Professor Christian Lohbauer: Política entre gerações | RECH #14

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A Fundação do Partido Novo e os Planos Originais: Bernardinho e Armínio Fraga

O professor Christian Lohbauer, um dos fundadores do Partido Novo, revela detalhes inéditos sobre a criação da legenda em 11 de fevereiro de 2011, quando 180 pessoas se reuniram no Rio de Janeiro para fundar o partido. Ele desfaz o mito de que João Amoedo teria um plano diabólico, descrevendo-o como um homem muito trabalhador, inteligente e honesto, que construiu sua própria riqueza e decidiu empreender na política. No entanto, Amoedo não tinha o perfil necessário para a política, e seu sucesso em outras áreas não se repetiu nesse projeto. O plano original do partido, que quase vingou, era ter Bernardinho (técnico de vôlei, economista) como candidato a presidente e Armínio Fraga como vice. Bernardinho recusou porque sua esposa, Fernanda Venturini, ameaçou se separar se ele se candidatasse. Lohbauer lamenta: "O Brasil poderia ter tomado outra direção". A candidatura de Amoedo em 2018 foi por pressão interna; ele mesmo não queria ser candidato no início. Lohbauer acabou sendo vice por uma conjunção de fatores: era candidato ao Senado por São Paulo, mas quando o apresentador Datena se lançou ao Senado, Lohbauer calculou que perderia e aceitou ser vice de Amoedo. Quinze dias depois, Datena desistiu — mas já era tarde. O plano original do Novo era construir bancada, não eleger governadores ou senadores. A meta era eleger 8 deputados em 2018, dobrar para 16-20 em 2022 e quadruplicar em 2026, chegando a 100 deputados federais — o suficiente para mudar o país.

A Ruptura com João Amoedo: Pandemia, Impeachment e o Ódio pelo Bolsonaro

A desavença entre Lohbauer e Amoedo começou em 2019, quando o Novo elegeu Romeu Zema governador de Minas Gerais. Lohbauer participou ativamente da escolha dos secretários, indicando, por exemplo, o nome para a Secretaria de Agricultura. No entanto, a relação ficou "esquisita" em meados de 2019, quando o governo de Minas precisou governar de forma independente. O ponto de ruptura definitivo foi a pandemia de COVID-19. Amoeda, uma pessoa muito disciplinada com a saúde (faz triatlo, come bem, dorme cedo), ficou extremamente incomodado com as falas e ações de Jair Bolsonaro em relação à pandemia. Segundo Lohbauer, esse incômodo se transformou em um "ódio pelo Bolsonaro que acabou destruindo o Amoeda e quase destruiu o partido". Amoeda convenceu o diretório nacional de que havia razões técnicas para pedir o impeachment do presidente. Lohbauer tentou alertá-lo: "João, você não fala mais o que você quer. Agora a gente governa Minas. O ministro da Fazenda coloca quase 800 milhões por mês para o governador pagar o funcionalismo. Nós temos que fazer política, compor com a presidência da República". Amoeda respondeu: "Eu falo o que eu quiser". Lohbauer nunca mais falou com ele. A última conversa foi em dezembro de 2020. No ano seguinte, Lohbauer se desfiliou do partido por seis meses. O estrago foi enorme: o Novo, que tinha 8 deputados em 2018, elegeu apenas 3 em 2022. Lohbauer resume: "Andamos cinco casinhas para trás".

Os Que Ficaram: Eduardo, Dávila, Adriana Ventura e a Reconstrução

Apesar da debandada, Lohbauer faz questão de elogiar aqueles que tiveram mérito na reconstrução do partido. Primeiro, Eduardo (atual presidente do Novo), que inicialmente comprou a ideia do impeachment mas depois mudou de ideia, salvando a legenda. Em seguida, Luís Felipe Dávila, que foi candidato a presidente em um momento difícil. Lohbauer admite que no começo achou que não foi uma boa decisão, mas "queimou a língua": Dávila conseguiu manter a calma, a unidade e dar visibilidade ao partido nos debates na televisão. Finalmente, Adriana Ventura foi fundamental para Lohbauer pessoalmente — foi ela quem pediu que ele voltasse ao partido em abril de 2022, dizendo que precisavam reconstruir. Lohbauer volta, e Adriana é hoje uma excelente parlamentar, indo para o terceiro mandato. Lohbauer se considera "o último dinossauro da fundação que está ativo" — muitos fundadores ainda são filiados, mas não atuam mais. Ele acredita que não há outro caminho senão insistir na construção de uma legenda com conteúdo ideológico, especialmente num cenário em que o sistema partidário brasileiro está falido: partidos como PSD, PL, PMDB, União Brasil e PP são todos iguais — grandes empresas que trabalham com dinheiro público e distribuem cargos e benesses, sem estatuto, ideia ou programa de país.

O Perfil Ideológico do Novo: Liberal-Conservador e as Divergências Internas

Lohbauer define o Partido Novo como genuinamente liberal-conservador — não é social-democrata, socialista, de centro ou liberal-social. Ele reconhece que há tensões internas, mas argumenta que as divergências são "triviais" diante da oferta ruim que existe no Brasil. Dentro do Novo, há liberais clássicos, libertários e conservadores fortes (como Marcel van Hattem e Ricardo Salles). Lohbauer dá um exemplo concreto de uma posição liberal que ele defende e que é controversa: a liberação da maconha. Ele explica: "Não é liberação das drogas. Eu sou contra as drogas. Mas hoje você vai na praia, na universidade, na Paulista, no estádio de futebol, está todo mundo fumando maconha. Comprovadamente não faz mais mal do que tomar cinco copos de whisky por dia." Para Lohbauer, essa é uma agenda liberal dos costumes, e o Novo está aberto a debatê-la — embora não seja prioridade no momento. O que importa é que o partido tem um programa consistente de políticas públicas (o programa de 2026 está sendo finalizado) e uma identidade que o diferencia da massa fisiológica do centrão.

O Agronegócio, a Burocracia Francesa e a Luta Contra a Doutrinação nas Escolas

Lohbauer, que trabalhou por 25 anos em entidades de representação do agronegócio (FIESP, proteína animal, suco de laranja, defesa vegetal, e na Bayer), faz uma análise contundente das contradições da esquerda brasileira. O MST, nascido em 1984 herdeiro das Ligas Camponesas, vende um modelo de reforma agrária que não existe em nenhum lugar do mundo: a fazendinha de 10 hectares com uma vaquinha, um porquinho e um pé de laranja. Enquanto isso, o Incra (criado pelos militares nos anos 70) é a instituição oficial que deveria fazer colonização e reforma agrária — mas quando o PT governa, não dá nem a escritura da terra, pois quer manter a dependência do "coitadinho". Lohbauer também expõe o escândalo da doutrinação nos livros escolares: um estudo da FIA (USP) analisou os 80 principais livros didáticos brasileiros e descobriu que apenas 3,5% das referências sobre agricultura são científicas; 96,5% são opinativas — textos do Greenpeace, artigos de jornal, opiniões de ativistas. Isso foi publicado para 15 milhões de crianças e adolescentes durante 30 anos. O projeto "De Olho no Material Escolar", que Lohbauer ajudou a financiar, leva crianças para visitar fazendas e ver a realidade do campo. Já foram 35 mil crianças em 2024, com meta de 100 mil em 2025. Lohbauer também revela que o Plano Nacional de Educação chegou a prever que o MST seria a instituição responsável pela educação ambiental dos brasileirinhos nos próximos 10 anos — a deputada Adriana Ventura conseguiu tirar esse absurdo da lei.

A JBS, o Capitalismo de Estado e o Destino das Grandes Empresas Brasileiras

Lohbauer não poupa críticas ao modelo de capitalismo de estado brasileiro, que ele chama de "capitalismo de laços" (termo do economista Sérgio Lazzarini). A JBS é o exemplo mais flagrante: uma empresa que era pequena nos anos 90, açougueiros em Goiás, recebeu recursos bilionários do BNDES no governo do PT (dentro da "nova matriz econômica" de Dilma Rousseff, com Luciano Coutinho e Guido Mantega) para comprar empresas lá fora. Lohbauer reconhece a competência técnica da JBS no abate e processamento de carne, mas afirma que a empresa comprou o estado brasileiro, financiando campanhas inteiras (inclusive a reeleição de Dilma) com dinheiro público — tudo gravado na Lava-Jato pelos próprios irmãos Batista. A multa foi cancelada, e hoje a JBS é a maior empresa privada do Brasil, sócia da usina nuclear de Angra e de empresas elétricas na Amazônia. Lohbauer sugere que, mais cedo ou mais tarde, a história fará com a JBS o que Theodore Roosevelt fez com a Standard Oil em 1904: dividiu o monopólio de Rockefeller em sete empresas (Texaco, Exxon, etc.) para promover concorrência. "Nas devidas proporções, essa empresa está ficando tão grande, dona de tudo, que em algum momento vão dizer: 'Desculpa, amigão, você não é dono do país, divide em cinco pedaços'."

O Debate sobre Trabalho Infantil, Jovem Aprendiz e os Problemas da CLT

Lohbauer defende a polêmica fala do governador Romeu Zema sobre jovens e trabalho. Ele esclarece que Zema não falou de crianças de 8 ou 10 anos, mas de jovens de 14, 15 anos poderem trabalhar e estudar. Lohbauer começou a trabalhar como técnico de informática aos 14 anos e afirma que todas as pessoas bem-sucedidas que ele conhece começaram cedo. Ele critica o "fetiche do canudo de faculdade" — o Brasil passa 30 anos formando jovens que não sabem escrever, ler, fazer conta, como comprovam os índices do PISA. O ensino técnico é a solução. Lohbauer também ataca a CLT, baseada na Carta del Lavoro de Mussolini, chamando-a de "jurássica" e criticando a indústria de processos trabalhistas: 95% dos processos trabalhistas do mundo estão no Brasil. Bancos internacionais já declararam ter mais ações trabalhistas no Brasil do que no resto do mundo inteiro combinado. Quanto ao Bolsa Família, Lohbauer não é contra políticas sociais, mas critica o modelo atual: "A celebração tem que ser quando a pessoa sai do programa, não quando ela entra. Quanto mais gente eles põem, mais eles celebram. Dinheiro não nasce em árvore. Esse recurso vem de quem está trabalhando e pagando imposto." Ele sugere que marmanjo de 20 a 30 anos não deveria receber auxílio, e sim ser obrigado a aceitar o primeiro emprego disponível.

José Dirceu: O Estrategista que a Direita Não Tem

Lohbauer faz uma análise respeitosa, mas ácida, de José Dirceu. Ele o chama de "bom estrategista, frio e calculista", e revela que, no plano original do PT, era Dirceu quem deveria ser presidente depois de Lula (não Dilma Rousseff). O plano era ficar 25 anos no poder. Dirceu foi "sacrificado" na crise do mensalão (2005-2006) para que Lula não caísse, e ficou preso durante o governo Dilma. Lohbauer acredita que há ressentimento entre Lula e Dirceu até hoje, mas Dirceu, frio como é, nunca jogou contra porque sabe do poder de Lula. Hoje, Dirceu é candidato a deputado federal por São Paulo e deve ser eleito. Lohbauer admira sua inteligência estratégica, embora tema a pessoa. A pergunta que fica é: quem é o José Dirceu da direita? Lohbauer não identifica ninguém. Os caciques da direita (Gilberto Kassab, Valdemar da Costa Neto, Marcos Pereira, etc.) são donos da grana — controlam bilhões de dinheiro público e distribuem de acordo com seus interesses fisiológicos, mas não têm visão de mundo, programa de país ou estratégia. Eles são fisiologistas puros, manutenção de cargo e privilégio. Lohbauer conclui que o petista hoje "já saiu da dimensão ideológica e é meio desvio de caráter mesmo": ou é um completo ignorante, ou está ganhando alguma coisa com isso (cargo, benefício, bolsa).