1. A Fundação do Guarani Horizonte Azul: 25 Anos de História e Paixão pelo Neto
O Guarani Horizonte Azul é um time que respira tradição no bairro da Vila Calu e adjacências. Sua história começou antes mesmo da fundação oficial, vindo de uma dissidência do União Futebol Clube do Horizonte Azul, comandado por seu Zé. Após problemas pessoais e médicos do antigo dono, o time estava prestes a acabar. Foi então que Fera, na época jogador do União, se uniu a outros entusiastas, incluindo um tal de Barriga e o jogador Isaac, para criar uma nova agremiação. O nome Guarani foi uma homenagem direta do Barriga, que era fã confesso do ídolo Neto, ex-jogador do Guarani e atual comentarista de TV. A paixão pelo clube campineiro e pela resenha do Neto falou mais alto na escolha.
O clube foi formalmente consubstanciado em 26 de junho de 2002, embora as atividades como time de verdade, saindo do âmbito da resenha de final de semana com churrasco, tenham começado efetivamente em 2004. Fera, que é o último remanescente da geração original (todos os outros fundadores se afastaram), assumiu o posto de técnico para não deixar o time acabar. Hoje, com 25 anos de história (contando desde 2001), o Guarani é um símbolo de resistência na várzea paulista, tendo se modernizado com a criação de categorias de base (sub-15, sub-17, sub-20) e mantendo um time principal competitivo.
2. Isaac e Pocoyu: A Chegada dos Craques e a Rivalidade Sadia
O elenco do Guarani é formado por jogadores que se destacam pela qualidade e pela história de como chegaram ao clube. Isaac, um meia-atacante versátil, foi descoberto por Fera em um campo próximo à quebrada, na Vila Calu. Fera ficou admirado com o futebol "diferente" do garoto e o convidou para um teste. Isaac conta que o teste "enrolou", enrolou, até que finalmente aconteceu. Hoje, com 6 anos de casa, Isaac é um dos pilares do time, sendo descrito por Fera como um jogador que "não fica no meio parado", atuando como armador e também recompondo para marcar. Apesar de jogar por vários times, Isaac garante que sua prioridade sempre é o Guarani.
Já Pocoyu (Nicolas), o ponta canhota e driblador, tem uma história de chegada mais rocambolesca. Convidado por um amigo (Jefinhão) para jogar no Guarani, Pocoyu acabou "furando" o time de última hora para jogar pelo VN, time rival da quebrada. Na partida entre VN e Guarani, ele marcou um gol e deu uma assistência, gerando o empate. Fera, que estava do outro lado, ficou impressionado e decidiu que, em vez de continuar reforçando o rival, era melhor tê-lo no próprio time. Após uma nova chance na Copa da Macaca (onde foi campeão), Pocoyu se firmou e nunca mais saiu. Hoje, a zoeira sobre a "traição" inicial faz parte da resenha, mas o talento e a dedicação do garoto são indiscutíveis.
3. A Filosofia de Fera: Competitividade, Disciplina e a Regra de Ouro
O técnico Fera é conhecido por sua personalidade forte e competitividade extrema. Ele mesmo se define como um cara que "não gosta de perder nem no par ou ímpar". Sua filosofia é clara: só joga campeonatos, nada de amistosos ou festivais, pois ele não suporta a moleza e a brincadeira excessiva dessas partidas. Para ele, o jogo é para ganhar, e ponto final. Essa rigidez, no entanto, é equilibrada por um lado humano impressionante. Fera se considera um "paizão" para os atletas, e sua principal regra é resumida na frase: "O que você faz aqui dentro, você tem que fazer lá fora". Ele prega que não adianta ser um grande jogador no campo e uma má pessoa na vida.
Um dos maiores desafios apontados por Fera é a inflação da várzea. Ele observa que hoje muitos jogadores preferem atuar na várzea, ganhando valores significativos (até R$ 5.000 por jogo), a jogar na terceira divisão do profissional, que exige treinos diários. Isso torna difícil para times de bairro, como o Guarani (que não paga seus atletas), segurarem seus talentos. Fera, no entanto, não é contra o pagamento; ele apenas não tem condições de fazê-lo e respeita os jogadores que buscam seu sustento. Sua gestão é baseada no acolhimento e na honestidade: ele não escala ninguém por favor, mas sim por merecimento. A famosa frase "O jogador se escala" é um mantra no vestiário.
4. O Trabalho Social e o Resgate de Jovens: Mais que Futebol, uma Família
O Guarani Horizonte Azul transcende o futebol. Para Fera, a missão mais importante é tirar os jovens do caminho errado, das drogas e da cachaça. Ele se emociona ao falar sobre os atletas que foram resgatados pelo projeto. Um exemplo citado (sem revelar nomes) é o de um jogador que havia sido preso e, através do Guarani, conseguiu um emprego, evoluiu profissionalmente e hoje vive de forma digna, sendo um exemplo de superação. Outro caso doloroso foi o do jogador Alanzinho, um craque de apenas 21 anos que teve a carreira comprometida por um acidente de moto enquanto estava sob efeito de bebida. Fera conta que deu conselhos, mandou mensagens, mas o jovem só entendeu a gravidade quando o pior aconteceu. O recado de Fera é duro, mas real: "Bebida não leva ninguém a nada".
O próprio Isaac é um exemplo de retidão dentro do grupo. Criado na igreja evangélica, ele nunca se envolveu com baladas, bebidas ou festas. Ele define amizade verdadeira como aquela que apoia e corrige, não aquela que leva para a prostituição ou para as drogas. Fera também cita o próprio filho como um exemplo de alerta: o jovem, que era um craque de bola, parou de jogar por causa do vício em andar de moto e baladas. Hoje, felizmente, está retornando ao futebol. A mensagem final de Fera é de que "quem é bom anda com bom, ruim anda com ruim", e ele faz questão de rodear os jovens de sua comunidade com boas influências, sendo ele mesmo o principal espelho.
5. Títulos que Valem Mais que Dinheiro: A Copa da Macaca e a Emoção dos Pênaltis
Fera acumula títulos em sua carreira, mas dois são particularmente marcantes: as duas conquistas da Copa da Macaca (categorias sub-20 e principal) e a Copa Libertadores da Várzea. Ele, no entanto, enfatiza que o valor de um título não está no prêmio em dinheiro, mas na história por trás dele. Um exemplo emblemático foi o título da Copa da Macaca sub-18, onde o Guarani vencia por 2 a 0, levou a virada para 2 a 3, e, faltando 5 minutos para o fim, conseguiu empatar e vencer nos pênaltis. A estratégia de Fera foi crucial: ele colocou em campo um garoto mais alto (Pedro) para mudar o estilo de jogo, partindo para a bola aérea. A primeira bola na área resultou em gol.
Isaac, por sua vez, viveu a montanha-russa emocional de errar um pênalti decisivo nas quartas de final da Copa da Macaca. Ele relata que foi um momento de profunda tristeza, onde quis até se afastar do time. Mais recentemente, na semifinal dos Jogos da Cidade, o Guarani foi eliminado nos pênaltis, com Isaac sendo um dos responsáveis pela cobrança perdida. Dessa vez, a tristeza foi coletiva: todo o vestiário caiu em lágrimas, dos mais novos aos mais experientes, porque o sonho de jogar no Pacaembu estava a apenas uma cobrança de distância. Para Fera, o importante é não jogar a culpa nos jogadores — afinal, "só erra quem cobra". E a lição fica: o time, formado majoritariamente por garotos de 18 anos, ganhou casca e experiência para as próximas batalhas.
6. A Evolução da Várzea e os Desafios Financeiros: Entre o Profissionalismo e a Essência
Fera observa com lentes críticas a evolução da várzea paulista. Se por um lado ele reconhece o lado positivo — a estrutura melhor, a visibilidade, os jogadores conseguindo sustento — por outro ele lamenta a perda da essência. Ele afirma que hoje é praticamente impossível montar um time apenas com amigos, com o trabalhador comum, o "cara gordinho" que joga por lazer. A várzea se tornou um negócio caro, com jogadores recebendo cifras que, em alguns casos, superam as das divisões de acesso do futebol profissional. O Guarani, sendo um time de quebrada que não remunera seus atletas, sofre para competir com clubes que têm poder aquisitivo.
O principal desafio financeiro, no entanto, é realizar o sonho de disputar competições de maior porte, como uma Copa São Paulo de Futebol Júnior ou campeonatos profissionais de base. Fera revela que tem um elenco de 50 atletas, com qualidade para voos mais altos, mas esbarra na falta de patrocínio. Os custos de inscrição, arbitragem, transporte e estrutura são altos, e o time sobrevive à base de amor e do próprio bolso de Fera, que tira dinheiro da família para investir no clube, com retorno zero financeiro. O retorno emocional, no entanto, é o que o mantém firme. Ele reitera que, se fosse pelo dinheiro, já teria parado, pois já ganhou todos os campeonatos possíveis em sua região.
7. A Resenha e os Perrengues: Celular Queimado e a Zueira no Vestiário
Apesar da seriedade dentro de campo, o Guarani também tem seu lado leve e descontraído. Pocoyu, o ponta de 19 anos, é apontado como o grande "resenheiro" do grupo. Ele conta, aos risos, de uma noite de comemoração após passar das oitavas para as quartas de final da Copa da Macaca. Na ocasião, ele pegou um copo d'água e o derrubou propositalmente no celular do Fera, queimando o aparelho do técnico. Depois, o time foi para a piscina, e Pocoyu admite, rindo, que não lembra nem como chegou em casa — apesar de jurar que não bebe. Há vídeos dele dançando que comprovam a algazarra.
Essa dualidade entre o profissionalismo e a resenha é bem administrada por Fera. Dentro de campo e no vestiário antes do jogo, ele é durão, briga, xinga e exige foco. Acabou o jogo — mesmo com derrota — ele é o primeiro a dizer: "Vamos para lá, já foi, já era". Para Fera, a essência do futebol de várzea está no pós-jogo: o churrasco, a cerveja (para quem bebe) e a confraternização. Ele lamenta que, atualmente, muitos jogadores saem de um jogo direto para outro compromisso em outro time, fragmentando a união do grupo. Mas, quando o Guarani se reúne, a resenha é garantida.
8. O Sonho Interrompido: A Eliminação nos Pênaltis e o Futuro
A participação do Guarani nos Jogos da Cidade terminou de forma dolorosa: eliminação nos pênaltis na semifinal, com o sonho de jogar no Pacaembu escapando por detalhes. Fera revela que a equipe entrou na competição com um objetivo claro: chegar ao estádio, independentemente de premiação. Eles venceram, lutaram, mas sucumbiram na disputa de penalidades. Isaac, que havia errado um pênalti crucial na Copa da Macaca, novamente viu sua cobrança ser defendida, sendo um dos últimos a bater. Fera faz questão de proteger seus atletas: "Não vou jogar a culpa em dois caras. Eles estão mais mal que eu".
Apesar da frustração, a avaliação é positiva. O Guarani levou uma equipe jovem (média de 18 anos) e bateu de frente com times experientes. Para Fera, a derrota serve como um "choque de realidade" e um aprendizado. Agora, o foco se volta para o futuro: o técnico quer disputar competições profissionais de base em 2025/2026 e continua em busca de patrocínios para estruturar ainda mais o clube. O recado final, estampado na camisa que presentearam o apresentador, é de gratidão e de esperança. O Guarani Horizonte Azul, através do Instagram @guerreirosdatribo2002_, segue firme na luta, provando que o futebol de várzea é, acima de tudo, uma ferramenta de transformação social.