Podcast Podlalaiá #Ep29 - Emerson Urso e William Fialho

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O 29º episódio do Podcast Podlalaiá Samba Clube, apresentado por Rafael, marcou o início das comemorações do terceiro ano do projeto na internet. E para celebrar essa marca com chave de ouro, a bancada recebeu dois verdadeiros guardiões da música popular brasileira: os compositores e sambistas Emerson Urso e William Fialho. Em um bate-papo de quase duas horas, recheado de muita música ao vivo, histórias de bastidores e reflexões profundas sobre o mercado musical, a dupla compartilhou suas trajetórias, projetos documentais e, acima de tudo, a luta diária para preservar a essência e o respeito dentro das rodas de samba.

Logo na abertura, após os agradecimentos aos parceiros e patrocinadores (como o estúdio Yourcast, o personal trainer Felipe Donato e a Boa Vila Espetaria), Rafael saudou os convidados que chegaram com a elegância típica dos grandes malandros do samba. A dupla abriu os trabalhos cantando o aclamado samba "Sucesso Verdadeiro", obra autoral que teve a honra de ser interpretada e gravada em vida pelo lendário Luiz Grande, um dos mestres do samba sincopado brasileiro.

A Criação da "Cartilha do Samba" e o Fenômeno Viral

Um dos pontos altos do episódio foi a história por trás do estrondoso sucesso da música "Cartilha do Samba". A composição, escrita em parceria por Emerson Urso e William Fialho, nasceu de uma indignação com a falta de educação e de postura nas rodas de samba modernas. Emerson relatou que, por volta de 2014 e 2015, começou a usar o Facebook para dar "dicas" e cobrar respeito de pessoas que chegavam nas rodas exigindo cantar, espancando os instrumentos ou querendo aparecer mais do que a própria música.

Do outro lado, Fialho também vinha fazendo publicações semelhantes. Percebendo a sintonia, Emerson escreveu a primeira parte da letra e enviou para Fialho, que prontamente concluiu a obra. Para registrar a criação, Emerson gravou um vídeo simples em casa, vestindo pijama, tocando cavaco e cantando a música, e postou no Facebook. Para sua surpresa, o vídeo bateu 100 mil visualizações no dia seguinte. O sucesso foi tamanho que a música deu título a um álbum completo lançado em 2017, que incluiu outras sátiras a comportamentos inadequados, como as faixas "Zé Canja" (sobre o cara que pede para cantar uma música e não larga mais o microfone) e "Surdão Aparecido".

Recentemente, a "Cartilha do Samba" voltou a viralizar após Fialho cantar a música em frente à sede do Samba da Vela. O vídeo acumulou centenas de milhares de visualizações e chamou a atenção de gigantes como Xande de Pilares, que ficou maravilhado com a letra, compartilhou o vídeo e fez questão de visitar o Samba da Vela para parabenizar os compositores pessoalmente.

"Quando chegar numa roda de samba, nunca peça para cantar ou tocar, espere ser convidado. O bamba de fato é o que sabe esperar... Educação vem de berço e nela eu exerço o meu domical. Respeito dispensa argumento, o meu instrumento vem de um ancestral." (Trecho de Cartilha do Samba)

Os Bastidores com os Mestres: Monarco, Delcio Carvalho e Dorinho Marques

A trajetória de Emerson Urso é marcada por uma profunda reverência à Velha Guarda. Ele contou a emocionante história de como gravou seu primeiro disco. Sem dinheiro para pagar o estúdio, ele ofereceu ao produtor Hildo todos os seus instrumentos de percussão (surdo, pandeiro, tumbadora) em troca de horas de gravação. O produtor aceitou e o sonho começou a se tornar realidade.

Urso revelou como conseguiu que o mestre Monarco, da Velha Guarda da Portela, gravasse uma de suas canções. Em 2001, Monarco veio a São Paulo para um show, e Emerson aproveitou a oportunidade para lhe mostrar um samba feito em homenagem a Alberto Lonato (pandeirista da Portela). Monarco adorou a obra, foi ao estúdio em São Mateus e gravou, tornando Emerson o primeiro compositor paulista a ter uma música gravada por ele.

As histórias de bastidores continuaram com figuras lendárias. Emerson lembrou do dia em que tomou um chope no Bar Brahma com o genial letrista Delcio Carvalho (parceiro de Dona Ivone Lara). Durante a conversa, Delcio sacou um gravador de bolso, cantarolou uma melodia inédita e desafiou Emerson: "Coloca a letra aí". Outra história fantástica envolveu o saudoso Dorinho Marques (fundador da Barroca Zona Sul). Emerson e Dorinho trabalhavam como vendedores na loja de instrumentos Contemporânea. Certo dia, o dono da loja pegou os dois escondidos no estoque compondo uma música e demitiu Emerson na hora. A demissão, no entanto, foi o empurrão que ele precisava para se dedicar integralmente à música, chegando a produzir o sonhado disco de samba rural de Dorinho Marques anos mais tarde.

A Homenagem ao Império Serrano e a Coragem de Dizer "Não"

A parceria entre Urso e Fialho rendeu também uma belíssima homenagem à escola de samba carioca Império Serrano. Fialho contou que a inspiração veio após assistir a um show do mestre Wilson das Neves, que exibia com imenso orgulho sua paixão pela escola ("Ser Mangueira é fácil, quero ver ser Império Serrano"). Fialho compôs a primeira parte do samba e enviou para o baluarte Aluísio Machado terminar. Porém, Aluísio fez a segunda parte às pressas, repetindo os mesmos conceitos da primeira. Com muita coragem e honestidade, Fialho rejeitou a letra do mestre, o que gerou um atrito momentâneo. Ele então passou a música para Emerson Urso, que criou uma segunda parte brilhante, citando ícones como Beto Sem Braço, Mestre Darcy, Tia Eulália e Silas de Oliveira.

A recompensa por essa ousadia veio anos depois. Fialho teve a honra indescritível de ser convidado para cantar este samba no meio da quadra do Império Serrano, no Rio de Janeiro, acompanhado pela bateria da escola e emocionando todos os integrantes da Velha Guarda presentes.

O Resgate Histórico: O Projeto "QG do Bezerra"

William Fialho compartilhou os detalhes de seu mais ambicioso projeto documental: o QG do Bezerra (Quartel General do Samba). Fã incondicional de Bezerra da Silva, Fialho iniciou há anos uma pesquisa para encontrar os compositores vivos que abasteciam o repertório do sambista com crônicas sobre a malandragem e o morro. Ele viajou para a Baixada Fluminense e se conectou com lendas como Roxinho, Pinga, Valmir da Purificação, entre outros.

Ao perceber que esses geniais compositores estavam esquecidos e desanimados após a morte de Bezerra, Fialho começou a trazê-los para shows em São Paulo, reacendendo a chama artística do grupo. Agora, através de uma "vaquinha online" e parcerias com o Instituto Favela da Paz (que cedeu drones, câmeras e equipamentos de áudio), Fialho está produzindo um documentário musical. O registro audiovisual vai reunir mais de 30 compositores originais de Bezerra da Silva, cantando sucessos e obras inéditas, garantindo que a genialidade do "samba de morro" e do partido-alto de duplo sentido seja preservada para a eternidade.

Porta-Voz do Brasil: O Novo Projeto de Emerson Urso

Emerson Urso aproveitou o espaço para anunciar o lançamento de seu oitavo trabalho de estúdio, intitulado "Porta-Voz do Brasil" (nome de um calango sincopado composto em parceria com Fialho). O projeto será lançado em quatro EPs distintos, homenageando quatro pilares da cultura negra e do samba: Wilson Moreira, Nei Lopes, Moacyr Luz e Dona Ivone Lara.

Urso destacou que o álbum foge do óbvio, explorando a vasta riqueza rítmica do país. Além do samba tradicional, o projeto incorpora valsas, xotes, baiões, calangos e toadas. Ele ressaltou a importância da pesquisa e da leitura (citando os dezenas de livros publicados por Nei Lopes) para poder escrever letras com embasamento histórico e cultural sobre a ancestralidade africana, os orixás e o sincretismo religioso brasileiro.

O Alerta Final: Cultura x Entretenimento

Caminhando para o encerramento, os convidados fizeram uma reflexão crítica e necessária sobre o atual cenário das rodas de samba e das chamadas "comunidades". William Fialho alertou que muitas rodas estão perdendo sua essência cultural para se tornarem meros pontos de entretenimento. Ele criticou grupos que se reúnem apenas para tocar regravações e sucessos das rádios, negando espaço para que novos compositores apresentem obras inéditas.

"O compositor é a matéria-prima do samba. Não tenham medo de cantar o novo, o público está sedento por novidades e mensagens verdadeiras", cravou Fialho. Ele lembrou que projetos como o Samba da Vela e o Quilombo Cultural Ibirasamba (fundado por ele) existem justamente para dar voz ao lado "underground" da cena, educar a juventude da periferia através de oficinas gratuitas e manter a chama da velha guarda acesa.

Em clima de profunda reverência e amizade, Rafael agradeceu a generosidade dos convidados. Como não poderia ser diferente, o episódio foi encerrado com música. Emerson e Fialho cantaram um contagiante samba de roda ("Você mexeu com essa mulher, o amor dela sou eu..."), com direito a referências à Bahia, à capoeira e a Mestre Besouro, provando que o samba, quando tratado com respeito, educação e ancestralidade, é a maior e mais bela escola da vida.