A Revolução da Neuroarquitetura no Setor Funerário: O Legado de Crisa Santos
No episódio 019 do aclamado podcast Papo Funerário, apresentado por Aline Araújo e Alexandre Guimarães, os ouvintes foram presenteados com uma verdadeira aula magna sobre empatia, espaço e memória. A convidada da vez foi Crisa Santos, uma renomada arquiteta, paisagista e urbanista que vem revolucionando a forma como enxergamos e vivenciamos os espaços de luto no Brasil e no mundo. O bate-papo aprofundou temas fascinantes como neuroarquitetura, biofilia, ancestralidade e o profundo sentimento de pertencimento que um espaço físico adequado pode gerar em um momento de extrema fragilidade emocional.
Da Arquitetura Industrial ao Setor do Luto: Uma Trajetória Inusitada
Crisa Santos possui uma formação única e abrangente que engloba arquitetura, paisagismo e urbanismo. No entanto, sua entrada no setor funerário não foi algo planejado desde o início. A arquiteta começou sua carreira desenvolvendo projetos pesados e altamente técnicos, como retrofits em chão de fábrica e cozinhas industriais. Esses ambientes "hards", como ela mesma define, proporcionaram uma vivência intensa e um retorno (feedback) muito direto e honesto dos usuários do espaço – os operários que passavam madrugadas trabalhando naquelas instalações.
Posteriormente, Crisa migrou para o setor residencial, atendendo a pedidos de amigos e familiares para projetar apartamentos e casas. Contudo, ela confessa que essa área nunca arrebatou seu coração por completo. O que a movia era o espaço público, o contato com grandes grupos de pessoas e a capacidade de entender como uma multidão interage e é afetada pela arquitetura. Foi esse desejo por impacto coletivo que pavimentou o caminho para a maior virada de sua carreira.
O Ponto de Virada: O Desafio de Projetar um Cemitério
A grande transformação ocorreu há cerca de 15 anos, em meados de 2010, quando Crisa recebeu um convite inusitado do Memorial Parque das Cerejeiras para realizar uma requalificação espacial. Acostumada a mergulhar de cabeça em novos desafios, ela aceitou a proposta, mas logo se deparou com um obstáculo: a falta de referências globais que a inspirassem.
Ao buscar projetos de cemitérios pelo mundo, ela encontrou grandes obras e cemitérios históricos belíssimos, mas sentiu que faltava algo que realmente tocasse a alma humana. A estética pela estética não era suficiente. Crisa queria entender como o espaço físico poderia acolher a dor. Para isso, ela tomou uma atitude brilhante: foi estudar com profissionais de cuidados paliativos (médicos e geriatras que lidam com pacientes em fim de vida), além de mergulhar na psicologia, neurociência e comportamento humano. O objetivo era claro: entender profundamente quem é o enlutado, o verdadeiro protagonista e usuário do cemitério.
O Que é Neuroarquitetura e Biofilia?
Durante a entrevista, Alexandre Guimarães pediu que Crisa explicasse de forma didática o que é a neuroarquitetura. Em termos simples, a neuroarquitetura é o estudo de como o ambiente físico afeta o funcionamento do cérebro e, consequentemente, as emoções, o humor e o comportamento das pessoas.
Um ambiente pode ser opressivo, frio e causar repulsa, ou pode ser amplo, iluminado e gerar a sensação de um abraço. No setor do luto, a neuroarquitetura é utilizada para criar gatilhos mentais positivos. Crisa projeta espaços pensando exatamente no que o enlutado vai sentir ao caminhar por eles, buscando amenizar o choque da perda e oferecer conforto psicológico.
Aliada à neuroarquitetura está a biofilia, que é a nossa conexão inata e biológica com a natureza. Crisa explica que nós, seres humanos, evoluímos durante milhões de anos em meio a florestas e cavernas. Para que o enlutado entenda o luto como parte de um ciclo contínuo e natural da vida, o paisagismo não pode ser artificial. Um paisagismo efetivo e curativo é aquele que respeita a flora local. Não se deve forçar plantas do Cerrado em uma área de Mata Atlântica apenas por estética, e muito menos utilizar "topiaria" (aquelas plantas podadas em formatos geométricos ou de animais). O enlutado já está sofrendo uma "poda" drástica em sua vida com a perda de um ente querido; o ambiente ao seu redor precisa transmitir naturalidade, fluidez e liberdade, não restrição e controle artificial.
A Importância dos Espaços de Transição
Uma das assinaturas dos projetos de Crisa Santos é a atenção meticulosa aos espaços de transição. Mas o que são eles? São as áreas de passagem entre um local e outro, como o caminho entre a sala de velório e o jazigo, ou o corredor que liga o velário a um banheiro ou cafeteria.
Muitas vezes negligenciados, esses espaços vazios são fundamentais na jornada do luto. É durante a caminhada por um espaço de transição que o enlutado tem a oportunidade de "respirar", de sair do foco de atenção das outras pessoas, de chorar sozinho ou de simplesmente descompressar. Se o caminho entre a sala de velório (um ambiente de tensão extrema) e o túmulo for apenas uma rua asfaltada sem vida, o cérebro não processa a mudança de estado. Quando Crisa introduz caminhos sinuosos, arborizados, com arte e sons da natureza, ela cria novas sinapses cerebrais, ajudando a pessoa a lidar melhor com a depressão e o sofrimento do momento.
A Prova do Sucesso: A História do "Banheiro Quentinho"
Para ilustrar como o seu trabalho impacta a vida real, Crisa compartilhou uma história emocionante e curiosa. Ela tem o hábito de entrar nas cabines dos banheiros dos cemitérios que projeta e ficar em silêncio, apenas escutando o que as pessoas dizem, pois acredita que ali encontra as avaliações mais sinceras de seu trabalho.
Recentemente, em um dia extremamente frio em São Paulo, com os termômetros marcando cerca de 5 graus, ela estava no banheiro do Memorial Parque das Cerejeiras quando duas senhoras entraram. Uma delas comentou com alívio: "Gente, esse banheiro é quentinho!". Elas passaram a discutir como é horrível a sensação de ir a um banheiro de cemitério e sentir aquele frio cortante, que parece intensificar a frieza da própria morte e do luto. O simples fato de Crisa ter projetado janelas e revestimentos que garantissem o conforto térmico proporcionou um acolhimento gigantesco àquelas mulheres. A arquitetura abraçou as enlutadas através da temperatura do ambiente.
Quem Cuida de Quem Cuida? A Atenção aos Colaboradores
Um ponto alto da entrevista foi a ênfase de Crisa na importância dos espaços destinados aos funcionários dos cemitérios. De nada adianta um cemitério ser belíssimo, com salas de velório suntuosas e jazigos perfeitos, se a área de descanso dos funcionários for insalubre ou deprimente.
Crisa defende que os colaboradores são as engrenagens que fazem a estrutura funcionar. São eles que lidam com a dor alheia todos os dias. Se a equipe não estiver bem, se não tiver um ambiente de trabalho que ofereça um "respiro" digno, o atendimento prestado às famílias enlutadas não será acolhedor. O cuidado com o cliente final começa, obrigatoriamente, pelo cuidado arquitetônico e humano com o colaborador.
Os "Enlutadinhos" e a Necessidade de Inclusão
O luto não atinge apenas os adultos. As crianças também perdem entes queridos e também observam profundamente os espaços. Crisa carinhosamente os chama de "enlutadinhos".
Ela contou a história de um menino de 8 anos que estava subindo em um local inadequado no cemitério. Ao orientá-lo a descer por segurança, o menino imediatamente apontou para o espaço e disse: "Olha, está faltando aquilo que estava ali". Mesmo sendo tão jovem, ele notou uma mudança sutil no ambiente. Isso provou para a arquiteta que as crianças são clientes extremamente exigentes e observadoras. A arquitetura funerária precisa ser inclusiva e pensar nas memórias que estão sendo formadas na mente dos pequenos durante o processo de despedida.
Arte Que Toca a Alma: Os Casos do Jardim da Saudade e do Memorial Infinito
O podcast também destacou duas das obras mais icônicas da carreira de Crisa Santos, que exemplificam a fusão entre arte, emoção e arquitetura:
- Jardim da Saudade (Curitiba): O cemitério possuía um trecho de passagem que parecia não ter propósito. Os enlutados ficavam parados ali, sem rumo. Crisa e sua equipe projetaram uma gigantesca escultura de aço de 60 metros de comprimento por 4 metros de altura, com recortes vazados que mostravam silhuetas do dia a dia (como uma mãe colocando o filho para dormir). A obra transformou um espaço vazio no maior memorial interativo do local, onde as pessoas hoje tiram fotos e ressignificam a saudade através da arte.
- Memorial Infinito (Cemitério da Penitência - RJ): Projetado de forma voluntária nos primeiros dias da pandemia de COVID-19, o projeto foi abraçado pelo visionário Júnior Brenner. Construído em tempo recorde de 21 dias com chapas de metal onduladas, ele se tornou um marco. A prova definitiva do poder dessa obra ocorreu quando Crisa observou um casal de idosos interagindo com a escultura. A mulher passava as mãos pelas curvas do metal e comentou com o marido: "Nossa, isso aqui é o sobe e desce da vida". Quando Crisa se aproximou para agradecer a percepção perfeita, descobriu que a senhora era cega. A arquitetura conseguiu transmitir a complexidade da vida através do puro sentido do tato.
Inclusão Religiosa e a Ancestralidade
Outro tema de extrema relevância abordado foi a necessidade de espaços inclusivos para todas as matrizes religiosas. Crisa pontuou que, historicamente, religiões de raízes africanas sofreram enorme preconceito nos cemitérios. Ela elogiou as novas diretrizes e concessões públicas que proíbem a discriminação e exigem que os cemitérios criem espaços dignos para que todas as religiões possam celebrar seus rituais de despedida.
Isso está intimamente ligado à ancestralidade. Para a arquiteta, um cemitério é um espelho da própria cidade e uma extensão de quem fomos. Honrar nossos antepassados não é apenas uma questão de tradição, mas uma obrigação moral de quem está vivo. "Nós somos a extensão daqueles que vieram antes de nós. Quem não honra seus antecessores tem uma grande possibilidade de não dar certo", refletiu Crisa, afirmando que encara cada dia como uma oportunidade de devolver algo positivo à sociedade em nome daqueles que já partiram.
O Futuro dos Cemitérios: Parques de Memória e Celebração da Vida
Para onde caminha o setor funerário? Segundo Crisa, a entrada de novos investidores e grupos empresariais no mercado causou um "rebuliço" positivo, forçando os administradores antigos a se modernizarem. A tendência é que os cemitérios deixem de ser vistos apenas como locais de morte e passem a ser espaços de vida, cultura e memória.
Ela mencionou iniciativas inovadoras, como corridas de rua que têm sua largada dentro de cemitérios parques. Essa ressignificação do espaço é vital. As pessoas não deveriam visitar o cemitério apenas no Dia de Finados ou no momento do sepultamento. O espaço, arborizado, decorado com obras de grandes designers e permeado pela biofilia, deve ser um local agradável para caminhar, refletir e honrar a memória dos entes queridos em um dia comum de sol.
Conclusão: Acolher, Conectar, Transformar e Pertencer
A magistral participação de Crisa Santos no Papo Funerário encerrou-se com uma reflexão poderosa sobre os quatro pilares que norteiam todos os seus projetos arquitetônicos. Em qualquer obra que desenvolve para o setor do luto, a arquiteta se faz as seguintes perguntas:
- O espaço consegue acolher o enlutado em sua dor mais profunda?
- Ele permite que a pessoa se conecte consigo mesma, com sua fé e com a sua ancestralidade?
- A vivência no ambiente ajuda a transformar o luto, amenizando a depressão e gerando compreensão do ciclo da vida?
- Ao final da jornada, o enlutado sente pertencimento àquele espaço?
Como brilhantemente resumiu Crisa Santos, quando a arquitetura consegue fazer com que a família enlutada sinta que aquele espaço também pertence a eles, o objetivo final foi alcançado. Uma vez que o pertencimento é estabelecido, o vínculo jamais é rompido. Um episódio inspirador que nos ensina que, mesmo diante da finitude da vida, a beleza, a empatia e a neurociência podem pavimentar um caminho de cura, luz e infinitas memórias afetivas.