Isabela Raposeiras (Coffee Lab) - Eu Não Nasci Herdeiro #6

Início \ Produções \ Isabela Raposeiras (Coffee Lab) - Eu Não Nasci Herdeiro #6

O Café Corporativo e o Status: Uma Analogia Inicial

Muitos se perguntam por que o café das máquinas de escritório é tão ruim. A anfitriã do podcast sugere uma analogia interessante: antigamente, ao visitar empresas, ele achava o café maravilhoso, mas percebeu que, na verdade, gostava era do status que estar naquele ambiente oferecia, e não da bebida em si. A convidada Isabela Raposeiras, do Coffee Lab, explica que a real questão é a falta de conhecimento sobre cafés de qualidade, um mercado que só começou a se desenvolver nos últimos 35 a 40 anos. Portanto, é esperançoso demais acreditar que esses cafés superiores já estariam disponíveis nos escritórios. A barreira principal não é apenas o custo, mas sim a falta de conhecimento e educação sobre o produto.

A Trajetória de Isabela: Da Psicologia ao Café por Necessidade

Isabela é psicóloga, mas o café entrou em sua vida por uma questão de sobrevivência financeira. Após a falência da família quando ela tinha 18 anos, ela se viu em uma situação difícil. Uma amiga a convidou para ajudar em um projeto de cafeteria dentro de lojas de design, e foi aí que ela teve seu primeiro contato com um fornecedor que era uma das primeiras torrefações de café de qualidade do Brasil, no ano 2000. O que começou como uma ajuda, a levou a trabalhar diretamente com o produtor.

A infância de Isabela foi atípica, com pais de personalidades singulares e uma família que mudou de endereço cerca de 40 vezes. Essa base incomum, segundo ela, teve aspectos bons e ruins, mas hoje ela acredita que não mudaria quase nada do que viveu, agradecendo pela terapia que a ajuda a processar essas experiências. Quando criança, seus desejos profissionais eram variados: queria ser psicóloga, astronauta e piloto de avião, interesses que ela mantém até hoje, pois ainda pratica voo em teco-tecos com amigos.

A Filosofia Educacional e a Humanização no Negócio do Café

Isabela deixa claro que sua grande paixão é a escola, e que suas cafeterias são, na verdade, 'cafeterias escola'. Tudo o que ela faz possui um tom educativo, desde o cardápio até a formação de seus baristas, que também são instrutores. A necessidade de educar o consumidor é inevitável, pois o café de qualidade tem um sabor completamente diferente do que as pessoas estão acostumadas. Sem essa preparação, o estranhamento inicial se tornaria uma experiência negativa. Essa filosofia se estende à sua abordagem de negócios, onde a inovação e o pioneirismo são marcas registradas, como ter sido a primeira pessoa no mundo a colocar o nome do produtor na embalagem do café.

A Luta pelo Fim da Escala 6x1: Um Modelo de Negócio Possível e Humano

Isabela é uma voz ativa e influente na luta pelo fim da escala de trabalho 6x1. Para ela, dar apenas uma folga por semana ao funcionário é 'análogo à escravidão'. Sua própria experiência prévia como CLT, trabalhando exaustivamente nesse regime, a fez estruturar seu negócio de forma diferente desde o início, optando pela escala 5x2 e, mais recentemente, adotando a escala 4x3. Ela refuta o argumento comum de que a economia iria quebrar com a mudança, afirmando que é possível ter lucro respeitando os trabalhadores e que ela é a prova viva disso. Para ela, não se trata de uma escolha, mas do único caminho possível e viável, que inclusive gera ótimos resultados financeiros.

A Placa do Coffee Lab e o Respeito ao Trabalhador

Um exemplo prático de sua abordagem humanizada é a famosa placa no Coffee Lab que diz: 'Estamos a X dias sem sermos destratados por clientes'. O número é atualizado diariamente e é real. Isabela critica a herança escravocrata brasileira que faz com que alguns clientes se sintam superiores aos prestadores de serviço. A placa serve como um lembrete para que os clientes se comportem, e quando o contador zera, os próprios clientes fiéis ficam chateados. Essa gestão do respeito ao funcionário é um pilar central de seu negócio.

Da Brabeza Inconsciente à Liderança Consciente e Terapêutica

Isabela admite que já foi considerada 'a brava das galáxias', agindo com braveza de forma inconsciente. Hoje, após um longo processo de autoconhecimento e terapia, ela aprendeu a encontrar o caminho do meio, conseguindo estabelecer limites sem recorrer à raiva ou à permissividade. Ela ressalta que, para a mulher, a braveza é ainda mais penalizada, sendo vista como 'louca' ou 'neurótica'. No ambiente profissional, ela não se autoriza mais a levantar o tom de voz com funcionários, pois não há justificativa para isso. A relação profissional é baseada em um contrato de trabalho, e não em laços de 'colaboração' ou paternalismo. Isso resulta em uma rotatividade muito baixa em sua empresa, onde raramente alguém pede demissão, e as demissões são pontuais.

Empreendedorismo, Capitalismo Brutal e a Crítica ao Discurso Falso

Isabela é franca ao afirmar que detesta a palavra 'empreendedorismo' na forma como é usada atualmente, considerando-a um eufemismo que mascara os horrores do capitalismo. Ela prefere se identificar simplesmente como 'dona de empresa' ou 'patroa'. Ela critica duramente a prática de chamar entregadores de aplicativo ou motoristas de Uber de 'empreendedores', classificando isso como grave. Para ela, o capitalismo é bruto, e o termo foi deturpado para mascarar a relação de exploração. Em sua participação em Brasília durante as audiências sobre o fim da escala 6x1, ela se posicionou contra as federações e sindicatos patronais, perguntando onde estavam os números que comprovavam a suposta inviabilidade econômica. Ela provocou ao afirmar que empresários não 'geram empregos' por bondade, mas sim que ganham dinheiro em troca da mão de obra, e que mesmo distribuindo salários mais altos, o lucro não é totalmente dividido.

O Futuro da Legislação e a Mensagem para os Trabalhadores

Segundo Isabela, as negociações em Brasília indicam que a PEC pelo fim da escala 6x1 tende a ser aprovada, com a previsão de 40 horas semanais e duas folgas. As discussões atuais se concentram no período de transição. Ela lamenta que muitos trabalhadores, comprando o discurso paternalista do patrão, defendam a escala contra seus próprios interesses, seja por medo de perder o emprego ou por falta de conhecimento. Sua mensagem final é de que as pessoas precisam ser vistas como seres humanos para além do trabalho, ecoando o movimento VAT (Vida Além do Trabalho). Ela aconselha que todos se relacionem com a arte de alguma forma, pois isso ajuda a lidar com a natureza muitas vezes 'chata' e conservadora do trabalho, que ainda não mudou sua essência das últimas décadas.