O 16º episódio do Podcast Podlalaiá Samba Clube, apresentado por Rafael, marca a comemoração de um ano do projeto e traz uma entrevista absolutamente histórica para os amantes do samba e do carnaval paulistano. Os convidados da vez são duas verdadeiras lendas vivas: Douglinhas Aguiar, a inconfundível e eterna voz da escola de samba Águia de Ouro, e Pelezinho, renomado músico, compositor, diretor musical e autor de grandes sucessos do pagode dos anos 90.
Em um bate-papo de mais de uma hora e meia, regado a muita música ao vivo com cavaquinho, lembranças emocionantes e histórias hilárias de bastidores, a dupla abriu o coração sobre suas trajetórias, os "perrengues" enfrentados na avenida e as expectativas para o Carnaval de 2025. O episódio também contou com uma homenagem inicial ao sambista Xandinho Nocera, que se recupera de um AVC.
O Canto da Águia: Preparativos para 2025 e Homenagem a Benito di Paula
O programa já começou quebrando protocolos, com Douglinhas e Pelezinho cantando, em primeira mão, o novo alusivo (canto de abertura) que antecederá o samba da Águia de Ouro no Carnaval de 2025. A letra, carregada de emoção, diz: "O meu maior orgulho é amar você, meu pavilhão azul e branco, vem da Pompeia esse ecoar, te amo Águia de Ouro".
Para 2025, a Águia de Ouro trará um enredo em homenagem ao icônico cantor e compositor Benito di Paula. Durante o podcast, eles cantaram trechos do samba-enredo campeão nas eliminatórias, que possui passagens belíssimas como: "Retalhos de cetim dão vida e cor a inspiração... Benito de Paula, assim a vida me fez feliz". Pelezinho, que é o diretor musical da escola, revelou que o samba vencedor se destacou muito durante as audições. A obra tocou tão fundo que, ao ser apresentada, arrancou lágrimas do próprio Benito di Paula e de seu filho, Rodrigo Vellozo, confirmando que a escolha tinha a bênção do homenageado.
As Raízes de Pelezinho: 42 Anos de Música e Sucessos Imortais
Apesar da aparência jovial, Pelezinho revelou ter impressionantes 42 anos de carreira musical. Ele contou que começou sua jornada muito cedo e chegou a tocar com a lendária Clementina de Jesus na década de 1980. Em 1979, ele ajudou a fundar o grupo infantil "Toca do Coelho", que funcionava como um "Menudo" do samba: ao completarem 14 anos, os integrantes tinham que deixar o grupo. Hoje, o "Toca do Coelho" se transformou em uma ONG que ensina música para crianças na Zona Leste de São Paulo.
Pelezinho foi baixista do Katinguelê e trabalhou com o Exaltasamba. Como compositor, ele é o gênio por trás de mega hits que embalaram os anos 90 e 2000. Ele cantou a música "Pequena Princesa", gravada pelo Toque Divinal, que estourou nas rádios de todo o Brasil. Outra revelação fantástica foi sobre sua parceria com Péricles (ex-Exaltasamba). Pelezinho contou que eles compunham sentados na calçada e relembrou canções que fizeram juntos, como "Acordei pensativo, lembrei de você", gravada na época enviando os trechos por secretária eletrônica de orelhões!
A Trajetória de Douglinhas: Da Caixa na Bateria ao Microfone Principal
Douglinhas Aguiar, com 57 anos de idade, é um dos intérpretes mais longevos e respeitados do carnaval brasileiro. Ele relembrou que sua paixão pelo carnaval começou na infância, desfilando nos blocos Cabeções da Vila Prudente e Príncipe Negro. Em 1984, mudou-se para a Vila Madalena e foi atraído pela fama da bateria da Águia de Ouro, na Pompeia. Ele começou desfilando como ritmista, tocando caixa.
A transição para o microfone aconteceu de forma inusitada em 1986. Ele estava no bloco Pérola Negra apenas como compositor, mas no dia do desfile, debaixo de uma chuva torrencial na antiga Avenida Tiradentes, os cantores oficiais não puderam atuar. Douglinhas foi "empurrado" para o microfone sem nenhum preparo e assumiu a responsabilidade.
Em 1989, após vencer um samba na Águia de Ouro, o presidente da Pérola Negra exigiu exclusividade e o colocou contra a parede: ou cantava lá, ou no Águia. Fiel ao seu coração, Douglinhas escolheu a Águia de Ouro, escola onde se tornaria o intérprete oficial e uma das maiores identidades vocais do carnaval de São Paulo.
A Origem do Famoso Grito de Guerra: "A Luz Divina Nos Ilumina"
Qualquer fã de carnaval reconhece o bordão clássico de Douglinhas antes da bateria arrancar: "Que a luz divina nos ilumina!". Ele revelou a origem dessa frase. No início dos anos 2000, ele e o intérprete carioca Serginho do Porto estavam gravando um CD juntos e enfrentando muitas dificuldades financeiras para concluir o projeto. Em um momento de desabafo, Douglinhas disse: "Poxa, bem que a luz divina podia nos ajudar, né?". Achando a frase forte, ele decidiu adotá-la como seu grito de guerra, tornando-se uma marca tão icônica que sua esposa tatuou a frase no braço.
"Perrengues" Inacreditáveis na Avenida
O mundo do samba não é feito apenas de glamour, e os convidados compartilharam "perrengues" absurdos que viveram na carreira:
- O Carro Alegórico de Origami (1991): Douglinhas relembrou um desfile da Águia de Ouro em que um enorme carro alegórico, que representava uma favela, simplesmente colapsou e dobrou ao meio ("fez um origami") bem na frente do carro de som, no final da avenida.
- A Doença às Vésperas do Desfile (2024): No último carnaval, Douglinhas quase ficou de fora do desfile da Águia de Ouro. Na sexta-feira, véspera da apresentação, ele foi acometido por uma forte infecção intestinal e diarreia que o deixou completamente debilitado. Graças a Deus, o desfile era no sábado, dando tempo de ele se recuperar minimamente com soro e remédios.
- O Sapato Trocado: Em um ano de desfile, ao retirar sua fantasia, entregaram-lhe um sapato branco tamanho 38, sendo que ele calça 42. Para não ficar descalço, ele teve que correr até o seu carro no estacionamento e usar um sapato do seu "kit de emergência" pessoal.
- O Assalto no Japão: Pelezinho arrancou risadas de todos ao contar que foi roubado no Japão! Ele teve sua carteira furtada, e o mais cômico foi que seus amigos o filmaram sendo abordado pela polícia japonesa, achando que ele estava sendo preso, enquanto, na verdade, ele estava apenas relatando o roubo.
A Maratona Vocal e o Valor do Intérprete
O podcast também abriu espaço para uma reflexão séria sobre a desvalorização do intérprete de samba-enredo. Douglinhas usou uma metáfora perfeita para descrever a profissão: "Cantar samba-enredo é como correr uma prova de 100 metros rasos, mas com a duração de uma maratona de mais de uma hora". É uma exigência física, respiratória e vocal absurda.
Ele lembrou que, no passado, não havia carro de som moderno ou retorno. Os cantores se guiavam apenas pela marcação do surdo e cantavam a plenos pulmões debaixo de chuva, dividindo um único microfone com fio. Ele ressaltou a importância de os intérpretes estudarem e preservarem a voz, valorizando a profissão que carrega a alma e a nota da escola na avenida.
Conclusão e Homenagens Finais
O episódio foi encerrado em um clima de profunda gratidão. Rafael destacou a humildade de Douglinhas, que sempre tratou todos com carinho, desde os grandes presidentes até as tias da limpeza. Como prova de seu prestígio, foi mencionado que o também intérprete Gui Cruz desfilou recentemente usando uma camiseta com o rosto de Douglinhas estampado, em sinal de reverência.
Com um pão caseiro e mimos entregues pelo podcast, a dupla de bambas agradeceu a oportunidade de contar suas histórias para as novas gerações. Pelezinho finalizou o programa tocando e cantando mais um de seus sucessos românticos, fechando com chave de ouro uma verdadeira aula magna sobre a história, a resistência e o amor incondicional ao samba paulistano.