PrintCast #144 – Régia Moreira Leite

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PrintCast #144: A Trajetória de Régia Moreira Leite e a Força da Indústria Gráfica em Manaus

O episódio 144 do PrintCast, em parceria com a TV Abigraf, trouxe uma das figuras mais inspiradoras e resilientes do mercado gráfico brasileiro: Régia Moreira Leite. Em um bate-papo profundo e revelador com os apresentadores, Régia compartilhou sua incrível jornada desde o mercado financeiro em São Paulo até se tornar uma das principais lideranças industriais no Polo Industrial de Manaus (PIM), à frente da gráfica Impram (Impram Print). Este artigo resume em detalhes os principais tópicos, desafios e lições de gestão abordados neste episódio imperdível.

De Economista a "Forasteira" no Mercado Gráfico

A história de Régia na indústria gráfica começa de forma inusitada. Formada em Economia e Administração de Empresas em São Paulo, ela iniciou sua carreira no mercado financeiro, chegando a ser superintendente da Bolsa de Mercadorias de São Paulo. Seu primeiro contato com o mundo gráfico ocorreu quando foi convidada para conhecer a impressão de listas telefônicas (Listel) em uma gráfica do Grupo ABC, em Uberlândia (MG).

Após passagens por outras gráficas e cursos de especialização no SENAI, ela ingressou na Nova Página Indústria Gráfica. O grande divisor de águas aconteceu no início dos anos 2000: a empresa foi convidada a montar uma operação em Manaus para atender gigantes como Nokia, Siemens e Gradiente. Coincidentemente, seu marido, que é médico, recebeu uma proposta para atuar em Porto Velho. Régia foi categórica: só aceitaria a mudança se fosse para Manaus. Em fevereiro de 2003, ela chegou à capital amazonense com seis supervisores técnicos para iniciar a operação do zero. Chamada inicialmente de "forasteira" pelos concorrentes locais, Régia não apenas se estabeleceu, mas, após mais de 22 anos, recebeu o título oficial de Cidadã Amazonense.

Os Bastidores e Desafios do Polo Industrial de Manaus (PIM)

Um dos pontos mais esclarecedores do podcast foi a desmistificação dos incentivos fiscais da Zona Franca de Manaus. Muitos empresários de outras regiões acreditam que operar em Manaus é um "paraíso fiscal" sem contrapartidas. Régia detalhou as enormes exigências e os altos custos operacionais embutidos na legislação local:

  • Infraestrutura e Clima: A umidade em Manaus varia de 70% no verão a impressionantes 98% no inverno. Para uma gráfica que trabalha com papel e tintas vegetais à base de óleo de soja, controlar essa umidade é um desafio diário de engenharia de produção. Além disso, a logística é complexa: insumos demoram dias ou semanas para chegar via cabotagem ou frete aéreo.
  • Obrigações Sociais e Trabalhistas pesadas: Nenhuma indústria se instala sem certificações rigorosas (como ISO 9000 e ISO 14000). Mais do que isso, a empresa é obrigada a fornecer transporte fretado (rotas) para todos os colaboradores, independentemente da distância de suas casas.
  • Alimentação Integral: A legislação exige que a empresa forneça cinco refeições diárias: café da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar e ceia (para turnos noturnos).
  • Saúde e Educação: É obrigatório o fornecimento de convênio médico e odontológico, além do repasse de um percentual do faturamento para a manutenção da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

Apesar desses custos, o PIM é um gigante econômico, faturando bilhões de dólares anualmente e gerando cerca de 132 mil empregos diretos e mais de 500 mil indiretos.

Produção de Alta Performance e um Modelo Comercial Único

Hoje, a Impram é focada 100% no mercado de embalagens e atende gigantes multinacionais. O maior exemplo do volume de produção é a BIC: a gráfica de Régia entrega mais de 2 milhões de peças por dia apenas para as três fábricas da BIC (isqueiros, barbeadores e escrita).

Além da BIC, a carteira de clientes inclui pesos-pesados da tecnologia e meios de pagamento, como Samsung, Motorola, Mercado Pago, PagSeguro, Stone, Getnet e Essilor (lentes Transitions/Luxottica). Curiosamente, a Impram possui um modelo comercial atípico: não há vendedores ou representantes comerciais. O atendimento é feito por Analistas de Suporte ao Processo Produtivo, que gerenciam a jornada do cliente desde a entrada do pedido até o momento em que o caminhão descarrega na planta do cliente. Esse nível de controle gera uma fidelidade e lealdade absolutas por parte dos compradores.

Liderança Feminina, ESG e Ações Sociais na Pandemia

Régia é uma pioneira na liderança feminina industrial do Norte do país. Ela foi a primeira diretora mulher no Polo Industrial de Manaus e a primeira conselheira do Centro das Indústrias do Estado do Amazonas (CIEAM). Hoje, comemora o fato de haver outras 12 mulheres nesse conselho.

Sua atuação vai muito além da gráfica. Como coordenadora do comitê de ESG do CIEAM, ela ajudou a criar o selo "ZFM+ ESG", que atesta as boas práticas sustentáveis e sociais das indústrias locais. Sua veia filantrópica foi testada ao limite durante a pandemia de COVID-19:

  • Em parceria com a BIC, a Impram produziu e doou mais de 150.000 face shields para hospitais do Amazonas e de outros estados.
  • Régia contraiu a doença na primeira onda e passou 10 dias na UTI com quase 90% dos pulmões comprometidos.
  • Durante o auge da crise de oxigênio em Manaus, ela coordenou uma ação social integrada entre diversas associações industriais (FIEAM, CIEAM, Eletros, Abraciclo) para importar respiradores e cilindros, além de fornecer toneladas de alimentos para a população vulnerável.
  • Descobriu-se que manter as fábricas abertas com protocolos rigorosos (ônibus com metade da lotação, distanciamento, máscaras e álcool em gel) era mais seguro para os trabalhadores do que as férias coletivas, que aumentavam a contaminação comunitária.

As ações sociais de Régia não pararam na pandemia. Durante as históricas enchentes de 2022 e as secas severas que se seguiram (quando rios inteiros desapareceram, isolando comunidades), ela utilizou barcos do SENAI para levar água potável, cestas básicas e 10.000 kits escolares produzidos pela Impram para as populações ribeirinhas. A gráfica também enviou 45 toneladas de donativos para tragédias no Rio Grande do Sul, Bahia e Petrópolis.

Cultura Organizacional e Qualidade de Vida no Trabalho

Na Impram, a valorização do colaborador é levada a sério. Régia acredita que o treinamento não é um custo, mas um investimento com altíssimo ROI (Retorno sobre Investimento). Ela chegou a trazer o especialista Ubaldo De Nigris de São Paulo para passar 10 dias treinando sua equipe de impressão, abrindo o curso inclusive para funcionários de gráficas concorrentes locais, provando sua mentalidade de colaboração setorial em vez de rivalidade destrutiva.

Uma das iniciativas de RH mais interessantes da empresa é a Sala de Descompressão e Descanso. Embora o uso de celulares seja estritamente proibido no chão de fábrica (para evitar acidentes e perda de foco), a empresa criou um ambiente premium para os intervalos. A sala de descompressão possui TVs, espreguiçadeiras, aparelhos de massagem para pés e cabeça, e uma "ilha" central para carregamento e uso dos smartphones. Há também uma sala com colchões dedicada exclusivamente para a "siesta" (soneca) após o almoço. Além disso, a empresa promove um Comitê de Inclusão, Diversidade e Engajamento, oferecendo palestras mensais sobre temas vitais (como o combate à violência contra a mulher no "Agosto Lilás").

O Movimento "Mulheres de Impressão" e o Futuro do Papel

Como embaixadora e líder do movimento Mulheres de Impressão, Régia fez um apelo apaixonado pela união feminina na indústria gráfica. O setor, tradicionalmente composto por empresas familiares e predominantemente masculino na alta gestão, está vendo uma revolução colaborativa através desse grupo (que conta com lideranças de grandes gráficas como Holográfica, Santa Marta, Gonçalves, Margraf e Nítoli).

O grupo promove a troca técnica e gerencial, compartilhando desde dúvidas sobre fornecedores de verniz e tintas até estratégias de gestão. Régia convidou todos os ouvintes (e patrocinadores) para o grande 2º Fórum Mulheres de Impressão, que ocorrerá em João Pessoa (PB) nos dias 25 e 26 de setembro de 2025.

Por fim, questionada sobre o futuro da mídia impressa, Régia foi enfática: o papel jamais morrerá. Ele se consolidou como uma mídia complementar essencial. Seja pela fadiga das telas digitais ou pela necessidade de materiais físicos e táteis em reuniões, o prazer e a eficácia de segurar um livro, um catálogo ou uma embalagem bem impressa são insubstituíveis.

Este episódio do PrintCast foi muito mais do que uma entrevista sobre o mercado gráfico; foi uma aula de liderança humanizada, estratégia industrial extrema, resiliência diante de crises climáticas e sanitárias, e a prova de que o empreendedorismo brasileiro, quando feito com propósito e colaboração, é capaz de transformar a sociedade ao seu redor.