Jump Talk 36 – O poder dos dados na tomada de decisão empresarial

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1. Abertura: o universo de dados e a importância das perguntas certas

Anderson e Gilberto dão as boas-vindas destacando que o Jump Talk volta a falar de dados – como ter projetos de sucesso, desenvolver carreira e quais as dicas para evoluir individualmente. O convidado é Thiago Jatobá, profissional com mais de 14 anos de experiência em dados, que já passou por setores como financeiro, varejo e seguros. Jatobá começa agradecendo e rapidamente estabelece um dos temas centrais do episódio: “tecnologia é só o meio” – mais importante que a ferramenta hypada é resolver um problema real de negócio.


2. Carreira: dos primeiros scripts em monitoria até a liderança de projetos do zero

Jatobá começou em 2010 no Mercado Eletrônico (empresa de B2B), já na área de monitoria, rodando scripts para verificar a saúde do ambiente. Ali teve o primeiro contato com dados, ainda que sem o nome “engenharia de dados”. Depois, foi para consultoria, onde trabalhou com Hyperion (planejamento financeiro) e SQL pesado. Ele destaca que nessa época o profissional de BI se dividia entre o lado mais técnico (aquisição/disponibilização) e o mais de negócio (camada semântica/dashboards).

A passagem pela consultoria foi fundamental: “consultoria não pode dar errado”. Isso o ensinou a ter visão de processo, a elaborar propostas, montar times e, principalmente, a mergulhar no negócio do cliente – seja um banco, uma construtora ou uma empresa de saúde. Em seguida, foi para o varejo (NetShoes), onde viveu o desafio de eficiência extrema (margem baixa, logística crítica) e o primeiro contato com arquiteturas de near real-time. Ele cita um case de abertura de produtos 1P, 2P e 3P (marketplace), complexo por exigir múltiplas subconsultas e visões, mas resolvido com ferramentas da Oracle e boa prática.

Depois passou pela Restock, depois Porto (banco) e agora está na SulAmérica. Ao longo dessa jornada, esteve à frente de cinco projetos de dados “do zero” – desde a rampagem da arquitetura até a estruturação de times e processos.


3. A consultoria como escola: processos, gestão e escuta ativa

Jatobá reforça que a consultoria acelera o aprendizado porque você é forçado a entender diferentes realidades em pouco tempo. Ele destaca dois ganhos principais: (1) aprendizado sobre processos – como estruturar um projeto, distribuir um time, mitigar riscos; (2) desenvolvimento de soft skills, especialmente escuta e negociação. Ele conta que no início da carreira era “tempestivo e incisivo”, e a consultoria o ajudou a perceber que ninguém vai sozinho. É preciso identificar na sala quem são os aliados, quem são os detratores, e construir diálogo genuíno. “O problema muitas vezes não é com você, é com o contexto de projetos anteriores; a pessoa já entra carimbada.”


4. Formação acadêmica: é necessária? O papel do racional e do networking

Jatobá é formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas (FMU). Ele responde diretamente: faculdade não é obrigatória para entrar em tecnologia hoje, mas foi importante para ele. O principal ganho foi o “racional” – a capacidade de separar os pedaços de um sistema, entender o que está por trás de um desafio. Ele conta um caso recente em que um membro do seu time só conseguiu desdobrar um problema complexo porque tinha o raciocínio estruturado da faculdade. Além disso, a faculdade proporciona networking e indicações. Para quem não tem faculdade, ele recomenda usar as academias das clouds (AWS, Azure, GCP), a documentação oficial (Python, Spark) e até LLMs para montar planos de estudo. “O conteúdo hoje é abundante; o desafio é saber para onde você quer ir.”


5. Plano de Desenvolvimento Individual (PDI): a ferramenta que vai além da tecnologia

Jatobá é entusiasta do PDI. Ele explica a metodologia 70/20/10: 70% do aprendizado no trabalho (projetos reais), 20% com pares (compartilhamento) e 10% com estudo formal. Para montar um PDI, ele recomenda pegar a arquitetura atual, quebrá-la em peças (como Lego) e começar pela parte mais simples – ex.: na engenharia de dados, comece pela ingestão, depois materialização na primeira camada, depois qualidade, depois modelagem. Ele aplica a mesma lógica para qualquer objetivo (aprender inglês, fazer uma viagem). O PDI não é um status report, é uma ferramenta para dar visibilidade a si mesmo sobre onde se está evoluindo e onde há dificuldade. Ele cita o caso de um estagiário que queria se tornar gestor de dados em 2 anos; fizeram o plano, e o profissional conseguiu – hoje é head de dados em outra empresa.


6. Principais mudanças no mercado de dados: open source, segmentação e disciplina de produto

Jatobá lista as principais transformações que viu desde 2010:

  • Fim das “caixas-pretas”: antes as ferramentas eram fechadas, caras e difíceis de customizar. Hoje o open source predomina (ex.: Databricks, Spark, Python).
  • Segmentação da carreira: antes o consultor BI era generalista (técnico + business). Hoje existem dezenas de especialidades: engenharia de dados, analytics engineer, cientista de dados, MLOps, governança, segurança, BI, IA generativa, etc.
  • Disciplina de “produto de dados”: antes os requisitos eram mal escritos, gerando retrabalho. Agora existe uma cultura de produto, com product managers de dados, OKRs/KRs claros e times multidisciplinares.
  • Governança e LGPD: antigamente a preocupação com vazamento de dados era quase nula; hoje é um pilar desde a concepção da arquitetura. “O dado é o novo petróleo, mas só agora a gente cuida bem dele.”

7. Como estruturar um projeto de dados do zero: lições de cinco projetos

Jatobá foi responsável por cinco projetos “do zero”. Ele sistematiza as etapas:

  1. Não crie arquitetura para encaixar o problema; entenda o problema para desenhar a arquitetura. Muitos profissionais acumulam certificações mas pulam essa etapa crucial.
  2. Monte um time de Analytics Engineer + Produto de Dados para ir a campo entender os principais ofensores financeiros e a estratégia da companhia.
  3. Eleja um problema concreto (ex.: melhorar o NPS, reduzir churn, aumentar eficiência fiscal).
  4. Defina domínios claros – um domínio de aquisição não pode ficar resolvendo problemas de legado do financeiro; cada domínio deve focar no seu KR.
  5. Desenhe a arquitetura com base na maturidade da companhia. Às vezes uma solução simples resolve 80% dos problemas dos próximos 2 anos; depois você evolui a plataforma.
  6. Integre os times (negócio, produto, engenharia) desde o planejamento. O pior erro é errar a data de entrega repetidas vezes. “Quantas vezes o time técnico está na sala, vê um prazo irreal, mas não fala nada?”

A principal frustração em projetos de dados é a falta de alinhamento e promessas não cumpridas. Jatobá defende o planejamento integrado (PI) com responsabilização compartilhada.


8. Inteligência artificial generativa: acelerador, mas não milagre

Jatobá vê os LLMs como um enorme acelerador para tarefas como classificação de transações, geração de prompts, e interação com dados via linguagem natural. As principais clouds já trazem LLMs embarcados nas esteiras de engenharia. No entanto, ele alerta para a pressão do hype: “quando você vê uma apresentação comercial maravilhosa, pergunte: quanto esse dado precisou estar estruturado para que a IA generativa respondesse dessa forma?” A estratégia é aterrizar as expectativas com base no nível de maturidade da companhia. Se a maturidade é baixa, você precisa construir a fundação primeiro; se é alta, pode acoplar IA mais rapidamente. Sobre substituição de empregos: Jatobá acredita que alguns cargos mais juniores podem ser automatizados, especialmente com o avanço dos investimentos, mas o Brasil ainda levará algum tempo para sentir uma substituição massiva.


9. Soft skills e princípios: o diferencial para quem está começando

Jatobá é enfático: não adianta ser um expert técnico se não consegue interagir, compreender o problema e se responsabilizar pela entrega. Ele lista características essenciais: acreditar no sonho, dedicar-se, ter princípios (ex.: “nunca fazer nada pela metade”), e estar aberto ao ajuste fino de comportamento – ele mesmo conta que era difícil de lidar no início e melhorou com o tempo. Ele também destaca a importância de ensinar: por isso criou um canal no YouTube (Thiago Jatobá), com foco em ajudar quem está começando, sem abordar temas supercomplexos. “Onde mais se aprende é ensinando.”