Neste episódio do Jump Talk, recebemos Bruna Wells, Diretora de Parcerias da Databricks para a América Latina, e Silvio, Head de Parcerias da Jump. O objetivo foi discutir o mercado de dados, a importância das parcerias tecnológicas e, claro, o ecossistema da Databricks — uma das empresas mais hypadas do momento no setor de dados e inteligência artificial. A conversa foi rica em detalhes sobre a trajetória da Bruna, os desafios de construir uma área de parcerias do zero e como a Databricks está revolucionando a forma como as empresas lidam com seus dados.
Quem é Bruna Wells? Uma carreira construída em parcerias de tecnologia
Bruna iniciou sua apresentação de forma muito pessoal, destacando que é uma mulher acima de 40 anos, casada há 25 anos, mãe de dois filhos (Caio de 18 e Luana de 6 anos). Essa experiência de relacionamentos de longo prazo, segundo ela, é a base de sua atuação profissional com parcerias. Formada em Relações Públicas pela Cásper Líbero, ela sempre buscou unir a comunicação a resultados tangíveis, o que a levou a um MBA em Marketing com ênfase em Vendas pela FGV.
Sua trajetória no mundo da tecnologia começou há mais de 15 anos, no setor de segurança da informação, passando por gigantes como Dell e Sonic Wall. Ela viveu a transição de empresas tradicionais de hardware e licenças para o mundo de software e, em 2019, deu um mergulho no universo de dados ao ingressar na TIBCO, seguida pela Software AG (empresa europeia adquirida parcialmente pela IBM).
Há um ano, ela aceitou o desafio de estruturar a área de parcerias da Databricks na América Latina, uma região que, apesar do potencial, não tinha uma liderança local dedicada a parceiros. Ela descreve esse período como uma missão de construir e fortalecer um ecossistema que já existia de maneira orgânica e self-service, mas que agora precisa de direcionamento estratégico para crescer de forma sustentável.
A Força do Ecossistema: Por que parcerias são essenciais para a tecnologia?
Anderson perguntou a Bruna sobre a importância de empresas de tecnologia terem parceiros bem estruturados. A resposta foi um dos pontos altos da conversa. Bruna explicou que parceiros agregam valor que a própria empresa, sozinha, jamais conseguiria cobrir. Ela listou diversos motivos cruciais:
- Branding e Presença de Mercado: Parceiros locais já atuam com clientes há décadas, construindo relacionamentos de confiança. Associar-se a essas marcas é uma forma eficiente de ganhar credibilidade.
- Conhecimento do Ecossistema: Consultorias e integradoras conhecem não só a tecnologia do fornecedor, mas também os concorrentes, podendo atuar como "trusted advisors" para o cliente, indicando a melhor solução para cada caso.
- Capacidade de Entrega e Logística: Para empresas internacionais, parceiros são vitais para lidar com importação, fulfillment de contratos e, especialmente, para vendas ao setor público (onde a compra deve ser feita em moeda local e por empresas brasileiras).
- Sustentação e Consumo: Este foi apontado como o ponto mais crítico. Não basta vender a tecnologia; é preciso garantir que o cliente a utilize de forma correta e contínua. Os parceiros, atuando na ponta diariamente, são o "exército" que sustenta o modelo de consumo, trazendo novos casos de uso e garantindo o retorno sobre o investimento.
Bruna foi enfática: mesmo uma empresa com 10 mil funcionários não consegue cobrir todos os clientes potenciais de uma região. Por isso, trabalhar com múltiplos parceiros — uns focados em revenda, outros em consultoria, outros em implementação — é a única maneira de escalar. O alinhamento de valores entre a fornecedora e o parceiro é fundamental para que essa representação seja bem-sucedida.
Databricks: Da Universidade de Berkeley ao Hype de Mercado
Silvio pediu que Bruna explicasse o que é a Databricks, seus objetivos e como ajuda os clientes. Bruna começou contando a origem da empresa: fundada em 2013 por alunos da Universidade de Berkeley, a Databricks nasceu no cloud, com foco em processamento de dados utilizando código aberto. Um marco fundamental foi a parceria com a Microsoft em 2017, que a tornou conhecida no mercado corporativo, muitas vezes sendo confundida como um produto da própria Microsoft — um paradigma que a empresa ainda precisa quebrar.
Atualmente, a Databricks opera em um modelo multi-cloud, com parcerias estratégicas com AWS, Microsoft Azure e Google Cloud Platform (GCP). A plataforma é a criadora do conceito de "Lakehouse" (Data Lake + Data Warehouse), que unifica o armazenamento de dados brutos (data lake) com a performance e governança de um data warehouse. Esse conceito foi um divisor de águas e hoje, cerca de 74% das empresas no mundo já adotam esse modelo, promovido ou não pela Databricks.
Sobre o crescimento explosivo, Bruna apresentou números impressionantes: em 2021, a empresa tinha cerca de 5 mil funcionários; hoje, já são quase 10 mil. Rodadas recentes de investimento, com participação da NVIDIA e Capital One, injetaram bilhões na companhia. Ela compartilhou uma experiência pessoal ao entrar na empresa: o Data + AI World Tour, evento anual da Databricks, saiu de 600 participantes esperados para quase 2000 inscritos em menos de um ano, consolidando-se como o "evento de dados e IA do Brasil".
O Hype, os C-Levels e o Verdadeiro Valor da Dados
Uma questão crucial levantada por Anderson foi: como os executivos (C-levels) enxergam a Databricks? Muitos ainda a veem como uma funcionalidade dentro do Azure, por exemplo. Bruna explicou que, com o boom do ChatGPT e da IA Generativa, a pressão sobre CEOs e CIOs para que suas empresas se tornem "data-driven" é imensa. O valor da Databricks para esse público vai além da ferramenta: trata-se de transformar dados em informação confiável para a tomada de decisão.
Ela destacou que a IA Generativa está empoderando as áreas de negócio a fazerem perguntas diretamente aos dados, recebendo dashboards e análises sob demanda, sem depender 100% da TI. No entanto, isso traz um enorme risco se a fundação de dados não for sólida. Governança, catalogação e controle de acesso (privilégio mínimo) são essenciais para evitar que informações sensíveis vazem ou que os modelos de IA "alucinem" respostas incorretas. A Databricks, com a aquisição da Mosaic AI, trouxe toda a engenharia de IA generativa para dentro de sua plataforma, garantindo que os dados estejam seguros e governados de ponta a ponta.
Liberdade, Open Source e a Revolução do Unity Catalog
Um dos grandes diferenciais da Databricks é sua cultura open source e a liberdade que oferece aos clientes. Ao contrário de soluções proprietárias como o Data Fabric da Microsoft, que geram lock-in com uma nuvem específica, a Databricks é multi-cloud e adota uma filosofia de código aberto desde sua fundação. "Não entregue seus dados nem para a Databricks", disse Bruna, citando o fundador e CEO Ali Ghodsi. A ideia é que o cliente seja o responsável por seus dados, mantendo a flexibilidade.
Um exemplo claro dessa filosofia foi a evolução do Unity Catalog, solução de governança e catalogação de dados. Inicialmente, alguns clientes resistiam por acreditar que ele poderia criar um novo lock-in. Em resposta, a Databricks anunciou a abertura do código do Unity Catalog, que teve mais de 400 mil downloads em um único dia. A estratégia é clara: inovar constantemente, doar código para a comunidade e permitir que os clientes utilizem a melhor governança sem amarras.
Barreiras e o Futuro: Capacitação é a Chave
Quando perguntada sobre as barreiras para uma expansão ainda maior da Databricks, Bruna foi direta: conhecimento e mão de obra especializada. Os CIOs têm orçamentos limitados (crescimento de no máximo 10% ao ano) e precisam fazer mais com menos. A Databricks entrega um ROI médio de 482% para clientes que migram para a plataforma, mas esse potencial só é atingido com implementação correta.
Para suprir essa demanda, a empresa tem investido pesado em capacitação, não só de seus próprios funcionários (tech summits internos), mas principalmente de parceiros e clientes. O "exército de parceiros" precisa estar certificado para provar sua competência e evitar que clientes consumam recursos de forma ineficiente, gerando surpresas na fatura e pouco valor de negócio. A Jump, por exemplo, já possui um programa chamado Jump Start, focado em certificações Databricks, e a própria Databricks oferece 50% de desconto em certificações e acesso gratuito a sua plataforma de treinamento.
O Plano para o Próximo Ano: Mais Parceiros, Mais Qualidade, Mais Impacto
Para encerrar, Bruna compartilhou os três pilares de sua estratégia para o próximo ano na América Latina:
- Capacitação: Ela havia estipulado a meta de dobrar o número de parceiros certificados (de 370 para 740). Essa meta foi atingida em apenas seis meses. Agora, ela mira um crescimento de 200-300%, tornando a região ainda mais relevante.
- Qualidade e Robustez da Estrutura de Parceiros: Não se trata apenas de quantidade. A ideia é elevar o nível dos parceiros, fazendo com que mais deles atinjam o status "Select" (um patamar mais alto, que exige múltiplas certificações e impacto significativo no consumo dos clientes). Atualmente, já são cinco parceiros Select, contra um no ano anterior.
- Latam Way e Crescimento Mútuo: O objetivo é fazer com que a marca Databricks e seus parceiros na América Latina sejam reconhecidos globalmente. Bruna reiterou que seu propósito é fazer o negócio dos parceiros crescer. "Se a empresa está crescendo localmente 80% a 160%, crescer com os parceiros não é nada irreal", concluiu.
A conversa terminou com agradecimentos de ambas as partes, destacando a confiança mútua e o trabalho conjunto para continuar evoluindo no dinâmico mercado de dados e IA. Fica claro que, para a Databricks, o futuro é construído em parceria.