O 21º episódio do Podcast Podlalaiá Samba Clube, brilhantemente conduzido pelo apresentador Rafael, entregou aos amantes do carnaval uma das entrevistas mais ricas e divertidas de sua trajetória. O convidado da vez foi o talentoso, multifacetado e carismático Léo do Cavaco, atual intérprete oficial da escola de samba Colorado do Brás. Celebrando a marca histórica de 40 anos de vida e impressionantes 30 anos de vivência no carnaval paulistano, Léo abriu o coração sobre sua infância, seus ídolos, suas frustrações e os bastidores hilários (e tensos) das passarelas do samba.
1. Homenagens, Solidariedade e a Abertura do Programa
O episódio começou em um tom de profundo respeito e saudade. Rafael dedicou o programa à memória de Seu Carlão do Peruche, um dos maiores baluartes e fundadores do carnaval de São Paulo, que faleceu aos 94 anos na semana da gravação. A Unidos do Peruche, escola que carrega o DNA de Seu Carlão, preparava-se para um desfile que, inevitavelmente, seria tomado por lágrimas e reverências ao seu eterno patriarca.
Além disso, o apresentador mandou energias positivas para o compositor Xandinho Nocera, que se recupera de um problema de saúde, e anunciou um projeto social grandioso: o "Podlalaiá Solidário". Em parceria com a ONG Mensageiros da Esperança, sediada na Lapa de Baixo (Vila Anastácio), o podcast passará a fomentar a cultura da doação, arrecadando alimentos não perecíveis e roupas para famílias em situação de vulnerabilidade. Rafael enfatizou que o sambista, por essência, é um agente de transformação social e ajuda mútua.
2. O Início: Dos Tamborins da X-9 às Revistinhas "Ginga Brasil"
Léo do Cavaco relembrou que o carnaval entrou em sua vida de forma muito natural. Seus irmãos mais velhos desfilavam na Gaviões da Fiel (quando a agremiação ainda era um bloco carnavalesco, no final dos anos 80). Seu pai, um amante da música e tocador de violão clássico, sempre manteve o ambiente familiar regado a muito samba. Léo cresceu com o desejo de tocar os instrumentos que os irmãos escondiam em cima do guarda-roupa.
A primeira grande oportunidade surgiu em 1999. Morando na Zona Norte, Léo ficou sabendo que a X-9 Paulistana estava fazendo testes para novos ritmistas. Ele foi aprovado e ingressou na bateria, tocando tamborim, chocalho e agogô. No entanto, o seu destino mudaria drasticamente no ano 2000. Durante um ensaio da ala musical, faltou um cavaquinista. Sabendo que o menino tocava em casa, o pai de Léo intercedeu junto à velha guarda da X-9 para que dessem uma chance ao garoto.
O detalhe fascinante é como Léo sabia tocar todas as músicas: ele era um consumidor assíduo das lendárias revistinhas de cifras "Ginga Brasil". Ele ficava horas em seu quarto tirando de ouvido os sambas-enredo que vinham nas publicações. Ele assumiu o cavaquinho naquele ensaio, quebrou o galho e acabou ficando permanentemente no carro de som.
3. O Apadrinhamento de Royce do Cavaco e a Transição para Intérprete
Estar no carro de som da X-9 Paulistana significava dividir o palco com o seu maior ídolo (e ídolo de toda a sua família): o lendário Royce do Cavaco. Faltando apenas 15 dias para o desfile, Royce chamou o jovem Léo e deu a notícia que mudaria sua vida: ele seria o "Cavaco 1" (cavaquinista principal) no desfile oficial no Sambódromo do Anhembi.
A relação com Royce foi fundamental. Foi o veterano quem começou a colocar um pedestal de microfone na frente de Léo para que ele ajudasse nos vocais de apoio. Em 2003, Léo desfilou tocando e cantando simultaneamente, mas relatou que a experiência foi terrível: o caminhão de som balançava violentamente, fazendo o microfone bater repetidas vezes em seus dentes. Percebendo que não conseguia entregar 100% nas duas funções, ele decidiu, a partir de 2005, focar exclusivamente no canto, abandonando as cordas na avenida. Mais tarde, ele também absorveria enormes aprendizados técnicos com o intérprete Daniel Collete, que lhe ensinou as dinâmicas de divisão de vozes e canto em coral.
4. A Origem Cômica (e Traumática) do Nome "Léo do Cavaco"
Durante a entrevista, Léo revelou uma história hilária sobre o seu nome artístico, que ele odiou por muitos anos. No início dos anos 2000, um compositor chamado Luiz Geraldo o procurou pedindo ajuda para colocar os acordes em um samba concorrente para a escola Camisa Verde e Branco. Ao ouvir a melodia que o homem cantarolava, Léo alertou: "Cara, isso já existe! É a melodia de 'É um pouquinho de Brasil, iaiá'" (famoso samba-exaltação). O compositor ignorou o aviso, dizendo que o povo se identificaria com a melodia conhecida e o samba seria campeão.
Léo gravou a fita cassete apenas para ajudar e não cobrou nada. No dia da apresentação na quadra do Camisa Verde e Branco, Léo se deparou com um banner gigantesco que anunciava os autores da obra: "Luiz Geraldo e Léo do Cavaco". Como era previsível, a diretoria da escola percebeu o plágio escancarado e o samba foi sumariamente eliminado na primeira rodada. Léo virou motivo de piada entre os amigos, sendo tachado como "o cara do samba plagiado", e o apelido "Léo do Cavaco" pegou contra a sua vontade.
5. A Escola da Vida na Tradição Albertinense
Após sair da X-9 Paulistana e passar pela Rosas de Ouro, Léo assumiu seu primeiro posto como intérprete oficial no carnaval de Jundiaí em 2013. Mas foi em 2014, na Tradição Albertinense, que ele teve seu maior intensivão sobre o carnaval. Inicialmente contratado apenas para gravar a obra, o cantor oficial brigou com a diretoria e abandonou a escola. A presidente exigiu que Léo assumisse o microfone principal de última hora.
Na Tradição, ele não foi apenas a voz da escola; devido à falta de recursos de uma agremiação dos grupos de base, ele acumulou as funções de Diretor de Carnaval e, em 2019, até de Carnavalesco. Léo ressaltou que todo profissional do samba deveria passar pelas escolas dos grupos menores. "É lá que você aprende a tirar leite de pedra. Fazer a quadra pulsar com 5 mil pessoas e uma bateria furiosa no Grupo Especial é fácil; o difícil é fazer o carnaval acontecer com cinco ritmistas, um cavaquinho desafinado e nenhum recurso", filosofou o cantor.
6. O Retorno à X-9 e o Maior Perrengue da Carreira
Em 2020, o telefone tocou e Léo foi convidado para retornar à X-9 Paulistana, desta vez como Intérprete Oficial no Grupo de Acesso. Foi um período de enorme provação. A pandemia paralisou o mundo semanas após sua contratação. Quando as atividades retornaram, ele enfrentou enorme desconfiança de alguns setores da escola, que queriam trazer cantores de renome para dividir o microfone. Léo bateu o pé, afirmou que seguraria o projeto sozinho e, mesmo com uma severa pneumonia na festa de lançamento do CD, deu a volta por cima ao realizar um ensaio técnico avassalador, conquistando o respeito da comunidade.
No entanto, o desfile de 2022 lhe reservava um perrengue inacreditável. A direção da escola combinou que ele iniciaria o "esquenta" (canto prévio para animar a bateria) exatamente 15 minutos antes da abertura dos portões. Ele recebeu um sinal, começou a cantar clássicos da X-9 e, em seguida, engatou o samba oficial daquele ano. A bateria estava a mil por hora. Após alguns passos para a frente no carro de som, Léo olhou para a concentração e percebeu o desastre: os portões do Anhembi estavam trancados. A escola anterior (Terceiro Milênio) ainda estava terminando seu desfile lá no final da pista. Alguém da direção havia errado o cálculo e dado o sinal 30 minutos antes da hora. Resultado: Léo cantou o samba oficial a plenos pulmões por 15 minutos com os portões fechados, esgotando a energia da bateria e da ala musical antes mesmo do cronômetro oficial ser disparado. Apesar do desespero interno, ele não parou de cantar, e a escola fez um desfile digno, embora o cansaço tenha cobrado seu preço no final da avenida.
7. O Abraço da Colorado do Brás e o Carnaval 2025
Após sua saída da X-9, Léo foi rapidamente absorvido pela Colorado do Brás, a convite do presidente Ka. Ele descreveu a Colorado como uma escola extremamente acolhedora. "Parece que estou lá há 10 anos", afirmou. Ele elogiou a honestidade da diretoria, que cumpre rigorosamente todos os acordos financeiros e estruturais, algo raro nos dias de hoje.
Para o Carnaval de 2025, a Colorado do Brás terá a imensa responsabilidade de abrir os desfiles do Grupo Especial na sexta-feira. A escola levará para a avenida o enredo sobre o Afoxé Filhos de Gandhy, um dos maiores patrimônios culturais de Salvador e do Brasil. Para coroar o episódio, Léo do Cavaco soltou a sua voz potente e inconfundível, cantando o refrão arrepiante do samba que promete incendiar o Anhembi:
"É toque de ijexá, é reza pro Bonfim... ôô, quero sim! Pra ver o povo arrastar... Sou Colorado e filho de Gandhy, tambor de axé e de Oxalá!"
O episódio chegou ao fim em clima de festa, com a certeza de que a Colorado do Brás está excelentemente servida por um intérprete que conhece os altos, os baixos e a verdadeira essência do chão de uma escola de samba.