprio assassinato, um retrato histórico das inflexões de gênero no sistema de justiça que, felizmente, seriam inadmissíveis e rechaçadas nos dias atuais.

O episódio se encerra com uma exaltação ao Tribunal do Júri e à resiliência da advocacia criminal brasileira, provando que a paixão e o estudo contínuo são as únicas armas capazes de refrear o poder punitivo do Estado.