Introdução: Tete Conde e a Jornada da Administração ao Marketing de Moda
Neste episódio do podcast da Fran Francesque, recebemos Stephanie Conde, mais conhecida como Tete Conde, uma das mentes mais brilhantes e analíticas quando o assunto é negócios de moda. Tete Conde, ou apenas "TT" para os íntimos, é criadora de conteúdo, estrategista e fundadora da TT Academy, um espaço dedicado a discussões profundas sobre o mercado fashion. Nesta conversa, ela compartilhou sua fascinante trajetória, que começou com uma paixão silenciosa pela moda, passou pelo mundo corporativo e eventos, até se consolidar como uma das principais vozes na análise do mercado de luxo e suas complexidades. Abaixo, detalhamos os principais insights dessa entrevista essencial para quem quer entender a moda além das passarelas.
Das Revistas ao Mundo Corporativo: A Construção de um Olhar Analítico
Tete Conde sempre foi uma aficcionada por moda, consumindo revistas e sonhando com aquele universo, mas sem conseguir se enxergar nas profissões tradicionais do setor (como estilista ou compradora). Foi seu pai, administrador, quem a aconselhou a cursar Administração de Empresas, um curso que lhe daria a liberdade de transitar por diferentes indústrias. Ela seguiu o conselho e, durante a faculdade, teve uma aula de empreendedorismo que despertou nela o amor por estruturação, operação e empresas. A moda, nessa época, era apenas uma grande paixão de consumo — ela era uma "telespectadora", como define.
Sua carreira profissional começou cedo, aos 18 anos, e ela passou por diversas áreas: mercado financeiro, startups de tecnologia e, finalmente, marketing de experiência no setor de bebidas. Foi nessa última experiência, que durou 6 anos (de 2016 a 2021), que Tete construiu sua grande escola prática: eventos, marketing, construção de campanhas e ativações. Paralelamente, em 2018, ela realizou o sonho de abrir sua própria agência de marketing de experiência, atendendo bares, restaurantes e casas noturnas em São Paulo. O negócio prosperou em 2018 e 2019, mas a pandemia de 2020 o destruiu da noite para o dia.
A Virada Digital: Da Dor da Pandemia ao Nascimento de uma Criadora de Conteúdo
A pandemia foi um divisor de águas brutal. Tete, que havia negligenciado o digital por seu mercado ser essencialmente físico, viu-se forçada a se reinventar. Foi nesse momento que sua sobrinha, Isadora (da Geração Alpha, heavy user de redes sociais), deu um conselho que mudou tudo: "Por que você não explica no TikTok as coisas que você explica para mim?". Durante uma transmissão do Met Gala, Tete explicava para a sobrinha quem usava o quê, de qual marca, e por quê. Isadora viu ali uma oportunidade de ouro.
Sem saber nem clicar direito, Tete se sentindo "um dinossauro", foi atrás de tutoriais e começou a postar. Os primeiros vídeos eram ruins, mas, com consistência, ela foi encontrando sua voz e seu estilo. Ela confessa que o começo foi delicioso porque não havia pressão, polêmica ou estratégia definida — era um mar aberto de possibilidades. Esse conteúdo autêntico e profundo rapidamente se tornou seu cartão de visita, atraindo marcas que buscavam justamente a fluidez e o conhecimento que ela demonstrava ao falar de negócios de moda.
TT Academy: Unindo Negócios e Moda com Profundidade
A TT Academy surgiu como uma consequência natural do desejo de Tete de criar um lugar onde as pessoas pudessem consumir conteúdo profundo sobre negócios de moda. Sua formação em administração lhe dá a capacidade única de analisar balanços, relatórios de faturamento e movimentações estratégicas de marcas e conglomerados. Ela uniu o que amava (moda) com o que sabia fazer (análise de negócios), preenchendo uma lacuna no mercado: discussões superficiais sobre moda versus visão efetiva de negócio, valorização e movimentações.
Tete explica que a faculdade de administração lhe deu a base para entender relatórios complexos (como os do grupo Asics) e que, sem essa base, ela não teria a mesma capacidade analítica. O público, por sua vez, demonstrou grande interesse em entender o "porquê" das mudanças estratégicas no mundo da moda, não apenas o "o quê" está acontecendo. A TT Academy veio para suprir exatamente essa necessidade.
O Mercado de Luxo: Acessibilidade, Confiança e o Desafio das Novas Gerações
Ao analisar o mercado de luxo, Tete cita o economista Nassim Taleb: "Tudo o que vive por 50 anos é bem provável que continue vivendo por mais 50". O luxo sempre existirá, mas a forma como ele se apresenta mudou drasticamente. Antes, o luxo era sobre exclusividade física — você precisava estar na loja no momento certo para comprar a peça. Hoje, com a acessibilidade à informação (desfiles transmitidos ao vivo, cobertura imediata por criadores de conteúdo), todos sabem o que foi lançado, mesmo que não possam comprar. Isso dilui o senso de exclusividade.
Além disso, Tete aponta um problema crítico: a confiança nas marcas de luxo. Processos judiciais, más condições de trabalho, questões ambientais e práticas predatórias são amplamente divulgadas nas redes sociais. O consumidor atual sabe (ou pode facilmente descobrir) se uma blusa que custa caro foi produzida por mão de obra análoga à escravidão ou se os materiais são insustentáveis. As marcas de luxo, portanto, precisam lidar com a demanda por transparência, valores éticos e sustentabilidade para manter sua reputação.
O Desafio da Narrativa para as Novas Gerações
Tete faz uma analogia com o rock: a geração atual é a última a ver ícones como os Rolling Stones ao vivo. As novas gerações não vivenciaram a história de certas marcas (por exemplo, o auge de Gianni Versace). Elas conhecem o presente, mas não necessariamente a trajetória que consolidou aquele nome. O desafio para as marcas de luxo é reconstruir narrativas e encontrar formas de encantar os jovens, que não têm o mesmo apego histórico. No entanto, Tete acredita que o luxo sempre encontrará um jeito de criar desejo, ser inacessível e se posicionar como algo que poucos e bons sabem — seja através de um produto, uma história, um lugar ou uma experiência.
Marcas Nacionais, Experiência e os Desafios de Empreender Moda no Brasil
Tete ressalta que, hoje, não basta ter um bom produto ou uma boa experiência — é preciso ter ambos, além de uma distribuição eficiente e presença em redes sociais. Ela cita marcas nacionais como Pace (streetwear) e Iron da Misci como exemplos que fazem um trabalho brilhante em múltiplas frentes. Também elogia Francesca Monfreinat e Sasha Meneghel (com sua marca de praia) por entregarem moda contemporânea com qualidade altíssima e precificação justa, além de forte storytelling.
No entanto, empreender moda no Brasil é extremamente desafiador. Entre os obstáculos listados por Tete estão: a volatilidade econômica, as altíssimas taxas de juros (que dificultam o crédito), a necessidade de capital de giro e reserva emergencial, a dependência de importação (o país não é autossuficiente em muitos insumos) e a dificuldade de precificar uma moda autoral para um nicho que veja valor. Apesar disso, ela reconhece a riqueza da mão de obra especializada brasileira, do Sul ao Norte do país.
A Chegada da H&M ao Brasil: Uma Análise Estratégica
Tete faz uma análise detalhada e realista sobre a chegada da H&M (que ela prefere chamar de "HM" por estar no Brasil) ao país. Diferente do que muitos imaginam, ela não acredita que a marca virá com os mesmos preços e estratégias da Europa. O primeiro e mais importante ponto é a precificação. Uma regata de algodão que custa €10 na Espanha não pode custar R$190 no Brasil sem perder sua estratégia de posicionamento. Por isso, Tete acredita que a H&M trará três categorias de produto: uma linha mais básica (porém com preço ajustado), sua linha principal (com marcas e acessórios) e algumas linhas mais caras, mas provavelmente não as grandes colaborações que faz lá fora, pois os preços se tornariam proibitivos.
Outro ponto crítico é a praça (distribuição). Para ser competitiva no Brasil, a H&M precisaria abrir cerca de 100 lojas, não apenas 4. Ela terá que competir com players sólidos e estabelecidos há décadas, como a Renner (maior grupo varejista do país, com lucro líquido aumentando 151%), a Zara (que já está no país há mais de 30 anos e conhece todas as nuances do mercado) e a Riachuelo (grupo Guararapes, também em expansão). Tete aponta, no entanto, uma possível vantagem competitiva da H&M: se ela adotar o Pix e o parcelamento (práticas culturais brasileiras), poderá se diferenciar da Zara, que ainda não oferece Pix em loja. Ela estima que a H&M levará cerca de 5 anos testando o país antes de se consolidar.
A Guerra Chinesa, a Falsificação e o Consumo Desenfreado
Tete aborda a complexa questão da produção na China e do mercado de falsificação (dupes). Com a globalização, a China se tornou o epicentro mundial da produção têxtil, dominando a tecnologia e a escala. Isso significa que as próprias fábricas que produzem para grandes marcas têm a capacidade de produzir cópias de altíssima qualidade (como as polêmicas bolsas "qualidade Hermès" que circulam). O consumidor, então, se vê diante de um dilema: comprar a peça original pelo preço cheio ou adquirir uma cópia quase idêntica por uma fração do valor, ignorando as questões trabalhistas, ambientais e de compliance.
Tete menciona o documentário "Abismo do Consumo" e acredita que a solução virá, em parte, de leis soberanas dos governos. Ela cita o exemplo da França, sob Macron, que proibiu a destruição de estoques por marcas de fast fashion, aumentou tarifas para produtos importados e restringiu a publicidade do setor. Essas medidas, ainda que insuficientes, começam a remodelar os modelos de negócio. Tete também destaca a diferença entre o consumidor europeu (com mentalidade distinta) e o consumidor brasileiro, que ela classifica como muito consumista, ativo em redes sociais e carente de uma educação mais estruturada sobre valores e sustentabilidade. O Brasil é um país de "vários Brasis", e a conscientização ainda é um longo caminho a percorrer.
Sustentabilidade e Cases de Sucesso: Renner e a Luta Contra o Tempo
Tete elogia a Renner como um case de sucesso brasileiro. A varejista foi a primeira a publicar um relatório de resultados com valores efetivos de sustentabilidade, um ato histórico. Ela também tem estratégias inteligentes, como as coleções com Roberto Cavalli (democratizando o luxo) e o merchandising com artistas (educando o mercado). Tete observa que a Renner é uma das empresas mais saudáveis da bolsa e investe pesadamente em tecnologia e inovação, inclusive em inteligência artificial, sem esperar que concorrentes estrangeiros a obriguem a se mexer. No entanto, ela pondera que processos sustentáveis no Brasil ainda são caros e, muitas vezes, inviáveis para pequenas marcas, tornando a sustentabilidade, por enquanto, um atributo de luxo.
A Síndrome do Brasileiro e a Importância da Análise Crítica
Fran pergunta sobre a tendência brasileira de "torcer contra" marcas e empreendimentos nacionais, citando o caso da Ala (marca que enfrentou críticas por preços altos). Tete atribui esse comportamento à história de colonização, que criou uma autoestima nacional baixa e uma tendência a supervalorizar o que vem de fora. No entanto, ela acredita que as redes sociais estão ajudando a equilibrar essa balança, permitindo análises mais ponderadas. Tete também critica o hábito de falar mal para criar engajamento (como apontado por Camila Coutinho), alertando que é fácil criticar sem conhecer todas as variáveis de negócio, risco e tomada de decisão que envolvem a gestão de uma marca.
Mensagem Final: Consistência, Propósito e a Coragem de Mudar
Para encerrar, Tete deixa uma mensagem poderosa e pessoal. Ela relembra sua própria jornada: por dois anos, ela tratou a influência digital como seu "terceiro trabalho", regando uma planta que não dava sinais de florescer. Até que, um dia, depois de muita consistência e disciplina, a planta floresceu. Seu conselho é: você pode mudar sua vida sempre que quiser. Se o trem está indo para o caminho errado, desça o quanto antes. Faça o que você realmente ama, porque quando você tem propósito, o sucesso é consequência. Tete finaliza dizendo que está apenas no começo de sua jornada, mas que nunca se sentiu tão realizada.