Confissões Consentidas - Episódio 01: A Trajetória de Dom Jheff, BDSM e a Criação do Mr. Fetiche Brasil
Apresentado por: Mestre Cruel (Renan)
Convidado Especial: Dom Jheff
Introdução e Acessibilidade Visual
O episódio de estreia do podcast "Confissões Consentidas" marca um momento histórico para a comunidade fetichista, com a proposta de levar as vivências desse universo para o mundo. O apresentador, Mestre Cruel (também conhecido como Renan), inicia o programa de forma muito inclusiva, realizando uma audiodescrição de si mesmo para fins de acessibilidade. Ele se descreve como um homem branco de 33 anos, com cabelos castanhos e algumas mechas brancas, vestindo uma jaqueta de couro preta e branca adornada com tachinhas e zíperes, adotando um estilo bem rock and roll.
Logo em seguida, ele apresenta o seu primeiro convidado e um de seus melhores amigos na cena fetichista: Dom Jheff. O convidado também faz a sua própria descrição física e estética. Jheff se apresenta como um homem branco de 30 anos, pertencente à comunidade urso (bear), homem cisgênero e gay. Em termos de vestimenta fetichista, ele detalha que está usando uma roupa de couro nas cores vermelha e preta, um boné característico e um "hanky code" no braço esquerdo, além de mencionar, em tom de brincadeira, a sua fama na comunidade como praticante de fisting.
Origens, Sexualidade e a Mudança para São Paulo
A conversa mergulha profundamente na história de vida de Dom Jheff. Capixaba de nascimento, ele relata que a sua jornada de autodescoberta começou de forma extremamente precoce. Jheff assumiu a sua homossexualidade aos 9 anos de idade, o que gerou um forte atrito no seio da sua família, que possuía bases religiosas muito rígidas, sendo dividida entre mórmons e evangélicos. A família não aceitou bem a sua orientação sexual, alegando que uma criança não teria consciência do que estava falando.
Diante dessa falta de aceitação e de um ambiente hostil, a mãe de Jheff tomou uma decisão drástica para proteger o filho. Ela, que trabalhava vendendo bolinhos de bacalhau em frente à Praia das Castanheiras no Espírito Santo e já havia alcançado certo sucesso local, recebeu uma proposta para trabalhar em São Paulo. Assim, aos 10 anos de idade, Jheff e sua mãe mudaram-se para São Carlos, no interior paulista, afastando-se da ala conservadora da família. Apesar do apoio prático, Jheff pontua que a aceitação de sua mãe sempre foi um tanto velada, marcada pela frustração de não ter um neto biológico nos moldes tradicionais e pelo receio da forma aberta e sem medo com que ele lidava com a própria sexualidade. Aos 16 anos, buscando total independência, ele saiu de casa.
A Descoberta do Fetichismo: Do Papel Submisso à Dominação
A entrada de Jheff no mundo do BDSM e dos fetiches não ocorreu da noite para o dia. Crescendo na geração da internet, ele teve acesso precoce a salas de bate-papo (como o Bate-papo UOL) e a conteúdos online, onde começou a explorar a sua sexualidade e a estética que o atraía, como homens peludos, gordinhos e o visual de couro dos motoqueiros. O seu primeiro contato prático com o fetichismo envolveu a atração por piercings e práticas de "golden shower" (urina), que lhe despertaram um profundo tesão por explorar dinâmicas diferentes das relações "baunilha" (tradicionais).
Quando Jheff começou a frequentar ativamente a comunidade fetichista em São Paulo, ele inicialmente assumiu o papel de submisso. Ele explica que isso ocorreu devido a um forte estigma e a uma construção social equivocada dentro da própria comunidade gay: como ele é sexualmente passivo (gosta de ser penetrado), a sociedade automaticamente associava isso à submissão e à inferioridade. Durante esse período, ele chegou a praticar "Petplay", vivendo como um "pet" (cachorro) por três meses, mas logo percebeu que não conseguia se entregar àquela dinâmica de perda de controle.
A grande virada ocorreu quando ele conheceu Rod (seu atual marido), inicialmente através de um grupo de BDSM no WhatsApp, enquanto Rod ainda morava na Alemanha. Durante as suas conversas e jogos virtuais de controle psicológico, Rod percebeu que Jheff tinha uma essência dominadora reprimida e o incentivou a explorar esse lado. Por volta de 2017, Jheff assumiu o papel de Dominador, percebendo que a sua personalidade metódica, controladora e detalhista se encaixava perfeitamente na posição de poder. Ele confessa que, em suas primeiras experiências como submisso, passava o tempo todo julgando a performance do seu dominador e pensando em como faria melhor, o que provou definitivamente a sua vocação para o topo da dinâmica.
Desmistificando o Mito da Relação 24/7 no BDSM
Um dos pontos mais altos e reflexivos do podcast é a discussão sobre o que realmente significa uma relação "24/7" (vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana) dentro do universo BDSM. Jheff relata uma experiência intensa do passado, quando trouxe um submisso de Pernambuco (carinhosamente apelidado de "Porco") para morar com ele em São Paulo. A intenção era viver uma fantasia extrema, onde o rapaz atuava como um animal caseiro, submetido a treinamentos diários de comportamento e punições lúdicas através de spanking.
No entanto, a sua visão sobre esse tipo de relacionamento amadureceu profundamente ao longo dos anos, especialmente após o seu casamento com Rod. Jheff admite que, no início do relacionamento com seu atual marido, ele cobrava uma submissão ininterrupta. Ele esperava que Rod estivesse sempre pronto para servi-lo, mesmo quando estava doente ou com dor.
Com o auxílio de terapia de casal e muita conversa, Jheff desconstruiu essa visão irrealista. Ele percebeu que o verdadeiro 24/7 não se trata de uma sessão de tortura ou submissão ininterrupta, mas sim de respeito contínuo. Ele entendeu que, em muitos momentos, a dinâmica de poder precisa ser pausada para dar espaço ao cuidado, ao afeto e à parceria igualitária. Como Rod possui uma saúde debilitada, há momentos em que Jheff precisa atuar exclusivamente como marido e cuidador, abandonando completamente o papel de mestre. Mestre Cruel complementa essa visão, lembrando que a vida prática impõe limites à fantasia: contas precisam ser pagas, horários precisam ser cumpridos e a responsabilidade da vida adulta não permite que alguém fique ajoelhado amarrando uma bota quando ambos estão atrasados para um compromisso urgente.
Ativismo e a Criação do Mr. Fetiche Brasil
Além das suas experiências pessoais, Dom Jheff é um grande fomentador da cultura fetichista no país. Em 2023, junto com Rod, ele idealizou e organizou o concurso Mr. Fetiche Brasil. A motivação para criar este evento, no entanto, surgiu de um episódio de profunda decepção e preconceito dentro da própria comunidade LGBT.
Jheff revela que havia sido convidado por um estabelecimento famoso (a Eagle) para reorganizar o concurso "Mr. Pup". Como ativista, ele impôs a condição de que o evento deveria ser inclusivo, permitindo a participação de pessoas trans, mulheres e praticantes de outros fetiches além do "puppy play". A organização do local recusou o pedido com justificativas criminosamente preconceituosas e transfóbicas, alegando absurdos como o medo de que travestis pudessem "bater carteira" ou que homens trans acionassem a Lei Maria da Penha caso ocorresse algo no dark room.
Revoltado com essa exclusão, Jheff recusou a oferta, cortou relações com o espaço e decidiu criar o seu próprio concurso do zero. Ele pesquisou regulamentos internacionais, patentes e estruturou um evento que abraçasse todos os corpos, gêneros e vertentes fetichistas. Um diferencial marcante do Mr. Fetiche Brasil é o seu formato de maratona: enquanto concursos internacionais como o International Mr. Leather duram apenas um fim de semana, a competição brasileira se estende por cerca de três meses. Jheff defende que esse período prolongado testa o real engajamento dos candidatos, a sua capacidade de discursar sobre pautas importantes, produzir ensaios, participar de eventos e provar que têm estofo para representar uma comunidade tão plural.
O Futuro da Cena: O Novo Bar Sodoma
A paixão de Jheff pela comunidade não se restringe apenas à realização de eventos. Ele aproveita o espaço do podcast para anunciar o seu mais novo e ambicioso projeto empreendedor: a abertura de um bar fetichista em São Paulo, batizado de Sodoma.
O Sodoma está sendo estruturado em um casarão antigo da década de 1920 e tem inauguração prevista para o início do próximo ano. Jheff destaca que o espaço foi pensado para corrigir as falhas de acessibilidade e infraestrutura comuns nos bares do gênero. O local será totalmente acessível para cadeirantes (PCDs), contará com um dark room, uma masmorra equipada, pista de dança, cardápio de comidas, áreas de descanso e, pensando no conforto e higiene do público LGBT e fetichista, disponibilizará duchas higiênicas.
Bate-Bola Jogo Rápido (De Frente com Mestre Cruel)
Para encerrar a entrevista de forma descontraída, Mestre Cruel conduz uma rápida sessão de perguntas e respostas diretas, revelando um pouco mais da personalidade irreverente de Dom Jheff:
- Uma cor: Vermelho.
- Um sentimento: Ódio.
- Uma palavra ou frase que diz o tempo todo: Porra.
- Um filme: O Congresso Futurista.
- Quem o interpretaria no cinema: Fausto Silva.
- Pessoa que mais admira (viva ou morta): Eu (ele mesmo).
- Prática fetichista que ainda não realizou, mas quer: Fisting com o pé.
- Quem é o Jefferson para o Dom Jheff: "Uma bicha louca que não tem medo de nada e deveria ter, mas isso o trouxe até aqui".
- Mudaria algo na sua história? Não.
Considerações Finais
O episódio inaugural de "Confissões Consentidas" entrega uma visão extremamente humana, honesta e desmistificada do universo BDSM. Dom Jheff prova que, por trás do couro, dos chicotes e da postura autoritária, existe um homem de negócios, um ativista dedicado à inclusão social de pessoas trans e mulheres na cena fetichista, e um parceiro amoroso que compreende os limites do corpo humano. O podcast é finalizado com o convite para a semifinal do Mr. Fetiche Brasil e com a divulgação das redes sociais de ambos os envolvidos, reforçando o poder da comunidade e a importância de criar espaços seguros e livres de preconceitos para a expressão da sexualidade.