O Poder da Embalagem: Como o Design Vende seu Produto com Maurício Camim Filho

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Introdução: A Evolução da Embalagem e o Papel do Designer

Neste episódio do Inspirar Negócios 2026, produzido pela Matriz Group (maior importadora e distribuidora de frascos, válvulas e tampas para perfumaria, cosméticos, PET e setor automotivo da América Latina), os apresentadores Denilson Claro e Joelma Freitas recebem Maurício Camargo Filho, designer de produto, especialista em embalagens, consultor, professor e criador do canal Pack Talk (referência no mundo das embalagens). Com passagens por Sharp, Natura (onde trabalhou por mais de 10 anos, desenvolvendo projetos como as linhas Mamãe e Bebê e Cronos) e Boticário, Maurício compartilha sua visão sobre a evolução tecnológica, os erros clássicos de desenvolvimento, a importância da compatibilidade, sustentabilidade, e os desafios de pequenos empreendedores e influenciadores que querem lançar suas próprias marcas. Este resumo consolida as principais lições sobre embalagem como investimento estratégico.

Da prancheta ao CAD: a evolução tecnológica no desenvolvimento de embalagens

Maurício começou sua carreira no mundo do papelão, desenvolvendo embalagens técnicas para componentes eletrônicos da Sharp (com requisitos de proteção contra eletricidade estática). Sua formação em design de produto (design estrutural) o levou à Natura, onde ele chama de “minha escola”. Lá, desenhava na prancheta, usando compasso e calculando bissetrizes – habilidades que hoje foram substituídas por softwares CAD (desenho auxiliado por computador).

Ele conta que, em meados de 1997, já dentro da Natura, começou a estudar prototipagem rápida com sinterização seletiva a laser (SLS), buscando trazer um equipamento para prototipar internamente. Isso mostra que a Natura estava 15 a 20 anos à frente de outras empresas na adoção de tecnologias de prototipagem. Hoje, com a impressão 3D popularizada, Maurício vê a Inteligência Artificial como a próxima grande ferramenta – quem não está enxergando a IA corre sério risco. A tecnologia, segundo ele, deve ser usada para acelerar processos, mas o conhecimento técnico profundo continua sendo insubstituível.

Embalagem não é custo: é investimento e primeiro contato com o consumidor

Maurício é enfático: para pequenos empreendedores, a embalagem pode ser o primeiro e único meio de comunicação com o consumidor. Por isso, desde o início, o empreendedor deve pensar grande e não medir esforços no desenvolvimento da embalagem. Contratar um designer (mesmo que freelancer) é essencial. “Não vá pensar que ele vai custar caro. Caro vai ser se você não vender.”

Uma embalagem eficaz vai além da beleza: precisa ser contextualizada com o produto, atender a todos os públicos (incluindo idosos, deficientes visuais e pessoas com dificuldades motoras), ter boa ergonomia, e ser facilmente identificável na prateleira. A primeira impressão é a que fica – errar no primeiro produto compromete a credibilidade de toda a linha futura. Portanto, investir em um projeto bem feito desde o início é o caminho mais inteligente.

Erros clássicos no desenvolvimento: quando a embalagem não casa com o produto ou com o usuário

Maurício lista diversos erros recorrentes que observa no mercado, inclusive em grandes marcas:

  • Conceito da embalagem não casa com a performance de uso: exemplo de uma latinha de bala (não cosmética, mas ilustrativa) com estampagem e litografia de primeira qualidade, mas que é impossível de abrir dentro de um carro. O consumidor não consegue acessar o produto, então não compra novamente.
  • Confusão visual entre produtos similares: shampoo com tampa para cima e condicionador com tampa para baixo já é uma linguagem visual consolidada. Quando uma empresa coloca ambos com a tampa para cima, o consumidor pode comprar dois shampoos sem perceber – perda de venda certa.
  • Desconsiderar acessibilidade: cegos também compram. Por exemplo, colocar código Braille no cartucho e depois celofanar a embalagem – o celofane impede a leitura tátil. O código deveria estar no frasco ou em local acessível após a abertura. Idosos e pessoas com pouca força também precisam de tampas mais fáceis de abrir e letras maiores.
  • Problemas de abertura: Joelma relata ter deixado de comprar um perfume porque não conseguiu remover um clipe de segurança da embalagem. Pequenos detalhes de usabilidade matam a venda.
  • Erro na orientação de uso: frascos de shampoo que exigem que o produto seja virado de cabeça para baixo para sair, quando o design sugere o contrário.

Maurício ressalta que muitos desses erros surgem quando o profissional de embalagem não é protagonista do projeto. O designer deve ser o condutor do desenvolvimento e participar de todas as etapas, desde o briefing até os testes de compatibilidade e aprovação em linha de produção.

Compatibilidade: o teste que ninguém pode pular

Maurício dedica boa parte da entrevista a um dos temas mais negligenciados por pequenos empreendedores: os testes de compatibilidade entre o produto (fórmula) e a embalagem. Ele detalha o processo padrão da indústria (que dura cerca de 90 dias):

  • Colocar amostras do produto em diferentes condições: geladeira, estufa (temperatura elevada), ambiente, luz (inclusive luz halógena simulando loja), e exposição ao sol.
  • A cada 15 dias, avaliar as propriedades organolépticas: cor, odor, textura, e funcionamento da embalagem (torque, vedação, bombeamento).
  • Fazer testes de transporte (mesa vibratória simulando estradas brasileiras) para verificar se as tampas abrem sozinhas devido a interferências mínimas nas roscas.

Maurício conta um caso real: uma marca famosa queria um frasco de vidro transparente para um sabonete líquido perolizado (branco). Durante a compatibilidade, o produto ficou amarelado (feio), embora a qualidade não fosse afetada. A solução foi pintar o frasco de branco para esconder a alteração – mas o projeto já estava em andamento, gerando retrabalho e custo. Outro exemplo: uma tampa metalizada que descascou completamente por incompatibilidade com o produto (álcool + essência).

Maurício também alerta para o headspace (espaço vazio no frasco). O cliente, ao encher até a boca (sem respeitar os 10% mínimos de câmara vazia), causa explosões no transporte, especialmente para o Nordeste, onde a variação de pressão e temperatura é maior. Joelma confirma que a Matriz já viu vários casos assim.

A mensagem é clara: não fazer testes de compatibilidade é um risco altíssimo. A surpresa vem “a galope” e pode exigir recall, recolhimento de produto e perda total do investimento.

Influenciadores e novas marcas: quando a demanda supera a técnica

Maurício comenta o fenômeno dos influenciadores que lançam suas próprias marcas (em vez de apenas divulgar as de terceiros). Ele vê isso como positivo, mas alerta para a desconexão entre a estratégia de marketing e a realidade do desenvolvimento de produto. Influenciadores podem vender muito em poucos dias, mas se a cadeia de suprimentos (embalagens, matérias-primas, terceiristas) não estiver preparada, o desabastecimento e a má qualidade podem destruir a marca rapidamente.

Exemplo dado: uma influenciadora brasileira vendeu tanto que não conseguiu atender aos pedidos porque a demanda foi maior que a capacidade de produção. Outro caso: uma jovem herdeira (filha de dono de shopping) desenvolveu uma linha de cosméticos com investimento pesado, mas desconhecia completamente os testes de compatibilidade. As tampas metalizadas descascaram, e o negócio faliu. Maurício enfatiza que o briefing deve vir completo – não basta escolher frascos bonitos; é preciso saber a formulação, o público-alvo, o canal de venda e, principalmente, testar antes de lançar.

A relação entre fornecedor e profissional de embalagem: uma lacuna perigosa

Maurício identifica uma lacuna grave no mercado atual: o profissional de embalagem está se tornando um mero administrador de projetos, enquanto o fornecedor (fábrica de frascos, tampas, gráficas) acaba fazendo o papel de desenvolvimento técnico. Isso é ruim para ambos:

  • Para o fornecedor: ele perde a oportunidade de discutir tecnicamente com um profissional igualmente capacitado. O fornecedor quer fazer a coisa certa, mas se o profissional não entende de tecnologias de impressão (offset vs. silk screen vs. flexografia), materiais (plástico vs. vidro) ou tolerâncias de produção, o projeto pode ser mal direcionado. Maurício relata casos em que o profissional pergunta por que não fazer uma impressão offset equivalente a silk screen – são tecnologias completamente diferentes, com resultados distintos.
  • Para o profissional: ele deixa de crescer tecnicamente e perde o protagonismo, tornando-se apenas um re-passador de informações.

Para preencher essa lacuna, Maurício criou um curso intensivo EAD sobre desenvolvimento de frascos de vidro para perfumaria (que será lançado em maio). O curso é voltado para profissionais que já atuam na área (reciclagem), designers que precisam entender os processos produtivos (para não desenharem algo inviável), e até gestores e empresários que, mesmo sem desenvolver tecnicamente, precisam tomar decisões embasadas e saber questionar seus times.

Sustentabilidade: sem demonização de materiais e com consciência de custo

Maurício defende uma visão equilibrada sobre sustentabilidade. Não existe o melhor material; existe o material adequado para cada função e aplicação. O plástico é vilão para alguns, mas sem plástico não seria possível ter bolsas de sangue (PVC), vacinas em frascos de vidro, ou canudos que funcionam corretamente (o canudo de papel colapsa e molha). Cada material tem sua função, e a demonização leva a substituições ineficientes.

Sobre o refil (tendência em perfumaria): Maurício também tem ressalvas. Ele trabalhou com refis na Natura na linha Cronos (em 1995), mas o refil era de polietileno de baixa densidade, com parede fina, e exalava o aroma – ou seja, não era para ficar muito tempo estocado. No caso de perfumes, o refil exige válvula de rosca (permitindo adulteração) e o material do refil geralmente é plástico (menos reciclável que o vidro original). A troca de uma embalagem de vidro (reutilizável/reciclável) por várias embalagens plásticas de refil pode ser menos sustentável. Além disso, há risco de oxidação do produto original e vida útil da pump.

Maurício também critica o greenwashing (falsas promessas ecológicas) e aponta uma contradição econômica: muitas vezes o material reciclado é mais caro que o virgem, e o sistema tributário não incentiva a reciclagem (cobrando impostos novamente sobre o material reciclado). A solução viria de campanhas educativas massivas (escolas, televisão) e de uma política tributária que torne a reciclagem viável financeiramente. Ele conclui: sustentabilidade é benéfica, mas precisa ser feita com seriedade, sem atropelos técnicos ou econômicos.

Cases de incompatibilidade e sucesso da Matriz

Joelma compartilha dois cases práticos onde a Matriz (com seu time técnico e o engenheiro químico Arnaldo) resolveu problemas complexos:

  • Mola de pump oxidando: um cliente grande mudou a formulação no meio do projeto (após testes aprovados). A nova fórmula oxidava a mola. A Matriz desenvolveu uma versão com aço inox 316, resistente àquela composição química específica.
  • Esfera de rolon (aplicação labial e bucal): as esferas de alumínio tradicionais enferrujavam em contato com óleos essenciais ou produtos para a boca (risco de ingestão de ferrugem). A Matriz passou a usar um material inoxidável adequado para essa aplicação.

Esses cases ilustram a importância de um fornecedor que tenha conhecimento técnico e laboratório de qualidade, capaz de orientar o cliente e, quando necessário, adaptar o componente para garantir a compatibilidade.

Conselhos finais para o empreendedor que quer começar

Maurício deixa uma série de recomendações práticas para pequenos empreendedores:

  • Escolha bem o produto: não seja mais um no mercado. Tenha um apelo real e diferenciado.
  • Desenvolva uma embalagem contextualizada, que converse com o produto e atenda a todos os públicos (inclusividade, ergonomia, legibilidade).
  • Contrate um designer profissional (mesmo que freelancer). Não peça opinião apenas da esposa ou filha – faça pesquisa com o público-alvo.
  • Faça todos os testes de compatibilidade e transporte – não pule etapas. O custo do teste é ínfimo perto do prejuízo de um recall.
  • Aprenda a calcular o preço de venda corretamente, incluindo impostos, frete, mão de obra, embalagem e margem. Muitos empreendedores pensam que estão lucrando, mas na verdade estão tendo prejuízo por não considerar todos os custos.
  • Não se iluda com o primeiro sucesso: planeje a cadeia de suprimentos e a capacidade de atendimento. Vender muito e não entregar é pior do que vender menos.
  • Invista em conhecimento técnico, seja fazendo cursos específicos (como o do Maurício), seja acompanhando canais como o Pack Talk e o Inspirar Negócios.

Maurício encerra afirmando que o empreendedor não deve ter medo de contratar um profissional de embalagem. O custo do projeto se paga com o sucesso das vendas. E lembra que o primeiro produto bem-sucedido abre caminho para toda uma linha – variantes e flanqueadores que herdam a credibilidade do projeto vencedor.

Concurso de frases e o futuro do setor

Maurício menciona o Prêmio Lincoln Seragini (troféu de aço inox cromado), um concurso de frases sobre embalagens que já teve três edições (com centenas de participantes, muitos de fora do setor, evidenciando o fascínio que as embalagens exercem nas pessoas). O prêmio foi criado em homenagem a Lincoln Seragini, um dos pioneiros do profissionalismo em embalagens no Brasil, que ainda ativo aos 78 anos. A quarta edição deve ocorrer em breve, e o troféu será entregue em um evento chamado Embalamunde (meeting para elevar a qualidade do profissional de embalagem). Maurício lamenta que o parque industrial brasileiro esteja defasado (cerca de 15 anos), com equipamentos obsoletos e dificuldades de importação de tecnologia a custos acessíveis, e torce para que essa realidade mude.

Mensagem final

A entrevista reforça que a embalagem é um elemento estratégico, não um custo a ser minimizado. Para o empreendedor de perfumaria e cosméticos, acertar na embalagem (design, compatibilidade, usabilidade, sustentabilidade) é tão importante quanto acertar na formulação. O conhecimento técnico, a consultoria especializada e os testes rigorosos são os diferenciais que separam marcas que perduram daquelas que desaparecem após o primeiro lote. O Inspirar Negócios, assim como o Pack Talk, tem o propósito de fornecer esse conhecimento para que o empreendedor brasileiro não “bata a cara nas portas logo de cara”.