Fala pessoal, sejam muito bem-vindos a mais um episódio do Videoocast do Itacer. Aqui é Gabriel Tavares e hoje nós vamos elevar o nível da nossa conversa. Nós já falamos sobre produtividade, sustentabilidade e tecnologia na produção, mas hoje nós vamos abordar a aplicação mais nobre e exigente da cerâmica na construção civil, a alvenaria estrutural. O nosso tema é o bloco cerâmico como elemento estrutural.
Lá no engenharia civil, eu recebo muitas dúvidas de engenheiros, calculistas, projetistas e construtores sobre como o bloco cerâmico de furo vertical pode ser uma solução de altíssima performance. A verdade é que ele é capaz de substituir o concreto armado e o aço com extrema segurança, trazendo ganhos expressivos de produtividade e uma redução de custos que faz brilhar os olhos de qualquer decisor.
Para desmistificar isso e provar que a alvenaria estrutural cerâmica é o presente e o futuro, recebemos dois gigantes da engenharia nacional. O Guilherme Parciquian é formado em engenharia civil pela UFISCAR, com mestrado e doutorado pela USP e pós-doutorado pela Universidade de Calgary. Ele tem uma bagagem incrível projetando edificações em concreto armado e alvenaria estrutural. Atualmente é professor titular da UFISCAR, onde coordena pesquisas e consultorias na área, além de autor de livros e palestrante internacional. Ele é o coordenador do comitê de norma da ABNT em alvenaria estrutural. O Luís Sérgio Franco é engenheiro civil, mestre e doutor em engenharia civil pela Escola Politécnica da USP, onde atuou como professor e pesquisador desde 1986 na área de tecnologia da construção de edifícios, racionalização de alvenaria estrutural e de vedação. Atualmente, professor aposentado, ele é sócio diretor da ARCO assessoria em racionalização construtiva.
Transição Conceitual: Do Bloco de Vedação ao Elemento Estrutural
Para muitos profissionais, o bloco cerâmico ainda é visto primariamente como um elemento de vedação apenas. Guilherme explica que, historicamente, a cerâmica como tijolo é muito antiga, com milhares de anos, e começou a ser produzida com técnica mais artesanal, sem queima e sem grande tecnologia. No entanto, os blocos estruturais modernos possuem tecnologia bastante avançada, com força, forma racionalizada, geometria racionalizada e queima bastante elevada.
O bloco atual tem qualidade muitas vezes superior àquele bloco antigo do ponto de vista de resistência e precisão dimensional. Consegue-se utilizá-lo como estrutura porque se faz a estrutura com o elemento parede. Este bloco tem resistência grande, e como não há grandes vãos - apenas pequenas aberturas de janelas e portas - a parede encaminha a carga para a fundação por ter resistência elevada. De forma simplificada, é como se cada bloco fosse um minipilar, onde cada bloco em conjunto com argamassa e graute organizado de forma racionalizada consegue fazer a função do pilar. Não existe o pilar, existe a alvenaria.
Geometria e Design dos Blocos: A Distribuição das Tensões
Luís Sérgio Franco detalha que a geometria do bloco é fundamental para o seu desempenho. As câmaras internas e a disposição dos furos verticais são projetadas para distribuir as tensões de forma equilibrada, suportando não apenas as cargas verticais (como o peso das lajes), mas também os esforços laterais, como as ações do vento.
A geometria do bloco vem sendo desenvolvida ao longo de décadas junto com o processo de fabricação, pois não é simples mexer no design de um bloco, já que depende tanto da viabilidade de fabricação quanto do resultado final. O bloco com furo vertical (chamado de bloco vazado) permite uma racionalização muito grande, pois está dentro de um sistema modular perfeito, possibilitando fazer uma obra sem cortar nenhum componente, praticamente uma montagem.
Os vazados resultantes dessas células contribuem com isolamento térmico e outras propriedades da alvenaria, além de permitir que eventualmente se utilize reforços com barras de aço nos pontos em que o projeto indicar necessidade. Hoje existe não só o bloco, mas uma família de componentes que ajusta a modulação e facilita a execução desses reforços, como blocos canaletas, bloco J, entre outros componentes que trazem racionalização ao processo construtivo.
Resistência à Compressão: Comparação com o Bloco de Concreto
Guilherme esclarece que a indústria brasileira possui mais de um tipo de bloco cerâmico por norma. O bloco cerâmico de parede vazada é mais perfurado e leve, desenvolvido no Brasil para permitir construção de edifícios não muito altos, com componente leve. Esta geometria funciona muito bem para edifícios baixos e médios, de peso menor.
Já o bloco cerâmico de parede maciça possui geometria que lembra o bloco de concreto, pois sua parede é maciça. Este tipo consegue capacidades e resistências bastante elevadas. Enquanto o bloco cerâmico de parede vazada é comparável a um bloco de concreto de menor resistência e funciona bem para edifícios baixos (sendo até mais leve), o bloco de parede maciça é comparável a um bloco de concreto de maior resistência de 20 MPA, viabilizando prédios de até 15 ou 18 pavimentos, já vistos em algumas regiões.
Durabilidade e Longevidade da Alvenaria Cerâmica
Luís Sérgio destaca que o sistema de alvenaria estrutural, independente do material, é um sistema de grande durabilidade. Os materiais empregados são muito estáveis quimicamente, tornando muito difícil haver ataque de elementos externos que degradem esses materiais.
Especificamente sobre a cerâmica, Luís cita exemplos práticos: em países europeus como a Inglaterra, é comum ver prédios com 400 ou 600 anos sendo ocupados normalmente (com retrofit de sistemas prediais, mas em perfeito funcionamento), muitos deles sem revestimento. No Brasil, existem menos exemplos, mas há construções em São Paulo com cerca de uma centena de anos que, após retrofit, atingem níveis de excelência, mostrando a perenidade e durabilidade que a alvenaria cerâmica possui.
Leveza e Impacto nas Fundações e Custos
Uma característica marcante do bloco cerâmico é sua leveza, podendo ser até 40% mais leve que o bloco de concreto de dimensões equivalentes. Guilherme explica o impacto direto dessa redução de peso próprio no dimensionamento e custo das fundações.
O bloco cerâmico de parede vazada, por ser bem mais leve, permite uma redução em torno de 5% no peso do edifício, gerando impacto positivo na fundação e num custo menor. Para o bloco cerâmico de parede maciça, o peso é um pouco menor, mas o custo também está bastante ligado à proximidade da fábrica de bloco cerâmico em relação ao local da construção.
Economia de Até 30%: Onde os Custos São Reduzidos
Estudos de mercado apontam que a adoção da alvenaria estrutural cerâmica pode gerar uma economia de até 30% em relação aos métodos convencionais. Luís Sérgio explica que essa economia não se restringe apenas à estrutura, mas se espalha por vários outros subsistemas que compõem a edificação.
A alvenaria estrutural vem ano a ano tomando participação maior no mercado, justificada pela grande racionalização que se consegue implantar. Neste sistema, tudo é pensado antes em um projeto bem planejado, não existindo improvisos ou retrabalhos em obra. O grande diferencial é que, ao contrário de outros sistemas construtivos onde apenas a estrutura é racional mas ninguém mora na estrutura, na alvenaria estrutural o sistema todo precisa ser racionalizado: instalações prediais, revestimentos, esquadrias, lajes, escadas entram todos neste jogo de racionalização. Por isso a redução pode ser tão significativa.
Produtividade e Modulação Rigorosa no Canteiro de Obras
A modulação rigorosa em projeto e o uso de famílias completas de blocos (como blocos L, M, fracionados, canaletas J, U) otimizam a produtividade da mão de obra e reduzem as etapas construtivas. Guilherme complementa que a base da industrialização é a padronização e coordenação modular.
O fato de existirem componentes com dimensões padrão, incluindo uma família que permite fazer amarração direta, verga e contra-verga, possibilita planejar a construção com bastante maleabilidade. Há cerca de 30 anos, quando a alvenaria começou com mais intensidade, dizia-se que ela limitava a arquitetura por exigir dimensões múltiplas de cinco. Hoje, com sistemas como paredes de concreto com formas padronizadas, para conseguir repetitividade é preciso ter prédios idênticos. A alvenaria, por outro lado, permite padronização e uso de componentes industrializados que se compram e se aplicam no projeto, possibilitando várias arquiteturas diferentes ao mesmo custo, pois o módulo é pequeno (5 cm). O pedreiro recebe a solução pronta, basicamente executando.
Integração de Projetos: A Chave para Evitar Retrabalhos
Luís Sérgio enfatiza que a integração dos projetos é o coração da alvenaria estrutural. O ideal é que quem pretende fazer um empreendimento em alvenaria estrutural já parta do zero entendendo isso. A arquitetura não pode ser qualquer uma transformada em alvenaria estrutural; o arquiteto precisa conhecer os princípios do sistema construtivo, pois essa é a melhor forma de tirar partido das grandes vantagens do sistema.
É necessário nascer com uma arquitetura já pensada para o sistema construtivo, seguida da integração completa de todas as equipes que trabalharão nos vários sistemas do edifício: sistemas prediais elétricos, hidráulicos, esquadrias, revestimentos. As soluções construtivas devem ser dadas passo a passo conforme o processo caminha.
Também é importante que exista uma visão do responsável pela obra, que pode ajudar muito nas escolhas dos partidos de detalhes construtivos. Diferente do que alguns pensam, a alvenaria estrutural é um sistema com alto grau de industrialização, permitindo fazer uma obra inteira montada, sem nenhum tipo de improviso, com prazo determinado, conhecendo-se o resultado final e a qualidade que se atingirá.
Certificação e Segurança: A Importância do PSQ
Guilherme ressalta que em alvenaria estrutural não existe imagem para materiais fora de especificação. O bloco é a peça fundamental para garantir a capacidade e resistência da construção. Blocos cerâmicos de 10 ou 18 MPA têm cerâmica que atinge às vezes até 50 MPA, sendo elementos pré-fabricados de grande resistência adequados para aplicação estrutural.
A importância de exigir blocos com certificações rigorosas, como o PSQ (Programa Setorial da Qualidade) e o selo CCB em metro, é fundamental. Sem um bloco certificado que garanta sua resistência e precisão dimensional, não se está garantindo a segurança da construção.
Argumentos para Migrar do Concreto Armado para a Alvenaria Estrutural Cerâmica
Para engenheiros calculistas ou decisores de construtoras que ainda hesitam em migrar do concreto armado convencional para alvenaria estrutural cerâmica, Luís Sérgio apresenta os argumentos principais: redução de custo, aumento de qualidade e redução de prazo de execução. Para atingir essa qualidade, é preciso pensar o processo como um todo desde o início da incorporação: projeto bem feito, bloco de boa qualidade, mão de obra treinada, controle de qualidade elaborado, organização e planejamento da obra - cinco itens básicos para ter sucesso.
Luís brinca que "o Ministério da Saúde me obriga a dizer que alvenaria estrutural vicia, então você nunca mais vai querer fazer uma obra de outra forma na sua vida".
Guilherme complementa que a dica de ouro é pensar e planejar. A alvenaria estrutural se adapta a diversos layouts arquitetônicos, adapta-se a prazos pequenos ou grandes, adapta-se ao número de repetições. Fazendo um projeto bem feito e racionalizado, provavelmente será uma excelente opção para a construção, que fluirá do começo ao fim de maneira adequada e proveitosa.
Luís ainda destaca que a alvenaria estrutural não precisa de escala para ser eficiente. Seja para fazer uma casa ou milhares de unidades, ela se amolda a qualquer situação com grande eficiência. Quando perguntado sobre sua própria residência, Luís confirma: "Minha alvenaria estrutural com certeza. Minha casa, meu escritório, a casa da minha filha".