Não Migre Dados, Migre Inteligência!

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Introdução: O Conceito de Migrar Inteligência

Em um bate-papo especial para celebrar a centésima edição da Asug News, o diretor de marketing e relacionamento da Asug, Domingos Bruno, recebe os parceiros da First Decision, Francis e Korff, para discutir um tema provocativo e essencial: 'Não migre dados, migre inteligência'. A conversa explora como as empresas podem transformar a migração de sistemas SAP em uma oportunidade estratégica para limpar a casa, reduzir custos e preparar o terreno para inovações como a Inteligência Artificial, em vez de simplesmente transferir problemas do passado para o futuro.

O Que Significa Migrar Inteligência?

O conceito central abordado pela First Decision é que a migração de dados não deve ser um ato mecânico de mover registros de um sistema antigo para um novo. Em vez disso, as empresas devem focar no contexto e no significado que esses dados geram para o negócio. A analogia usada é a da matéria-prima: se os dados são a matéria-prima da tecnologia, migrar inteligência significa levar apenas o que foi lapidado e que tem valor estratégico, deixando para trás as 'pedras brutas' que não agregam mais nada à organização.

Os Riscos de Migrar Dados sem Critério

Com mais de 20 anos de experiência em projetos SAP, a First Decision observa um erro recorrente: as empresas chegam ao final da migração e percebem que levaram tudo o que existia do sistema antigo para o novo. Isso significa que não apenas os dados bons e funcionais foram transferidos, mas também dados ruins, redundantes, sujos e customizações sem sentido. Esse movimento equivocado carrega para a nova plataforma os mesmos problemas do passado, criando uma 'mochila cheia de pedras' que atrasa a empresa e gera custos ocultos.

Os Perigos dos Custos Ocultos e da Complexidade

Um dos principais riscos de não fazer uma triagem adequada é o custo oculto. Embora as empresas fechem um orçamento para a migração, elas não consideram que o custo de armazenamento e processamento de dados em nuvem (ou em memória) continuará crescendo. Sem uma estratégia de limpeza, o volume de dados aumenta exponencialmente, e o que era um custo planejado se torna uma despesa recorrente e crescente.

Além disso, a complexidade herdada é outro grande problema. As empresas carregam customizações, dados históricos sem contexto e informações que não refletem mais a realidade do negócio. Por exemplo, dados de 20 anos atrás, quando o dólar estava a R$ 2,00, não têm o mesmo significado para uma empresa que hoje opera com o dólar a mais de R$ 5,00. Levar essas informações sem o devido tratamento é trazer um peso desnecessário para o novo ambiente.

Critérios Práticos para uma Migração Inteligente

Para evitar esses riscos, a First Decision sugere que as empresas adotem critérios claros para separar o que deve ser levado para o novo sistema. Esses critérios variam conforme o segmento e o tipo de negócio (especialmente os regulados), mas alguns princípios são universais:

  • Mandatório x Opcional: Identificar o que é obrigatório levar para a nova plataforma e o que pode ser mantido em uma base legada.
  • Análise de ROI: Avaliar o retorno sobre o investimento de cada dado ou customização, entendendo qual é o custo de propriedade de levar aquela informação para a nuvem.
  • Performance do Negócio: Considerar não apenas a performance técnica, mas a performance de perspectiva, preparando a empresa para o uso de IA e automações, que exigem dados com contexto e qualidade.

A Importância do Archiving e do Contexto

A First Decision compartilha um exemplo prático de uma empresa de grande porte com mais de 15 anos de SAP. A empresa inicialmente queria uma migração técnica simples ('Brownfield'), mas ao mostrar que o custo orçado continuaria crescendo, ela optou por uma migração limpa. A estratégia envolveu a aplicação de um processo de archiving inteligente (com parceiros como OpenText), que deu contexto aos dados estruturados e não estruturados, permitindo que a empresa levasse apenas o necessário para o S/4HANA e economizasse em infraestrutura, ao mesmo tempo em que preparava os dados para modelos de IA.

O Advento da Nuvem e a Oportunidade de Limpeza

A migração para a nuvem é um fator que torna a limpeza de dados ainda mais crítica. Diferente do modelo on-premise, onde os custos de hardware são conhecidos e estáticos, o ambiente em nuvem é volátil e o custo de propriedade pode crescer rapidamente com o volume de dados. Portanto, cada migração de versão do SAP deve ser encarada como uma oportunidade de limpar a casa e não como uma simples transferência de peso.

A Mudança Cultural: Dados como Ativo Estratégico

A discussão vai além da técnica e entra no campo da cultura organizacional. Muitas empresas se autodenominam 'data driven', mas na prática, apenas armazenam dados por armazenar. A verdadeira transformação ocorre quando a empresa entende que o dado é um insumo para a tomada de decisão, e não um fim em si mesmo. O valor está em como usar esse dado para gerar informações e decisões, e não apenas no volume de dados acumulados.

A Evolução da Cultura de Dados

Historicamente, as empresas passaram por diferentes fases de gestão de dados, desde os Data Warehouses (com indicadores pré-definidos) até os Data Lakes (dados brutos para o usuário explorar). A nova onda é o conceito de Lake House, que busca um equilíbrio híbrido, entregando indicadores já conhecidos pelo negócio, mas também permitindo a exploração de novos padrões.

Estudos mostram que apenas 2% das empresas conseguiram extrair benefício real de modelos de IA. O motivo, segundo a First Decision, é que esses modelos não conhecem os dados internos da empresa, pois foram treinados com dados públicos. A chave para extrair valor da IA está em dar contexto aos dados internos, criando metadados e uma base de governança que permita que a IA entenda o negócio da empresa. O dado, sem contexto, é apenas informação bruta; com contexto, ele se transforma em inteligência.

A 'Mochila de Pedras' e a Necessidade de Lapidação

A analogia da 'mochila cheia de pedras' é usada para ilustrar o peso desnecessário que as empresas carregam. Em vez de levar pedras brutas que precisarão ser lapidadas no novo sistema, as empresas devem lapidar antes, deixando as pedras sem valor para trás e levando apenas os diamantes – os dados prontos para gerar valor. Isso envolve questionar a utilidade de cada dado, customização e processo, descarregando o peso e levando o conhecimento e a inteligência gerada ao longo dos anos.

O Fator Humano e a Migração Contínua

A conversa também destaca a importância do fator humano na migração. Não se trata mais apenas de ensinar o usuário a operar uma tela nova, mas de prepará-lo para uma empresa autônoma, onde o processo de negócio é autônomo e a função do ser humano é supervisionar e melhorar esse processo. As empresas que ignoram essa mudança cultural e o preparo das pessoas, mesmo com dados e ferramentas excelentes, não conseguirão extrair o máximo valor da transformação.

A Migração Contínua como Estratégia para o Futuro

Um dos conceitos mais inovadores apresentados é a migração contínua. Em vez de um projeto único com uma grande janela de parada ('cutover'), a abordagem da First Decision permite migrar dados ao longo do tempo, em tranches menores. Isso reduz a dor para o negócio, pois a janela de parada final é mínima. A metodologia, que a empresa chama de SAP Data Migration Nonstop, permite sincronizar os sistemas e migrar apenas o delta final no Go-Live, evitando paradas prolongadas de dias ou semanas.

Considerações Finais: O Caminho para o Futuro

Para encerrar, os especialistas deixam mensagens importantes:

  • Não menospreze a preparação de dados: É um tema ofensor para o sucesso de qualquer projeto de migração ou upgrade. Muitas empresas só procuram ajuda quando o problema já está acontecendo.
  • Tecnologia e Negócio devem caminhar juntos: A colaboração entre TI e as áreas de negócio é mais crucial do que nunca. A tecnologia está mais próxima do usuário de negócio do que há um ano, com ferramentas de IA permitindo desenvolver sistemas com um simples prompt. No entanto, isso exige uma nova habilidade: saber validar se o que foi gerado é seguro, escalável e atende aos requisitos técnicos e de governança.
  • A tecnologia não vai matar o humano: O futuro é de cooperação e colaboração. A humildade intelectual para dizer 'não sei tudo' e a capacidade de sentar ao lado do outro para encontrar o resultado são os verdadeiros diferenciais. A frase final resume a filosofia: 'Se apaixone pelo problema, não pela solução', pois a solução mudará amanhã.

Agradecendo à First Decision pela parceria e pela participação na centésima edição, a Asug reforça o convite para que a comunidade continue a explorar esses temas no próximo encontro na conferência.