Lições de liderança em crises: O que os empresários podem aprender com quem lidera situações extremas
Neste episódio do Tomorrow Talks, os apresentadores João Pedro Moraes e Bruno Bétega conversam com o Capitão Roberto Farina Filho, da Polícia Militar do Estado de São Paulo, que construiu sua trajetória atuando em liderança operacional, gestão de crises e defesa civil. Com formação em direito, ciências policiais e mestrado em administração de empresas, além de passagens por Harvard e Ohio University, Roberto conecta as lições da segurança pública ao universo da liderança e dos negócios.
A conversa aborda temas como tomada de decisão sob pressão, gestão de crises, inteligência emocional, prevenção e a importância de construir repertório para lidar com o imprevisível.
Pressão em dois mundos: vida e finanças
Roberto destaca que, embora o mundo público e o privado tenham peculiaridades distintas, ambos compartilham um elemento comum: a pressão constante. No setor público, o desafio é existencial – colocar a vida em risco para proteger outros. No setor privado, a pressão é financeira – sobreviver em um ambiente de beligerância comercial, lidando com clientes, funcionários, leis e concorrência.
“No final, qual é a congruência disso? Pressão, gestão de crise, porque toda hora acontece crise, seja no público, seja no privado. Ela é uma certeza.” Ele observa que tanto a perda de um cliente quanto uma tragédia natural exigem uma resposta rápida e estruturada. A diferença está no tipo de ameaça: física ou financeira, mas ambas exigem liderança e capacidade de decisão.
O repertório como base da tomada de decisão
Roberto explica que a tomada de decisão em crises depende de um equilíbrio entre informação e tempo. Quanto menos tempo disponível, menos informação se tem; e vice-versa. A chave para acertar está no repertório anterior – o acúmulo de experiências, estudos e referências que permitem ao líder identificar padrões e aplicar soluções já testadas.
“O cara mais experiente já passou por tantas situações que ele tem uma biblioteca. Ele vai olhar a situação e encaixar: esse é o cenário dois, esse é o cenário cinco.” Ele reforça que a educação continuada e o treinamento são fundamentais para construir autoconfiança e ampliar esse repertório. “Quanto mais você estuda, mais você se aperfeiçoa, mais você se coloca em situações simuladas, mais conexões neurais você cria para quando estiver numa crise, conseguir raciocinar com alternativas.”
A crise real: a tragédia do Rio Grande do Sul
Roberto compartilha uma experiência prática vivida durante a tragédia do Rio Grande do Sul, em abril de 2024. Ele foi acionado para liderar uma equipe de apoio na cidade de Lajeado, mas ao chegar, a rodovia federal já estava inundada. Sem comunicação, sem GPS e sem referências locais, ele e sua equipe precisaram tomar decisões no escuro.
Os três pilares que guiaram sua atuação foram:
- Não se tornar vítima: preservar a segurança da equipe.
- Ajudar as pessoas: agir dentro do propósito da Defesa Civil.
- Atuar dentro da especialidade: utilizar a expertise em monitoramento de níveis de água para evacuar áreas de risco.
Essa experiência ilustra como princípios claros e a capacidade de adaptação são essenciais em cenários de alta imprevisibilidade. Ele destaca que, em momentos de crise, o líder não pode se colocar como vítima nem assumir riscos que comprometam toda a equipe.
Gabinete de crise: centralização de dados e comando
Roberto explica o conceito de gabinete de crise como a centralização de dados e informações para a tomada de decisão. Em Estrela (RS), a montagem desse gabinete melhorou em 100% a gestão local e permitiu criar o primeiro corredor de ajuda humanitária do estado, com logística aérea e terrestre.
“O gestor tomador de decisão às vezes não tem consciência situacional. Ele tem uma informação X, mas ela não é a correta, ou ele não tem nenhuma informação.” Essa falta de visibilidade é um problema também no mundo corporativo, onde o dono da empresa muitas vezes desconhece o que acontece na ponta da linha. O gabinete de crise, portanto, é uma ferramenta para alinhar percepção e ação.
Inteligência emocional: o diferencial que vale mais do que conhecimento técnico
Roberto considera a inteligência emocional o principal aprendizado de sua carreira policial. Ele relata que, em suas viagens ao Vale do Silício, conheceu profissionais com formações brilhantes (Stanford, MIT, Harvard), mas que perdiam tudo por não conseguirem gerenciar suas emoções em decisões de sociedade ou conflitos internos.
“A polícia me proporcionou uma boa bagagem. Esse é o meu diferencial.” Ele também cita uma fala do professor Bruce Patton, de Harvard: o grande problema dos alunos de Harvard é que eles nunca se frustraram. Tecnicamente sempre foram os melhores, mas ao chegar ao mundo corporativo, enfrentam política, pressão e frustração – e muitas vezes quebram.
Roberto associa inteligência emocional à humildade, definida não como fraqueza, mas como a capacidade de pedir ajuda, ouvir e estar aberto a mudar. “Humildade é saber pedir ajuda. Quando você está aberto a mudar, você está exercitando a humildade.” Ele enfatiza que a decisão final é do líder, mas ele deve buscar informações e opiniões para embasar sua escolha.
Prevenção e a cultura do “apagar incêndio”
Roberto critica a cultura brasileira de não se antecipar. No Brasil, tanto no setor público quanto no privado, a tendência é apagar incêndios em vez de preveni-los. Ele exemplifica com a reforma tributária: muitos empresários estão protelando decisões e ajustes, ignorando o impacto que isso terá no futuro.
Na Defesa Civil, ele ajudou a implementar uma estratégia de comunicação preventiva que investiu milhões em campanhas de utilidade pública – algo inédito no estado. Uma das ações de maior sucesso foi um vídeo sobre como sair de um carro eletrizado por um fio de alta tensão, que viralizou e foi veiculado no Jornal Nacional e no Fantástico. Essas campanhas ajudaram a desenvolver a percepção de risco da população, reduzindo mortes por enxurradas e quedas de árvores.
“O brasileiro trabalha para amanhã no máximo. Se tiver uma crise, ele paga o boleto de hoje, mas não planeja o próximo mês.” Ele menciona que a pandemia quebrou muitas empresas justamente por falta de fluxo de caixa e reserva financeira.
A síndrome da adrenalina e a adaptação ao novo ritmo
Roberto explica como a exposição prolongada a situações de risco altera a química do corpo, gerando dependência de adrenalina e dopamina. Policiais que atuam na linha de frente podem inverter o instinto de sobrevivência – em vez de fugir do perigo, vão em direção a ele. Essa descarga hormonal torna o profissional mais produtivo em crises, mas pode causar estranhamento em momentos de calma.
Ele mesmo passou por esse processo ao migrar para a área administrativa. Para ressignificar sua rotina, adotou uma postura de workaholic, assumindo múltiplas funções e prazos curtos para simular a pressão da operação. Hoje, com 38 anos, busca equilibrar essa energia com limites mais claros, tanto na liderança quanto na vida pessoal.
“Você pode ser pacífico, mas não pode ser passivo.” Ele aprendeu que, como líder, precisa definir limites e cobrar entregas, sem perder a humanidade. Essa é uma das adaptações mais recentes em sua trajetória.
O técnico de futebol como metáfora da liderança sob pressão
Roberto declara sua admiração pelos técnicos de futebol, que atuam em um ambiente de pressão extrema, com pouco tempo para resultados e nem sempre com controle total sobre o elenco. “O cara tem um curto espaço de tempo para mostrar a cara dele, só que ele nem tem liderança e autoridade sobre aquele time necessariamente. O jogador já está lá há 3, 4, 5 anos, e talvez nunca estaria no time que ele montaria.”
Essa metáfora reflete a realidade de muitos gestores e empresários: liderar com os recursos disponíveis, sob constante avaliação e com prazos curtos. A capacidade de gerir pessoas e expectativas em meio à pressão é o que separa os líderes que prosperam dos que são substituídos.
Onde encontrar Roberto Farina Filho
Roberto atua como consultor e trainer na área de segurança e desenvolvimento pessoal, com foco em NR1 (saúde mental) e treinamentos para equipes. Ele pode ser encontrado no Instagram (@treinamentosox) e no site www.neoex.com.br. Ele também possui um perfil ativo no TikTok, onde compartilha conteúdos sobre liderança, gestão de crises e segurança.
O episódio termina com a entrega de brindes personalizados e um agradecimento pela participação. Fica a mensagem central: crise é certeza, preparo é escolha, e a inteligência emocional é o ativo mais valioso de um líder.