A Trajetória Acidental (e de Sucesso) no Mundo da Comunicação e Inovação
Cecília Bere, uma das maiores referências em Relações Públicas (PR) e comunicação no ecossistema de tecnologia no Brasil, compartilhou no podcast Confraria Tech Talks como a sua carreira começou de forma bastante curiosa. Na época do vestibular, ela estava em dúvida entre três caminhos completamente distintos: Arquitetura, Relações Internacionais e Jornalismo. O motivo inusitado para escolher Jornalismo? O seu grande sonho de trabalhar na revista Viagem para explorar o mundo.
Apesar de ter enviado currículos logo no primeiro semestre (inclusive se oferecendo para trabalhar de graça), a sonhada vaga na revista de turismo nunca chegou. No entanto, essa aparente frustração foi o empurrão necessário para que ela diversificasse sua experiência logo cedo, passando a escrever para o sindicato dos fiscais de renda de São Paulo e cuidando da digitalização e das redes sociais dessa instituição.
A virada de chave aconteceu no começo de 2012. Durante um jantar com amigos, Cecília conheceu Thales, o fundador da Easy Taxi. Naquela época, o conceito de "startup" era pouco conhecido no Brasil e as pessoas ainda usavam celulares analógicos e sem aplicativos. Convidada a enviar o currículo de forma despretensiosa, Cecília foi contratada para o cargo de "PR Global" da empresa. Ganhando muito menos do que em seu emprego anterior, ela aceitou o desafio apoiada pelo conselho da mãe: "Você é jovem, mora em casa, se joga!".
Trabalhar na Easy Taxi foi sua grande escola. Quando entrou, a startup operava em 5 países; um ano depois, quando saiu, já marcava presença em 35 países. Ela precisou aprender na prática como escalar a reputação de uma empresa a nível global e a dar suporte a agências internacionais de PR, apaixonando-se pelo ecossistema frenético das startups.
O Salto para o Empreendedorismo: Da Venda de Palestras à Agência de PR
Após a Easy Taxi, Cecília foi para outra startup, a HelloFood (que mais tarde foi adquirida pelo iFood). Paralelamente, ela continuou a fazer trabalhos freelancers para o fundador da Easy Taxi. Como ele recebia muitos convites para dar palestras, sugeriu que ela vendesse as apresentações e ficasse com uma comissão. A iniciativa deu tão certo que ela passou a agenciar também outros empreendedores em alta na época, como Marco Gomes.
O volume de trabalho com as palestras começou a conflitar com seu emprego CLT. Foi então que, aos 24 anos, encorajada por seus clientes, ela decidiu abrir sua própria agência focada no agenciamento de empreendedores: a Fala Criativa.
A partir de 2016, com a rede de contatos forte que havia estabelecido no ecossistema, os fundadores de startups começaram a pedir indicações de agências de relações públicas. Cecília resolveu testar o mercado e abraçou essa nova demanda, fazendo o lançamento da Rappi no Brasil, além de trabalhar com gigantes como GetNinjas e DogHero. O braço de PR cresceu tanto que ela encerrou a venda de palestras em 2019 para focar exclusivamente em reputação e comunicação institucional.
Adaptação na Pandemia e a Gênese do "Grupo Fala"
O ano de 2020 e a pandemia da COVID-19 trouxeram um choque de realidade. Como costuma acontecer em crises, o orçamento de comunicação foi o primeiro a ser cortado por muitas empresas. Com o caixa da agência ameaçado, Cecília precisou se reinventar mais uma vez.
Ela convenceu sua irmã e sócia, Thaís, a abrirem uma segunda agência focada exclusivamente no posicionamento digital de executivos e empresas (já que todo mundo agora estava confinado e dependia do ambiente digital). A nova investida foi um sucesso instantâneo, expandindo para o trabalho de relações públicas de marca pessoal de grandes executivos.
Com três agências rodando de forma independente em 2021, foi necessário organizar a casa. Esse processo de unificação culminou no rebranding de 2024, consolidando todas as operações sob um único nome forte e coeso: o Grupo Fala, que hoje atende desde startups promissoras até corporações centenárias que buscam oxigenar sua comunicação com viés de inovação.
Gestão de Reputação: CPF e CNPJ Lado a Lado
Uma das grandes mensagens do podcast é que a reputação da empresa e do seu fundador são indissociáveis. Para que uma marca ganhe credibilidade no mercado, é fundamental que haja um rosto humano por trás dela. O CEO ou os fundadores precisam ser porta-vozes da companhia, utilizando ferramentas como o LinkedIn para dar voz aos valores da empresa e atrair a atenção de investidores, jornalistas e parceiros.
Porém, isso traz grandes riscos na era das redes sociais. Se o líder da empresa tem uma postura polêmica, agressiva ou levanta bandeiras que não condizem com a cultura da marca, a crise é imediata. O trabalho de Relações Públicas é atuar de forma preventiva, treinando o executivo (Media Training) e mapeando riscos.
Quando a crise explode, a regra de ouro de Cecília é: não tome decisões no calor do momento. O PR deve agir com rapidez para posicionar a empresa perante a imprensa, mas as decisões estratégicas de mudança de rota e contenção de danos exigem análise fria dos dados gerados pelo monitoramento digital de sentimento do público.
Conselhos de Ouro para Startups e Empreendedores
Durante o quadro "Mito ou Verdade", Cecília desmistificou várias crenças do mercado. Ela deixou claro que ter um produto excelente não é suficiente para garantir uma boa reputação (MITO), que a gestão de reputação não é luxo exclusivo de corporações gigantes (MITO) e que a forma como a empresa trata seus colaboradores é, sim, um reflexo direto de sua reputação no mercado (VERDADE).
Para startups que estão começando e possuem pouco caixa, Cecília dá conselhos valiosos:
- Faça o básico bem feito: Responda: O que a sua empresa faz? Para quem você vende? Qual o seu diferencial? Se o seu site não explica seu negócio com clareza em poucos segundos, você perderá vendas para concorrentes piores, mas com marcas mais fortes.
- Não invista em PR para milagres de curto prazo: Contratar uma agência de RP por 3 meses com a esperança desesperada de atrair investidores é jogar dinheiro fora. A reputação é construída no longo prazo. Para o curto prazo, invista em marketing digital e performance estrutural.
- Prepare a casa antes de aparecer na mídia: Muitos fundadores querem sair em grandes jornais ou canais de TV, mas não têm um sistema de vendas ou suporte ao cliente preparado. Se a demanda explodir devido à matéria e o cliente ficar 5 dias sem resposta no WhatsApp, a publicidade positiva rapidamente se transforma em uma avalanche de reclamações e reputação manchada.
Conclusão
O bate-papo no Confraria Tech Talks evidenciou que a reputação é o maior ativo de qualquer empresa, seja uma barraquinha de cachorro-quente no interior do Tocantins ou um unicórnio na Faria Lima. Cecília Bere demonstrou que a resiliência, a cara de pau para fazer perguntas e a humildade para ouvir as necessidades do mercado são as ferramentas que constroem negócios duradouros.