🎧 TEMP 2 EP #3 – Morro da Fumaça: Orgulho do Butantã e da Zona Oeste | PodJogar

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1. A Origem do Apelido 'Dentinho' e a Era do Orkut

Otávio, mais conhecido no mundo da várzea como Dentinho, revela que seu apelido não veio de uma jogada genial ou de um familiar, mas sim de uma semelhança física com um jogador profissional. O apelido surgiu espontaneamente nas ruas, quando as pessoas começaram a notar sua semelhança com o atacante do Corinthians, Dentinho. Curiosamente, a popularização do apelido veio justamente da resistência inicial. Como o próprio brinca: o apelido só pega de verdade quando você não gosta dele.

Em uma reflexão bem-humorada, Otávio compara sua trajetória com a de outros jogadores que ficaram conhecidos por apelidos, como Neymar, Gabriel Menino e Dudu. Ele brinca que jogou na "época errada", pois hoje em dia, com a força das redes sociais e da internet, ele poderia estar faturando alto com a semelhança. Em sua época, a realidade era outra: a rede social dominante era o Orkut, onde o alcance e a propagação de memes e imagens eram muito mais limitados do que no cenário atual de TikTok e Instagram, entregando, de forma descontraída, sua idade e a passagem do tempo no futebol de várzea.

2. Morro da Fumaça: De 2005 até Hoje, Uma História de Comunidade

O Morro da Fumaça não é um time que surgiu ontem. Sua história remonta a meados de 2005, quando um grupo de garotos se reunia para treinar em um clube-escola no Parque Raposo. O mentor dessa turma era Dagoberto, um ex-goleiro do Corinthians, que não só treinava a rapaziada durante a semana, mas também deu um passo fundamental para a fundação do time: ele forneceu o primeiro uniforme. Inicialmente, o time jogava aos domingos contra equipes de veteranos e master, mas devido à disparidade de idade e força física, logo perceberam que precisavam agregar jogadores mais experientes e encorpados ao elenco.

Otávio, que está no clube desde o início, ingressou no time com cerca de 14 ou 15 anos. Agora, caminhando para completar duas décadas de história, ele celebra os altos e baixos de uma jornada que está prestes a alcançar a maioridade no futebol de várzea. A pergunta sobre o nome "Morro da Fumaça" revela uma conexão profunda com a geografia e a memória afetiva do bairro. O time é oriundo do Jardim Jaqueline, no Butantã, região onde hoje se encontra o Parque Raposo. Antes de ser um parque, o local era um antigo aterro sanitário, um lixão. Após o aterramento, o projeto do parque foi implementado, mas o terreno ainda soltava fumaça do chão devido a focos de incêndio subterrâneos. Somando-se a isso, a geografia do bairro, com suas subidas íngremes (morro), o nome surgiu de forma orgânica e inesquecível: Morro da Fumaça.

3. A Torcida que É Combustível e os Produtos do Clube

Se engana quem pensa que a torcida não ganha jogo. Para Otávio e o Morro da Fumaça, a torcida é, sem dúvida, o combustível do time. Durante a fase regional, enfrentando jogos em locais mais distantes, a Fumaça teve a grata surpresa de contar com mais torcedores do que jogadores em campo. A presença massiva da comunidade, inclusive em caravanas com mais carros do que atletas, mostra o quanto o clube é abraçado pelo bairro.

Essa torcida não se faz presente apenas pelo grito. Ela também contribui ativamente para a saúde financeira do clube através da compra de produtos oficiais. Camisetas, bonés e outros materiais esportivos são vendidos para os apaixonados, e toda a receita gerada retorna para a própria comunidade. Em um gesto que ilustra o alcance desse amor, Otávio conta que um dos diretores, Douglas, viaja para São João e Pernambuco, e volta "depenado", sem nenhum material, pois os itens ficam todos com os amigos e familiares que os admiram à distância. O chamado para os ouvintes é direto: procurem a página do Morro da Fumaça nas redes sociais para adquirir o uniforme vermelho e preto e ajudar a manter essa história viva.

3.1. A Virada Histórica: Quando a Torcida Acreditou, o Time Reagiu

Uma das histórias mais emocionantes contadas por Otávio envolve uma virada heróica na fase de grupos da competição regional. O Morro da Fumaça havia perdido o primeiro jogo, vencido o segundo e chegado ao terceiro jogo decisivo. Pelo regulamento, um simples empate bastava para a classificação às oitavas de final. No entanto, o placar mostrou um cenário desesperador: o time saiu vencendo por 2 a 0, mas sofreu a virada, passando a perder o jogo.

Já no apagar das luzes, com o cansaço e a frustração tomando conta, a torcida começou a gritar incessantemente: "Vamos, vamos, acredita que vai dar certo". Para Otávio, que estava em campo atuando na zaga, aquele grito teve um efeito transformador. Ele parou em um escanteio, ouviu seu nome ecoar e pensou: "Se eles acreditam em mim, é porque eu consigo". Ele reuniu o time e declarou que, se a torcida estava ali gritando, era porque eles eram capazes. Naquele momento, passou o cansaço, passou a sede e só restou a vontade de vencer. Minutos depois, um pênalti foi convertido, garantindo o empate e a classificação. Uma prova incontestável de que a energia das arquibancadas pode, sim, mudar o rumo de uma partida.

4. Tradição Familiar e a Filosofia de Dagoberto: 'Leva o Treino a Sério'

O amor de Otávio pelo futebol é, antes de tudo, uma herança familiar. Ele conta que seu pai jogava bola, sua mãe jogava bola e, segundo ela, ele e seus irmãos já nasceram com o esporte no sangue, literalmente "dentro da barriga". Apesar de o sonho de ser profissional estar sempre presente, os recursos na época eram escassos. As dificuldades financeiras e a falta do famoso QI (Quem Indica) foram barreiras intransponíveis para trilhar a carreira nos clubes de base.

No entanto, foi nos treinos com Dagoberto que Otávio absorveu a filosofia que o guiou por duas décadas. O ex-goleiro sempre repetia: "Leva o treino a sério, que ainda que você não seja profissional, pelo menos para ser titular do time do bairro". Essa máxima ressoou profundamente no grupo. Ninguém queria ser reserva, e a vontade de ser titular do Morro da Fumaça era combustível diário. Otávio, que atua como centroavante mas aprendeu a jogar em todas as posições para ajudar o time, hoje sente a idade chegar. Ele transita entre os bastidores como auxiliar da diretoria, ao lado do irmão, aplicando a sábia estratégia de entrar no segundo tempo, pegar o zagueiro mais cansado e deixar a molecada nova correr.

5. O Primeiro Título em 2023: Pênaltis, Chuva e Festa até Meia-Noite

Depois de quase duas décadas de dedicação, o primeiro título veio em 2023, no campo do Perequê, em Embu. A conquista, no entanto, foi cercada por desafios logísticos que testaram a determinação do grupo. Após uma vitória na semifinal no Capão Redondo, os organizadores queriam mandar a final para lá. O problema era o custo: os ônibus fretados para o Capão Redondo estavam muito mais caros. A solução foi disputar a final em Embu, onde a organização oferecia dois campos: um bom (onde o adversário jogava) e um ruim.

Otávio e o Morro da Fumaça optaram por enfrentar o adversário na casa do oponente, no campo bom, confiando na habilidade e velocidade de seus atletas. A decisão foi acertada. Após um jogo tenso e equilibrado, o título foi decidido nos pênaltis. A vitória veio, e com ela, uma festa memorável. Apesar de uma chuva torrencial que muitos interpretaram como uma "lavagem da alma", ninguém quis saber de ir embora. A comemoração se estendeu até meia-noite, com a galera ainda abrindo latinhas de cerveja, celebrando um marco histórico para a comunidade.

5.1. O Maior Perrengue: O WO Devido à Chuva e a Superação no Ano Seguinte

Se vencer é glorioso, o caminho até o topo é pavimentado por perrengues. O pior deles, segundo Otávio, aconteceu em um contexto parecido com a conquista, mas com um desfecho frustrante. Em uma edição anterior dos Jogos da Cidade, o time estava pronto e confiante. Chovia forte e, no campo ao lado, um jogo foi encerrado mais cedo devido às más condições do gramado de terra (terrão). A organização apressou a entrada do Morro da Fumaça em campo, mesmo com o horário já tendo passado.

Ao chegarem, a equipe foi surpreendida: o árbitro já havia encerrado a partida, e o time foi sumariamente derrotado por WO (Walkover). A revolta foi grande, pois o argumento era simples: se o jogo anterior foi cancelado pela falta de condições do campo, o deles também deveria ser. Mesmo com a injustiça, o time canalizou a raiva. A fala foi unânime: "Ano passado não deu, mas esse ano, se Deus quiser, vai ser o nosso". E deu certo. No ano seguinte, a equipe superou o WO traumático e conquistou o título da regional dos Jogos da Cidade, transformando um dos maiores perrengues em combustível para a glória.

6. Recrutamento, Disciplina e a 'Janela de Transferência' da Várzea

Montar e manter um elenco competitivo por quase 20 anos exige estratégia. O Morro da Fumaça é composto majoritariamente por jogadores da própria comunidade do Jardim Jaqueline e arredores, criando um misto de talentos que se completa em campo. Entre os destaques, Otávio cita o atacante Renatinho (artilheiro), Pelezinho (que joga muito), o zagueiro Jacaré, Buyu, Ton Negão na esquerda e Roni Cásio, formando uma base sólida.

A gestão de elenco é um desafio constante. Com cerca de 28 a 30 jogadores inscritos, a disciplina é palavra de ordem. Otávio admite que é difícil controlar a vontade dos atletas, especialmente os mais jovens, que querem curtir a madrugada. A filosofia do clube é clara: "se guardar". Nada de forró a noite toda antes do jogo, pois a perna cansa. A comemoração e a cerveja ficam reservadas para o pós-jogo. Há uma espécie de "janela de transferência" informal na várzea, onde times vizinhos disputam os mesmos jogadores. Para evitar conflitos, a diretoria do Morro da Fumaça adota uma postura dialogal: antes de entrar em um campeonato, perguntam aos atletas sobre seus compromissos com outras equipes, tentando alinhar calendários para que ninguém fique na mão e todos os times da região tenham espaço.

7. A Evolução da Várzea: Do Terrão ao Sintético e a Democratização dos Jogos da Cidade

Otávio, que testemunhou a várzea paulista por duas décadas, analisa a evolução do cenário com entusiasmo. A principal mudança foi, sem dúvida, a infraestrutura. Antigamente, o terrão era o padrão, e o medo de lesões era constante, afinal, todos tinham que trabalhar na segunda-feira. Hoje, a popularização dos campos sintéticos revolucionou o esporte amador, permitindo um jogo mais rápido, mais dinâmico e com menos riscos.

Além disso, a logística se tornou mais acessível. Com mais condições financeiras, os jogadores podem dividir Ubers ou ir com seus próprios carros. Mas o grande salto de qualidade, na visão de Dentinho, veio com a estrutura oferecida por campeonatos como os Jogos da Cidade. A competição é elogiada por sua democratização: sem taxa de inscrição, sem custos com arbitragem e com festas que incluem pipoca, algodão doce, salinha de videogame e transmissões ao vivo. Comparando com o cenário de 20 anos atrás, Otávio afirma que eventos desse porte não chegavam perto das comunidades da zona sul. A música do Racionais EC é lembrada para ilustrar a máxima: "da ponte para cá é mais difícil". O futuro, ele acredita, é de melhora contínua, com mais times, mais competitividade e mais profissionalismo.

8. O Projeto Social e a Renovação: Ícaro e a Molecada que Vem Aí

Dentro da comunidade, o Morro da Fumaça exerce um papel social que vai muito além das quatro linhas. A relação com os jovens é de proximidade e paciência. Otávio conta que frequentemente conversa com a molecada ansiosa, ensinando que "o tempo é a chave de tudo". O conselho é repetido: "mais ouvido e menos boca", sem afobação, observando os mais velhos como espelho.

Um exemplo vivo desse trabalho de base é o garoto Ícaro. Em 2019, ele aparecia em uma foto de um festival organizado pelo time, pequenininho. Anos depois, o Morro da Fumaça o integrou ao grupo principal para jogar a fase municipal dos Jogos da Cidade. Essa renovação é o que mantém o clube vivo. Enquanto os veteranos migram para as categorias master, os jovens assumem a vaga no time esporte (principal). Otávio acredita que muitos desses talentos têm potencial para o profissionalismo, pois hoje a várzea não é mais um esconderijo. Todo mundo está vendo: tem filmagem, tem olheiros, tem comentários. A várzea tornou-se uma vitrine, um caminho, um abridor de portas para quem sonha alto.

9. O Significado do Morro da Fumaça e o Sonho do Pacaembu

Ao ser questionado sobre o que o clube representa, a resposta de Otávio é direta e emocionante: família. O Morro da Fumaça é sua segunda família. Ali, estão as esposas dos jogadores, os filhos, os amigos. Quando não podem ir aos jogos, acompanham pelas lives. Todo mundo se ajuda, se preocupa um com o outro, formando uma rede de apoio sólida que resiste ao tempo.

Quanto ao futuro, a visão é de construção presente, sem passos maiores que a perna. O objetivo é vivo e palpável: ser campeão no Estádio do Pacaembu nos Jogos da Cidade. A derrota nas oitavas de final recente não abalou a fé. O recado para 2026 é claro: o Morro da Fumaça está de olho na vaga para jogar onde os craques pisaram. E, para encerrar, Otávio reflete sobre a sensação de estar no podcast. Ele define como uma "sensação de dever cumprido". Saber que o esforço de quase 20 anos, as dores, as alegrias, os WOs e os títulos estão sendo vistos não só pela comunidade, mas por São Paulo e pelo Brasil através da internet, valida que nada foi em vão. As portas do Jardim Jaqueline e do Bar do Romeu estão abertas para a resenha, a cerveja e, quem sabe, uma futura comemoração no Pacaembu.