No 27º episódio do aclamado Podcast Podlalaiá Samba Clube, o apresentador Rafael conduziu uma das entrevistas mais ricas e inspiradoras da temporada. O programa, que se tornou um verdadeiro reduto de preservação da memória e da cultura do sambista, recebeu dois gigantes da nova geração de intérpretes do carnaval de São Paulo: Tiago Nascimento (intérprete oficial do Império de Casa Verde) e Thiago Melodia (voz oficial da Primeira da Cidade Líder, Unidos de São Miguel e Fiel Atibaia). Em um bate-papo de mais de uma hora e meia, regado aos tradicionais mimos do programa — a cobiçada caneca do Podlalaiá e o pão caseiro feito por Silvia, esposa de Rafael —, os convidados abriram o coração sobre suas trajetórias, os perrengues das quadras, a transição de ritmistas para cantores e as expectativas para o Carnaval de 2026.
A Vida Além do Microfone: O Lado Profissional Fora da Avenida
Logo no início da conversa, Rafael fez questão de desmistificar a ideia de que o sambista vive apenas do carnaval, destacando as batalhas diárias dos convidados. Tiago Nascimento compartilhou que, além de comandar o carro de som do Império de Casa Verde, ele é educador físico formado e atua como locutor de grandes eventos esportivos, tendo recém-narrado a 95ª edição da tradicional "Volta da Penha".
Do outro lado da mesa, Thiago Melodia explicou que sua rotina se divide entre os palcos, os ensaios de suas três escolas de samba e o empreendedorismo familiar. Ele atua lado a lado com sua esposa, Francine, que é médica veterinária e também administra um brechó online focado em moda circular, o "Brechó SA". Esses relatos humanizaram os ídolos, mostrando ao público a resiliência necessária para manter viva a chama do carnaval enquanto se equilibram outras profissões e responsabilidades.
Tiago Nascimento: Do Tamborim em Barueri à Coroa do Império de Casa Verde
A jornada de Tiago Nascimento no samba começou em Barueri, na Grande São Paulo, acompanhando seus pais nos desfiles de uma escola de bairro. O carnaval da capital paulista parecia um sonho distante, visto apenas pela televisão ou pelas fitas VHS. A virada de chave aconteceu no ano de 2001, quando amigos o levaram para conhecer o Império de Casa Verde, que na época ainda estava no Grupo de Acesso e ensaiava em um local antes da famosa quadra da Avenida Engenheiro Caetano Álvares.
Levando seu tamborim debaixo do braço, o jovem Tiago enfrentou a temida "peneira" com o lendário Mestre Adamastor. Apesar de usar uma baqueta inadequada no teste, Adamastor percebeu seu potencial, deu-lhe uma baqueta nova e três ensaios para provar seu valor. Tiago conseguiu sua senha e desfilou em 2001. Nos anos seguintes, ele migrou para a Gaviões da Fiel, tocando na bateria sob o comando de Zoinho (hoje mestre do Império).
Sua transição para o canto ocorreu por acaso em 2007, em Santana de Parnaíba. A escola local ficou sem cantor e Tiago, que vivia cantarolando na bateria, assumiu o microfone. Quando o enredo da Gaviões da Fiel de 2008 homenageou Santana de Parnaíba, a fama do "menino ritmista que cantava" chegou aos ouvidos da diretoria corintiana. Ele foi convidado para um teste na ala musical da Gaviões. O momento de provação foi imposto pelo mestre Ernesto Teixeira: em uma sexta-feira de quadra lotada, Ernesto ordenou que Tiago cantasse o samba "Roda Divina" totalmente sozinho. Com a perna tremendo, ele passou no teste, integrou a ala musical e iniciou uma escalada que culminou no seu retorno ao Império de Casa Verde em 2013.
O ápice de sua carreira ocorreu em 2023, quando foi oficializado como intérprete principal do Império, substituindo simultaneamente duas lendas do carnaval: Carlos Junior e Tinga. Consciente da pressão esmagadora e da cobrança da comunidade ("o Tigre Guerreiro"), Tiago adotou uma filosofia de atleta: "Treino é jogo e jogo é campeonato. Ensaio é clima de Libertadores". Ele investe intensamente em aulas de canto com fonoaudiólogas (como Simone Barbosa) e preparação psicológica para segurar o peso de um dos pavilhões mais pesados de São Paulo.
Thiago Melodia: Da Paixão pelo Surdo de Terceira à Voz da Cidade Líder
A história de Thiago Melodia é igualmente fascinante e marcada por sacrifícios. Criado na Zona Leste, ele iniciou sua vivência no samba ainda criança (entre 1993 e 1994) nas escolas Primeira do Itaim e Unidos de São Miguel, acompanhando seus tios. Sua grande paixão era o "surdo de terceira", mas por ser muito pequeno, era frequentemente enganado pelos mais velhos com a promessa de ganhar um "chocolatinho de arroz" se tocasse repinique ou caixa.
No final da década de 90, após se mudar para a Zona Norte (Vila Mazzei), um primo o levou para conhecer a Acadêmicos do Tucuruvi. Seu pai, que sonhava em vê-lo como jogador de futebol profissional, percebeu que a verdadeira vocação do filho estava no ritmo. Em uma prova de amor, o pai pagou a quantia de R$ 15,00 (um valor muito alto para a época, em 1998) ao diretor da bateria para que o menino pudesse desfilar. Thiago permaneceu na bateria do Tucuruvi até 2004.
A transição de Thiago Melodia para os microfones envolveu um "castigo" pedagógico. O Mestre Clodoaldo queria prepará-lo para ser diretor de bateria, mas percebeu a imaturidade e a arrogância do jovem. Como lição, enviou-o para ser diretor na bateria da Colorado do Brás (que estava no acesso). Foi na Colorado que Thiago começou a soltar a voz nos ensaios. O intérprete Fred Viana o ouviu e fez um desafio duplo: convidou-o para integrar a ala musical do Tucuruvi e da Imperador do Ipiranga, exigindo que ele cantasse sozinho o dificílimo samba "Vila Lobos", imortalizado por Wander Pires. O teste foi um sucesso.
A Escolha Difícil: Ritmista ou Intérprete? A Lição de Carlos Junior
Um ponto de convergência impressionante nas histórias dos dois Thiagos foi o dilema de abandonar a bateria para abraçar o microfone em definitivo. Ambos relataram que sofreram muito para deixar de tocar, pois a bateria é onde ficam os amigos e a essência do sambista. No entanto, conselhos duros e necessários de mestres do samba os forçaram a "recalcular a rota".
Thiago Melodia revelou uma conversa de bastidor que teve com Carlos Junior. Em meio a uma final de samba, Carlão olhou para ele e disse: "A minha maior tristeza é ver um vídeo seu tocando na bateria. Você tem presença de intérprete, tem dom de levar uma comunidade. Chega uma hora em que você precisa escolher: se quiser ser respeitado, você tem que focar em ser cantor." Esse choque de realidade, somado aos puxões de orelha de Vaguinho e Daniel Collete, fez Thiago Melodia largar as baquetas e assumir de vez a sua vocação vocal, tornando-se o intérprete oficial da Tradição Albertinense (onde chegou a ser diretor de carnaval e até carnavalesco) e, atualmente, a grande voz da Primeira da Cidade Líder.
Maturidade, Empatia e o Mercado do Carnaval
Com o amadurecimento, ambos os convidados refletiram sobre a necessidade de união no meio carnavalesco, um ambiente historicamente marcado pela vaidade excessiva, puxadas de tapete e disputas predatórias de ego. Eles criticaram a postura de cantores que, ao chegarem ao topo, esquecem as próprias raízes e não estendem a mão aos mais novos.
Thiago Melodia compartilhou uma história emocionante de empatia. Ele descobriu que um cantor nutria ódio por ele devido a intrigas e fofocas falsas de bastidor (achando que Thiago havia "roubado" o seu lugar). Em vez de revidar o ódio, Thiago ligou para o rapaz, esclareceu a situação e, surpreendentemente, indicou o ex-rival para assumir o posto de intérprete oficial em uma escola do Grupo de Bairros (cargo que Thiago havia acabado de recusar). O rapaz, incrédulo com o gesto de bondade, ligou chorando de gratidão. "O sol brilha para todos. Ajudar um amigo não apaga a sua luz, pelo contrário, fortalece o nosso movimento", filosofou Melodia.
Carnaval 2026, Representatividade e Encerramento
Caminhando para a reta final do podcast, os intérpretes projetaram o Carnaval de 2026. Tiago Nascimento está radiante com o enredo do Império de Casa Verde, intitulado "Império dos Balangandãs", que exalta a joalheria afro-brasileira e a cultura de matriz africana. Segundo ele, a escola acertou em cheio ao escolher um samba contagiante (composto por nomes como Diogo Nogueira, Arlindinho, André Diniz e Fabiano Sorriso), com refrões curtos e uma malemolência rítmica que já contagiou a quadra. Thiago Melodia também comemorou o enredo da Primeira da Cidade Líder, que fará uma justa homenagem ao revolucionário carnavalesco Paulo Barros, prometendo um espetáculo de criatividade na avenida.
Outro grande destaque do episódio foi o anúncio feito em primeira mão por Thiago Melodia: a terceira edição do seu projeto "Resenha dos Intérpretes" será dedicada exclusivamente a mulheres. Ele destacou a importância de dar protagonismo às vozes femininas que lutam contra o machismo estrutural do carnaval para conquistar espaço nos carros de som, mencionando cantoras talentosíssimas como Nega Lu, Simone Barbosa e Grazzi Brasil.
O episódio foi encerrado em um clima de profunda emoção e gratidão. Após mandarem beijos e abraços para suas esposas, filhos, mães e comunidades, os dois gigantes do microfone deram uma palinha à capela. Tiago Nascimento cantou os refrões avassaladores do Império de Casa Verde ("Respeite as estrelas do meu pavilhão, tá chegando o Tigre guerreiro..."), e Thiago Melodia entoou o canto da Cidade Líder em homenagem a Paulo Barros. O 27º episódio do Podlalaiá cravou, mais uma vez, sua importância como o maior arquivo digital da memória, do suor e do talento dos verdadeiros operários do carnaval paulistano.