Podcast Podlalaiá #Ep18 - Ernesto Teixeira e Dodô do Cavaco

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O 18º episódio do Podcast Podlalaiá Samba Clube, brilhantemente conduzido pelo apresentador Rafael, marca a celebração de um ano de existência do projeto. E para celebrar essa data tão especial, o programa recebeu duas figuras fundamentais da ala musical da Gaviões da Fiel: o mestre do cavaquinho Dodô do Cavaco e a lenda viva do carnaval paulistano, o intérprete oficial Ernesto Teixeira. Em um bate-papo de mais de uma hora e meia, regado a muito samba, emoção e histórias inéditas, a dupla abriu o coração sobre o passado, o presente e o futuro da agremiação corintiana.


Celebração, Solidariedade e a Batalha Pela Vida

Antes de mergulhar no mundo do samba, Rafael utilizou o espaço do podcast para duas ações de solidariedade: pedir doações para a ONG Doutores da Alegria (que corre o risco de encerrar suas atividades após 33 anos) e dedicar o episódio ao compositor Xandinho Nocera, que está internado no Hospital São Camilo se recuperando de um AVC.

A menção ao Hospital São Camilo serviu como um gatilho emocional para Ernesto Teixeira, que compartilhou seu próprio drama vivido durante o auge da pandemia de COVID-19 em 2021. Ernesto ficou 35 dias internado na mesma instituição, sendo 9 dias profundamente intubado na UTI. Ele relatou um momento aterrorizante: logo no início da internação, enquanto passava pelo doloroso exame de gasometria, ouviu na TV do quarto o apresentador Datena noticiar a morte do Senador Major Olímpio, vítima de COVID-19, exatamente naquele mesmo hospital.

"O Major Olímpio era atleta, geração saúde. Eu, cheio de cerveja, diabético e hipertenso, pensei na hora: sou a bola da vez. Pensei que ia morrer ali mesmo," desabafou Ernesto.

Após 9 dias em coma induzido, o vírus causou falência renal, obrigando Ernesto a passar por quatro sessões de hemodiálise. Ele teve alta precisando de cadeira de rodas e cuidador de idosos, mas, como um verdadeiro milagre, se recuperou para continuar conduzindo a nação corintiana na avenida.


Gaviões da Fiel 2025: O Desafio do Inédito Enredo Afro

Pela primeira vez em sua história, a Gaviões da Fiel levará para o Sambódromo do Anhembi um enredo de temática inteiramente afro: "Irin Ajo - A Viagem do Espírito Mensageiro". Ernesto comentou sobre a tendência atual dos carnavais do Rio e de São Paulo de buscarem o resgate da ancestralidade africana, funcionando como uma imensa sala de aula cultural.

Houve, no início, um questionamento natural sobre como a escola — acostumada a temas lúdicos, históricos ou de forte crítica social — se adaptaria à linguagem afro, que carrega um vocabulário yorubá e métricas complexas. No entanto, a agremiação escolheu um samba-enredo arrebatador (com a genialidade musical de figuras como Rafa do Cavaco e Maestro Valdir). Ernesto aconselha os componentes da escola a estudarem o samba com calma, dividindo as palavras em sílabas, pois "depois que o samba afro entra na cabeça e na alma, ele não sai mais". Para ilustrar o momento, Dodô do Cavaco puxou os acordes da nova obra, provando que o samba de 2025 promete arrepiar o Anhembi.


40 Anos de Microfone Oficial e o Amor ao Corinthians

A história de Ernesto Teixeira se confunde com a própria história da Gaviões da Fiel. Ele chegou à torcida organizada no final dos anos 1970, ainda adolescente, acompanhando os jogos nas arquibancadas e nos fundões dos ônibus durante as caravanas para o Rio de Janeiro, onde passava horas cantando os clássicos LPs de samba-enredo. Em 1985, ele assumiu oficialmente o microfone da escola, substituindo o gigante Tobias da Vai-Vai.

Ernesto revelou um detalhe que chocou até o apresentador Rafael: ao longo de seus 40 anos ininterruptos como voz oficial, ele nunca aceitou receber um único centavo de salário da Gaviões da Fiel. Ele estima que, considerando os valores de mercado de grandes intérpretes (que chegam a faturar R$ 250.000 por ano), ele deixou "milhões" nos cofres da escola por puro amor ao Corinthians. Para Ernesto, a identidade da escola é sagrada: o Presidente, o Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira e o Intérprete Oficial da Gaviões devem ser, obrigatoriamente, corintianos de alma e arquibancada.


A Valorização do Profissional do Samba

Aproveitando o espaço, Ernesto fez uma dura e necessária cobrança à Liga das Escolas de Samba de São Paulo em relação à valorização dos intérpretes. Ele revelou que o cachê pago aos cantores oficiais para a gravação da faixa do CD/Plataformas Digitais está congelado na faixa de mil reais há anos.

Ele destacou que o intérprete de escola de samba é um verdadeiro "atleta de alta performance". Conduzir um desfile de 65 minutos exige um esforço físico e vocal brutal, equivalente a cantar uma maratona inteira no ritmo de uma prova de 100 metros rasos. Para suportar essa carga ao longo de décadas, Ernesto estudou na Universidade Livre de Música (ULM), fazendo aulas de canto lírico e popular com a professora Graça Carbonari, provando que por trás da paixão da arquibancada há um estudo técnico gigantesco.


Os Anos 90, o Nariz de Palhaço e "Coisa Boa é Pra Sempre"

O podcast mergulhou fundo na década de ouro da Gaviões. Ernesto relembrou o traumático rebaixamento em 1990, ainda na época da Avenida Tiradentes, e como alguns queriam acabar com o departamento de carnaval. Ele pediu a palavra, montou uma comissão e estabeleceu um plano ousado de cinco anos para conquistar o título do Grupo Especial em 1995 (ano do Jubileu de Prata da entidade).

  • A Virada de 1991: Sem dinheiro, a escola contratou o genial carnavalesco Raul Diniz (uma espécie de Joãosinho Trinta paulista) por um cachê simbólico. Eles fizeram o carnaval reciclando sobras de madeira dos estúdios do SBT, catando tubos de papelão nas ruas do Bom Retiro e decorando os carros com papel de bala. O esforço foi coroado com o título do acesso.
  • O Protesto de 1994: A escola perdeu o título do Grupo Especial por conta de uma polêmica nota 6 em Melodia dada pelo jurado Paulo Soledade. O sentimento de injustiça tomou conta da Fiel Torcida.
  • O Nariz de Palhaço e o Hino de 1995: Para o clipe da TV Globo do carnaval de 1995, Ernesto pintou o rosto e usou um nariz de palhaço em protesto silencioso à nota do ano anterior. A diretoria da emissora exigiu uma regravação alegando "problemas técnicos", mas Ernesto estava saindo de férias. Como resultado, o clipe do palhaço rodou exaustivamente na programação. O samba "Coisa Boa é Pra Sempre" (que fala de "me dê a mão, me abraça, viaja comigo pro céu") explodiu, transcendendo o carnaval e se tornando um hino atemporal da música popular brasileira. A Gaviões foi campeã, selando o projeto de 5 anos com chave de ouro.

A Renovação: Dodô do Cavaco e a Juventude Alvinegra

Representando a nova geração de talentos, Dodô do Cavaco contou que seu início na Gaviões se deu em 2006, através do "Projeto Barracão", uma iniciativa social da escola. Acompanhando o raciocínio, Ernesto enfatizou a importância de a escola formar seus próprios talentos, citando meninos como o pequeno Iago, que com apenas 6 anos já agarra o microfone e as bandeiras da agremiação.

Ernesto manifestou seu desejo de institucionalizar uma "Escolinha de Puxadores de Samba" dentro da quadra, em parceria com órgãos públicos, para que as crianças da comunidade possam vislumbrar um futuro através da arte, mantendo a essência corintiana pulsando nas veias da ala musical.


Política com Positividade e os Desafios Sociais

Para além dos muros do Sambódromo, Ernesto Teixeira é um homem de forte comunicação digital e ativismo social. Ele criou o projeto "Bom dia com Positividade" no Instagram, onde, diariamente, resgata datas comemorativas, dicas sobre a natureza urbana e mensagens otimistas, com o objetivo de combater o ciclo de notícias trágicas e violentas da grande mídia.

Desde 2016, Ernesto milita na política partidária. Ele argumentou de forma brilhante que o papel do político é ser um servidor público capaz de resolver os abismos sociais, como a Cracolândia. Em um relato profundo, ele contou que visitou a Cracolândia durante a pandemia para entregar marmitas e foi imediatamente reconhecido pelos dependentes químicos que o acompanhavam nos anos 90 no Anhembi. Eles pediram para fazer uma roda de samba, provando que a arte tem um poder humanizador gigantesco e que aquelas pessoas necessitam, antes de mais nada, de acolhimento, estrutura psicológica e dignidade.

No campo poético, Ernesto revelou que está catalogando as histórias de sua vida e que compôs, junto com o mestre Faeti, o "Epitáfio Corinthiano": uma canção de despedida que descreve exatamente como um Gavião deseja ser sepultado (com caixão alvinegro, cerveja gelada, roda de samba e a bandeira do Timão).


Encerramento com Chave de Ouro

Após entregar os mimos tradicionais do programa — a cobiçada caneca do Podlalaiá e o afetuoso pão caseiro feito pela esposa do apresentador —, Rafael agradeceu a aula magna de história, resiliência e amor ao samba fornecida pela dupla corintiana.

A pedido do host, o episódio foi concluído em altíssimo astral. Dodô do Cavaco dedilhou as cordas com maestria enquanto Ernesto Teixeira soltou sua voz de trovão entoando o alusivo e o refrão do samba-enredo da Gaviões da Fiel para 2025. Uma despedida épica que reverenciou o passado e deixou a promessa de um grande espetáculo afro no carnaval que se aproxima.