Introdução: Thaíse Leonarde e a Arte de Construir Pontes pela Comunicação
Neste episódio especial do podcast da Fran Francesque, recebemos uma profissional que tem transformado a maneira como líderes, empreendedores e marcas enxergam a comunicação e o posicionamento pessoal. Thaíse Leonarde é jornalista, especialista em comunicação e marcas pessoais, com mais de 12 anos de experiência em televisão e mais de 15.000 pessoas treinadas no Brasil e no exterior. Com um olhar único para presença, estratégia e autenticidade, Thaíse compartilhou sua jornada, os principais equívocos sobre comunicação e como desenvolver uma marca pessoal coerente e poderosa.
Da Timidez à Televisão: Os Primeiros Passos na Comunicação
Ao contrário do que muitos imaginam, Thaíse não sempre quis ser jornalista. A ideia veio de sua mãe, quando ela estava indecisa entre design gráfico e outra carreira. Ao refletir sobre a função do jornalista na sociedade — dar voz a pessoas, promover mudanças sociais, resolver problemas por meio da reportagem — ela encontrou sentido e coerência. Prestou vestibular e entrou na faculdade de jornalismo. O grande desafio, no entanto, era interno: Thaíse foi uma adolescente muito tímida, com dificuldade de falar em público e se expressar. A faculdade e o início da carreira foram um processo de romper barreiras, descobrir habilidades e desenvolver técnicas.
Ao final da graduação, ela passou em um programa de treinamento em uma afiliada da Globo e trabalhou durante 12 anos como repórter e apresentadora de TV, sendo extremamente feliz e realizada. Em determinado momento, sentiu necessidade de novos desafios, pois a carreira de jornalista já não lhe permitia o crescimento que sonhava. Foi então que migrou para o mercado corporativo, atuando como assessora de imprensa em uma multinacional do setor automotivo — uma experiência oposta ao jornalismo diário, mas que ampliou seu repertório.
O Nascimento da Empresa: De Jornalista a Mentora de Porta-Vozes
Paralelamente ao trabalho corporativo, Thaíse era professora no curso de jornalismo e na pós-graduação em rádio e TV. Essa vivência acendeu uma luz para a área de treinamento e desenvolvimento de pessoas. Em 2018, ela deixou o regime CLT para se tornar empresária, preparando porta-vozes para se comunicar e se posicionar com mais estratégia e assertividade. O que mais a surpreendeu foi perceber que o que a movia no jornalismo — a crença de que seu trabalho ajuda pessoas a dar voz ao que elas são e ocupar seu lugar no mundo — continuava sendo seu motor como empreendedora.
Hoje, Thaíse conduz processos de desenvolvimento de comunicação e marca pessoal, atendendo desde influenciadores e donos de grandes empresas até empreendedores iniciantes. Seu foco é trazer clareza: clareza da imagem que o profissional quer transmitir, clareza de quem ele é e do potencial que possui. Ela enfatiza que o diferencial não se cria, se identifica. Diferencial pode ser aquilo que você faz com extrema facilidade, sua trajetória única, ou a forma como você conecta assuntos e pessoas.
O Medo de Falar em Público e o Destrave para as Câmeras
Um dos pontos mais abordados nos processos de mentoria é o medo de se expor. Thaíse é categórica: comunicação é uma ação, desenvolve-se na prática. Não adianta ler livros ou assistir cursos; é preciso sair da zona de conforto, mesmo com frio na barriga. Técnicas ajudam, mas o fundamental é a ação contínua. Ela dá dicas práticas: prepare um roteiro (em tópicos, não palavra por palavra), entenda o contexto (uma câmera tem regras diferentes de um palco ou uma reunião), e assista aos seus próprios vídeos buscando elementos positivos e oportunidades de melhoria — não apenas os erros.
Outro conselho valioso é observar comunicadores que você admira, como Mário Sérgio Cortella (pela construção narrativa) ou Gabriela Prioli (pela expressividade em vídeo), não para copiá-los, mas para ampliar seu repertório de gestos, palavras e cenários. Thaíse também derruba um mito: não é errado ser introvertido. Introvertidos têm como grande ponto forte a habilidade de escuta, e criar conexão ouvindo é tão ou mais poderoso do que falar. Cada estilo de comunicação tem seus pontos fortes, e o importante é explorá-los.
Posicionamento, Coerência e a Mudança de Opinião
Thaíse aborda um tema delicado no mundo digital: mudança de posicionamento. Para ela, a evolução é intrínseca ao ser humano. Ninguém tem as mesmas opiniões e visão de mundo que tinha 5 anos atrás; se tem, é sinal de estagnação. Mudar de ideia é natural, desde que haja coerência e que a pessoa explique os motivos da mudança — uma nova experiência, um novo aprendizado, uma revisão de valores. O problema ocorre quando a mudança é brusca e oportunista, como quando um influenciador que vendia cursos de oratória de repente passa a vender cursos de finanças, sem qualquer bagagem na área. Isso fragiliza a marca pessoal e demonstra apenas oportunismo de mercado.
Religião, Fé e a Mercantilização da Crença
Outro ponto sensível é a relação entre fé e negócios. Thaíse defende que cada um tem sua crença, mas que mercantilizar a fé — usar a religião como ferramenta de venda — é antiético. Se a espiritualidade faz parte da base de valores do negócio, guiando escolhas, relacionamentos e a cultura da empresa, isso é coerente e respeitável. Diferente é usar frases como "Deus falou comigo" para lançar um produto ou curso, o que ela considera um desrespeito.
Posicionamento Político e os Riscos para a Marca Pessoal e Corporativa
Sobre política, Thaíse lembra que qualquer candidato de alta visibilidade é extremamente treinado, e é possível manipular a linguagem corporal para parecer confiável. Por isso, o melhor termômetro é observar a coerência entre o discurso e a prática, o histórico de ações da pessoa. Para empresários e porta-vozes de marca, ela alerta: ter um posicionamento político é uma escolha pessoal, mas é preciso estar ciente de que o efeito colateral de um posicionamento é não ser consenso. Além disso, ao falar em nome de uma marca (mesmo no perfil pessoal), suas palavras afetam a imagem do negócio. Portanto, antes de se posicionar, pergunte-se: qual é minha intenção? vale a pena comprar essa briga? qual o ônus e o bônus?
Influenciadores Internos vs. Externos: Estratégias para Marcas
Thaíse diferencia duas estratégias complementares. Desenvolver porta-vozes internos (colaboradores da empresa) fortalece a cultura organizacional e a marca empregadora, além de trazer credibilidade técnica. Contratar influenciadores externos ajuda a transferir a credibilidade deles para o negócio e a conectar a marca a novos públicos. O segredo é escolher influenciadores que reflitam os valores da marca, pois qualquer crise de imagem do influenciador afetará a marca associada. Thaíse cita Carla Simedo (Simed) como um exemplo admirável de influenciadora que consegue conectar outros influenciadores e contar histórias de forma consistente.
Por que Alguns Aprendem e Outros Ficam para Trás? A Importância da Abertura
Quando perguntada sobre o que diferencia quem evolui de quem estagna nos treinamentos, Thaíse é direta: abertura para aprendizado. Quem chega com o "copo cheio", pouco disposto a rever seus gaps, desenvolve menos do que quem está aberto a novas maneiras de se conectar. Ela observa que a maioria dos profissionais que treina já sabe se comunicar — senão não teriam chegado onde chegaram. A questão é: a comunicação atual te aproxima ou te afasta do seu próximo objetivo? Se a resposta for "afasta", é preciso abertura, humildade e disponibilidade para lapidar.
O Medo de Errar, a Autoconfiança e a Postura da Mulher Maravilha
Thaíse confessa que ainda convive com o medo de falar em público e de errar — e que esse medo é normal. O problema não é sentir medo, mas sim o que você faz diante dele: recua ou avança? Toda vez que avançou, ela descobriu que era mais capaz do que imaginava. Uma técnica que ela recomenda é a postura da Mulher Maravilha (mãos na cintura, peito aberto, postura de poder), mantida por 2 a 5 minutos por dia. Relatos mostram que isso aumenta a sensação de segurança e autoconfiança. No entanto, quando os traumas são profundos, o desenvolvimento da comunicação deve vir acompanhado de acompanhamento psicológico.
O ponto central é ouvir as vozes certas dentro da sua cabeça. Em vez de se sabotar com pensamentos como "e se eu errar?", Thaíse ensina a dizer a si mesmo: "Eu tenho anos de experiência, me preparei, domino o tema, tenho capacidade para me comunicar aqui". Não é um processo rápido, mas é um treino diário de autopercepção.
Arquétipos e Marcas Pessoais de Luxo: Nem Todo Mundo Pode Ser Tudo
Thaíse faz uma crítica construtiva ao mercado de desenvolvimento de marca pessoal. Ela vê profissionais oferecendo "marcas pessoais de luxo" ou trabalhando com arquétipos como se qualquer pessoa pudesse assumir qualquer papel. Sua visão é que nem todo mundo pode ser uma marca pessoal de luxo — não por falta de capacidade, mas porque as pessoas são diferentes. Você precisa ser e sustentar o que você projeta. Se o seu posicionamento é incoerente com seus valores e com quem você realmente é, você não conseguirá sustentá-lo. A autenticidade, para Thaíse, não é uma fórmula; é não ter vergonha de se expor, de suas fragilidades, e entender que você pode errar e mudar no meio do caminho.
O Legado de Thaíse: Viver uma Vida Fiel a Si Mesma
Inspirada pelo livro "A morte é um dia que vale a pena viver", Thaíse refletiu sobre os principais arrependimentos das pessoas na hora da morte. Um deles é não ter vivido uma vida fiel a si mesmo. Seu legado, portanto, não é ser uma referência na comunicação ou uma empresária extraordinária (embora ela busque isso também), mas sim olhar para trás e sentir que foi nota 8 em tudo o que importa: mãe nota 8, empresária nota 8, profissional nota 8, amiga nota 8, parceira nota 8. Ela não está disposta a pagar o preço de um 10 em uma única área (por exemplo, ser empresária nota 10 e mãe nota 6).
Thaíse não acredita que se possa "dar conta de tudo" perfeitamente. A vida é um equilíbrio dinâmico: em um dia você dá mais atenção ao trabalho, no outro à família, mas no cômputo geral, não se quer fugir. O objetivo não é uma vida extraordinária e utópica (ninguém é feliz 100% do tempo), mas uma vida da qual você não tem vontade de escapar. Esse é o legado que ela quer deixar para si e para seus filhos: a mensagem de que podemos ser tudo, atuar em múltiplas frentes e ir atrás dos nossos sonhos, desde que estejamos dispostos a pagar o preço que cada jornada exige.
Mensagem Final: Comunicação é Construir Pontes Ouvindo o Outro
Na pergunta final do novo quadro Francamente, Thaíse responde: o que as pessoas ainda não entenderam sobre comunicação? Para ela, as pessoas ainda não entenderam que comunicação não é apenas o ato de falar ou expressar uma ideia. Comunicação é a habilidade de criar pontes, e para isso, antes de falar, é preciso saber ouvir. Com as redes sociais, tornou-se fácil dar opinião e criticar, mas as pessoas estão perdendo a habilidade de ouvir pontos de vista diferentes. O crescimento só acontece quando entramos em contato com algo diferente do que já conhecemos. Portanto, o segredo da comunicação não está na eloquência ou na conversão em vendas, mas sim na capacidade de construir pontes — e isso começa com a escuta.