1. Abertura: da máquina com “talento natural” para tecnologia
Trajano conta que desde adolescente foi fascinado por computadores. Seu pai lhe deu um MSX, onde programas eram gravados em fita cassete e escritos em BASIC. Depois vieram PC XT, 286, 386. Fez curso técnico em processamento de dados no colegial, e na faculdade escolheu Administração de Empresas com ênfase em Análise de Sistemas na FASP (atual FIAP), justamente para ter uma visão mais abrangente do que a pura ciência da computação. Essa base interdisciplinar seria fundamental em sua carreira.
2. Carreira multifacetada: de tecnologia a finanças, vendas e auditoria
Trajano começou sua carreira em tecnologia, mas fez várias transições dentro da Pernod Ricard – empresa na qual está há 19 anos. Ele passou por áreas completamente diferentes: finanças (gerente de projetos), administração de vendas (Sales Operations – implementação de CRM), auditoria interna e, finalmente, voltou para a tecnologia como Diretor de TI. “Em 19 anos fiz um monte de coisa, e não estava 100% preparado para todas essas coisas. Algumas fui bem, outras apanhei muito. Mas isso me deu a musculatura para avançar de maneira consistente.”
3. O aprendizado mais valioso: empatia e entender o outro lado da mesa
Trajano destaca que a maior habilidade que desenvolveu ao sair da tecnologia foi empatia. Quando estava em finanças e pedia algo para a área de TI, ouvia “não” por razões técnicas legítimas, mas o problema continuava. “TI me falou não, mas o problema não acabou para mim, não acabou para a empresa.” Essa vivência o ensinou, ao voltar para TI, a ter uma percepção mais aguda do impacto daquele “não”. Ele não deixou de dizer não quando necessário, mas passou a fazê-lo com mais contexto, engajamento e buscando alternativas. “Às vezes vamos entrar em conflito, e isso é natural. O que não pode é o ‘não’ pelo ‘não’.”
4. O papel consultivo da tecnologia: entender o problema, não a solução pré-pronta
Trajano critica o modelo antigo em que TI era mero “tomador de pedido”. Hoje, o profissional de tecnologia precisa fazer a pergunta fundamental: “Qual é o seu problema?”. Muitas vezes a área de negócio já chega com uma solução (ex.: “quero um Power BI”, “quero um RPA”, “quero IA generativa”), mas pode ser que o problema seja resolvido de forma mais simples, barata e sustentável com outra abordagem. “É uma mentalidade startupiana: que problema você quer resolver?”. Essa mudança de postura evita que a área de TI seja vista como um obstáculo e passa a ser vista como consultora estratégica.
5. Sucesso precoce, arrogância e a casca de banana da carreira
Trajano alerta: um dos maiores perigos para um jovem profissional é o sucesso muito precoce. Isso pode gerar um senso de invencibilidade, uma arrogância profissional que, ao primeiro tombo, torna muito difícil se levantar. Ele defende que a carreira não é uma corrida de 100 metros, mas uma maratona, e que paciência é um valor universal. “A vida corporativa exige paciência – as coisas vão acontecer no seu devido tempo.” Ele reconhece a pressão do imediatismo e da ansiedade, que são epidêmicos, mas insiste que líderes devem ajudar os mais jovens a entender que nem sempre o “não” é um obstáculo final – pode ser parte de um plano de desenvolvimento.
6. O papel do líder: preparar futuras gerações com transparência
Para Trajano, uma das grandes alegrias da liderança é treinar quem está chegando. Ele destaca a importância de ser genuíno, mesmo quando a notícia não é boa: “Olha, você ainda não está preparado para aquela posição, mas vamos traçar um plano para chegar lá”. Ele também observa que a síndrome do impostor afeta mais as mulheres, que tendem a arriscar menos, e que o líder deve estar atento a esse viés.
7. Soft skills para multinacionais: resiliência e influência
Em um ambiente global como a Pernod Ricard, que está centralizando sistemas e reduzindo a autonomia local (antigamente cada país podia escolher suas soluções), o grande desafio não é técnico, mas de change management e engajamento. “O usuário vai reclamar: ‘eu fazia assim, tenho uma custom’. O mundo inteiro está perdendo essa custom.” A resiliência – capacidade de se adaptar sem se resignar – é o soft skill mais importante. Além disso, falar inglês fluente é um hard skill que abre portas (ou pelo menos não as fecha).
8. O bot de WhatsApp como case de inovação focada em problema
Trajano relata um dos projetos que mais o orgulha: na época em que estava em auditoria interna, as pessoas sempre diziam “eu não sabia” quando apontavam uma não conformidade. Para mudar isso, ele criou um bot no WhatsApp que respondia perguntas sobre políticas corporativas (viagens, reembolsos, contratos) em linguagem natural – antes mesmo da era do GPT. O bot foi um sucesso: teve mais de 1 milhão de mensagens, e cerca de 40% delas eram “bom dia” e “obrigado” – as pessoas tratavam o bot com gentileza. O time de vendas, que atende bares e restaurantes à noite, usava o bot aos domingos, quando não havia ninguém no escritório. A inovação não era tecnológica (era um bot simples), mas resolvia um problema real de acesso à informação. A lição: inovação passa por processo, pessoas e ferramentas – não apenas tecnologia.
9. O FOMO tecnológico e como combatê-lo
Trajano reconhece que o medo de ficar para trás (Fear of Missing Out) é enorme, impulsionado por redes sociais e posts sensacionalistas (“quem não fizer IA generativa em 2025 já perdeu o bonde”). Ele sugere duas estratégias: (1) tirar o foco da tecnologia no primeiro momento – entender o problema de negócio e o porquê; (2) aprender técnicas de argumentação (como a dialética heurística) para quebrar argumentos fracos baseados apenas em “o concorrente fez” ou “está na moda”. “Nem tudo o que se lança no mercado a gente precisa seguir desenfreadamente.”
10. A ansiedade do aprendizado e a metáfora do surfe
Com a velocidade das novidades (uma semana DeepSeek, outra semana algo de Berkeley), muitos profissionais se sentem perdidos. Trajano usa a metáfora do surfe, que aprendeu depois dos 40 anos: o mar nunca é igual, você não controla as condições e não existe “20 horas” para ficar bom – é preciso paciência e aceitar que não se ganha todas as ondas. “A onda não é minha inimiga; se eu lutar contra ela, vou perder. Ela está me empurrando para frente.” No mundo corporativo, falta colaboração; a competição é boa, mas sozinhos vamos mais devagar; juntos vamos mais longe.