Kelver Merlotti | Como escalar uma Software House sem virar um caos

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Origens e Descoberta da Tecnologia: Do Interior de São Paulo à Programação

Kelver Merlotti nasceu em Barretos, interior de São Paulo, mas ainda bebê mudou-se com os pais para São José do Rio Preto, onde passou metade da infância. A outra metade foi em Jales, onde viveu a maior parte da adolescência e começou a "se entender por gente". Depois, morou em Votuporanga e, em 2011, mudou-se para São Paulo para trabalhar na Embarcadero. Recentemente, nos últimos 5 anos, passou a residir em Sorocaba. É pai de dois filhos: um de 21 anos, que já programa, e um mais novo de seis anos.

O interesse por tecnologia começou por volta dos 12 anos, quando ganhou um computador do pai. Desde cedo, Kelver gostava de desmontar brinquedos e eletrônicos para entender como funcionavam — e, muitas vezes, sobravam parafusos. Aos 15 anos, já dava aulas de informática, após ser convidado por um professor que não podia assumir uma turma. O dono da escola pediu que ele dissesse ter 18 anos para evitar problemas, mas um aluno o achou com cara de 23 — o que o deixou na dúvida entre ficar feliz ou triste. Foi nesse período que começou a descobrir a informática como profissão, e mais tarde a programação, onde encontrou seu "super poder".

Kelver também deu aulas na faculdade em Votuporanga, em cursos de Sistemas de Informação, Engenharia da Computação e Engenharia Elétrica, em matérias como Estrutura de Dados, Banco de Dados e Algoritmos. Se não fosse o chamado de São Paulo, ele teria seguido carreira acadêmica. Sua entrada na programação foi com Delphi 3, presente de um amigo da família que montava computadores e era investigador da polícia. Kelver ia à casa dele à noite, de bicicleta, para aprender a montar PCs e, mais tarde, conheceu o Delphi.

Transições e Decisões: O Preço de Seguir Oportunidades

A primeira mudança de cidade por motivos profissionais foi de Jales para Votuporanga, por volta de 2006, para trabalhar em uma empresa de desenvolvimento. Naquela época, trabalhar a distância era "impensável" — não havia a flexibilidade e facilidade de internet que temos hoje. Mais tarde, surgiu a oportunidade de vir para São Paulo trabalhar na Embarcadero, em 2011, por indicação de um amigo. Kelver brinca que a Embarcadero é a "concessionária" do mundo da programação: se ninguém resolve o problema, você vai lá.

Essa decisão, no entanto, foi difícil. Ele havia acabado de se divorciar e seu filho tinha entre 6 e 7 anos. Para não ficar longe, Kelver viajava todo final de semana de São Paulo para Jales — uma distância de 600 km. No primeiro ano, o carro "já ia quase sozinho". Ele destaca que o ambiente tem um poder imenso de nos mudar e que pagar o preço por uma oportunidade, mesmo quando não é exatamente o que se espera, pode gerar frutos no futuro. Essa lição, ele ressalta, é especialmente importante para a juventude atual, que muitas vezes desiste de oportunidades se elas não atendem 100% às expectativas.

Carreira na Embarcadero e o Empreendedorismo

Kelver teve duas passagens pela Embarcadero. A primeira, de 2011 a 2014, foi cuidando dos treinamentos oficiais da empresa — uma combinação de sua paixão por programação e educação. A segunda passagem foi mais empreendedora: em 2017, ele se juntou à Embarcadero do Brasil para criar a Embarcadero Professional Services, uma empresa de consultoria e prestação de serviços de desenvolvimento. Ficou nessa função até o final de 2020, início de 2021. Nesse período, atendeu desde empresas de três funcionários até boards executivos de multinacionais, o que o ajudou a desenvolver a habilidade de falar dois idiomas: o "tecnicacê" (tech) e o "negocês" (business).

Os Maiores Erros das Software Houses: Falta de Vendas e Percepção de Valor

Kelver aponta que o maior erro das software houses é não saber vender. A grande maioria vive de indicação, esperando que um cliente recomende o serviço a outro. Raramente fazem prospecção ativa e, quando o fazem, não conseguem vender bem o valor do que oferecem, ficando na base da pirâmide, disputando quem precisa de um software genérico. Muitas vezes, o cliente quer apenas emitir um cupom fiscal — mas a software house, com um pouco mais de esforço, poderia mostrar ao cliente como gerenciar caixa, estoque e finanças.

Ele explica que não é possível desenvolver um bom sistema para um tipo de negócio sem entender profundamente aquele negócio. Usando o exemplo de restaurantes: para criar um sistema eficiente, é preciso passar um ou dois dias na operação, vivenciando o que acontece na cozinha, no balcão e no caixa. Muitas software houses não fazem isso, não sabem onde o cliente sente dor e, portanto, não conseguem construir uma narrativa de pré-venda ou percepção de valor. O empreendedor médio, que abriu um CNPJ "na raça", muitas vezes não sabe o que precisa — ele quer apenas fechar o mês no azul. Quem entende essa dor e oferece um negócio valioso, não só um sistema, sai na frente.

Gratidão, Gestão de Pessoas e a Máxima "Gratidão Não é Dívida"

Muitas software houses crescem com funcionários que estão desde o início, e o vínculo emocional atrapalha decisões importantes. Kelver destaca três máximas que ajudam a lidar com isso:

  • Gratidão não é dívida: você deve ser grato a quem te ajudou, mas não tem uma dívida com essa pessoa, pois ela provavelmente foi paga pelo trabalho realizado.
  • O caixa não aceita desaforo: o CNPJ precisa de dinheiro para prosperar. Muitas vezes, a conta não fecha porque se insiste em caminhos que não fazem mais sentido.
  • Não promova um técnico a líder sem prepará-lo: a liderança é 90% gestão de pessoas e no máximo 10% técnica. O programador que é promovido sem preparo perde um excelente técnico e ganha um péssimo líder.

Esses problemas estão ligados à falta de visão estratégica: o dono da software house, geralmente um programador que "deu certo", tende a resolver tudo com programação, em vez de estruturar a empresa como um negócio de verdade.

A Cultura Delphi e a Dificuldade de Adoção de Novas Tecnologias

Kelver concorda com a percepção de que o público de desenvolvedores Delphi tem uma dificuldade maior em adotar novas tecnologias e processos. Ele aponta dois fatores principais:

  1. É divertido programar: o hobby do programador é programar. Ele se diverte criando soluções proprietárias, mesmo quando existem ferramentas prontas no mercado, como um sistema de chamados. Isso faz com que ele demore a perceber o valor real de uma integração ou de uma solução de terceiros.
  2. A Borland fez parecer fácil: a empresa mostrou que era possível desenvolver rapidamente, arrastando componentes, sem explicar o que estava por trás. Isso gerou uma cultura de "fazer tudo dentro de casa", que persiste até hoje.

Kelver alerta que criar um sistema é como "botar um filho no mundo": você será responsável por ele para sempre. Muitas software houses não fazem essa conta — não calculam o custo invisível de manutenção, evolução e suporte. Elas acham que é de graça fazer uma ferramenta própria, mas esquecem que o programador trabalha horas, uma equipe é envolvida e o custo de oportunidade não é mensurado.

Inteligência Artificial: O Caminho sem Volta e a Gestão como Diferencial

Kelver reconhece que a IA é um divisor de águas e um caminho sem volta, mas ressalta que ela potencializa tanto o que é bom quanto o que é ruim. Se a empresa não tem uma gestão sólida, a IA vai acelerar o caos. Ele vê dois problemas principais:

  • Travamento pelo medo e pela quantidade de opções: os donos de software houses ouvem promessas de milagres ("a IA vai resolver tudo") e terrores ("a IA vai acabar com a software house"). Ficam paralisados, sem saber por onde começar.
  • Foco apenas no código: muitos empresários acham que a adoção de IA começa e termina com a geração de código. Ignoram que há outras áreas (financeiro, suporte, análise, documentação) onde a IA pode ser aplicada com resultados mais imediatos e mensuráveis.

Kelver defende que a IA não vai matar software houses que têm um bom produto. Ele usa o exemplo do Odoo, um ERP open source gratuito que existe há anos e não matou as software houses — porque o cliente quer ter alguém para ligar quando o sistema falha. O risco não é a IA em si, mas a demora em adotá-la ou a adoção errada, enquanto uma software house concorrente a usa melhor, mais rápido e mais barato.

Ele também critica o movimento de empresários que, após imersões sobre IA, começam a cortar seniors por serem o custo mais alto, achando que a IA vai substituí-los. Para ele, essa é uma decisão equivocada, que trará consequências meses à frente. A mensagem principal: comece pelo básico — medindo indicadores mínimos de vendas, desenvolvimento, suporte e financeiro. Sem medição, não há gestão. E sem gestão, a IA só vai acelerar os problemas.

Futuro e Ação: O Básico Bem Feito, Indicadores e Calma

Kelver conclui que a IA potencializa e acelera o que a empresa já faz. Se a empresa não mede, não planeja e não gerencia, a IA vai acelerar o caos. Sua recomendação é:

  • Olhe para os indicadores mínimos — como você sabe se está indo bem ou mal?
  • Faça movimentos graduais e mensuráveis — não tente resolver tudo de uma vez. Se você fizer um movimento grande e der errado, não saberá o que causou o problema.
  • Não compre o pânico ou o milagre — a IA não é uma solução mágica, mas também não é o fim do mundo. A essência da gestão é o que vai diferenciar as empresas no futuro.

Como Encontrar Kelver e a Upper Training

Kelver está disponível no Instagram e nas redes sociais pelo nome Kelver Merlotti (seu nome é único — uma "chave primária" no Google). Seu site é uppertraining.com.br, onde ele ajuda empreendedores de software a estruturar seus negócios, alinhar a parte técnica com os objetivos estratégicos, definir metas mensuráveis e previsíveis, e tornar a gestão mais leve e fluida.