Introdução: O Podcast Confissões Consentidas e a Normalização dos Fetiches
No episódio do podcast Confissões Consentidas, o apresentador Renan, também conhecido como Mestre Cruel, dá as boas-vindas ao público com uma premissa clara: falar sobre fetiches e mostrar que as pessoas com práticas fetichistas são pessoas normais. A ideia central é desconstruir o estigma de que apenas um grupo específico possui fetiches, convidando à reflexão de que muitos espectadores que se consideram 'baunilha' também podem ter seus próprios desejos e curiosidades. O podcast se destaca por incluir descrições visuais dos participantes — como Renan, um homem branco de cabelo castanho com luzes usando jaqueta de couro, e sua convidada Xu, uma mulher branca com cabelo bipartido loiro e castanho, jaqueta preta e regata branca — para ser acessível a pessoas com deficiência visual ou que ouvem em movimento.
Identidade e Autodescoberta: Quem é Xu no Wikipédia?
Ao ser questionada sobre o que estaria escrito em seu verbete no Wikipédia, Xu inicia sua apresentação fugindo do padrão comum de definir-se pela profissão, algo que considera 'bizarro' no contexto paulista. Em vez disso, ela se descreve como uma pessoa de 32 anos, moradora de São Paulo, criadora de três gatos, apaixonada por board games, arte, canto, desenho e pintura. Xu revela ser uma pessoa autista e com TDAH. Por fim, menciona sua profissão: designer de produto e fotógrafa, atuante tanto no meio baunilha quanto no meio BDSM. O nome 'Xu' surge de um apelido derivado de seu nome de batismo, Juliana, adotado por amigos devido ao seu comportamento brincalhão e debochado. Esse apelido acabou se tornando seu alter ego no universo fetista.
O Perfil Brat: Deboche, Questionamento e Bart Simpson
Xu se identifica fortemente com o perfil Brat, cuja tradução aproximada seria 'pirralho'. Ela descreve a descoberta desse perfil como um momento de epifania: 'Meu Deus, sou eu, isso tem nome'. O comportamento Brat é caracterizado por provocação, deboche e questionamento constante. Renan faz uma analogia curiosa ao comparar o perfil Brat com o personagem Bart Simpson, observando que 'Bart' é um anagrama de 'Brat'. Essa comparação ilustra perfeitamente a essência brincalhona e desafiadora do perfil. Para Xu, ser Brat vai além de uma postura infantilizada, representando uma forma de questionar regras e estimular interações dinâmicas, tanto na vida pessoal quanto nas práticas BDSM. Ela ressalta que essa característica de provocar não exige necessariamente um perfil infantil, podendo se manifestar como puro deboche.
Jornada de Superação e a Descoberta do BDSM
A entrada de Xu no mundo BDSM foi precedida por uma história difícil. Ela relata ter passado por uma série de invalidações e abusos desde a adolescência, o que a levou a um relacionamento abusivo de oito anos. Nesse período, ela parou de se reconhecer, descrevendo a diferença em fotos como 'assustadora'. Após encontrar forças para sair desse relacionamento, ela decidiu provar para si mesma que não estava 'quebrada', passando por uma jornada de autoconhecimento e explorando sua sexualidade. Foi através de um aplicativo de relacionamento comum que ela deu match com uma pessoa experiente na cena BDSM, um Dom. Com ele, pela primeira vez, ela se viu em um papel de inferioridade, mas sentindo-se segura e 100% no controle. Xu enfatiza que teve 'sorte', pois essa pessoa foi extremamente responsável, paciente e cuidadosa, apresentando-a a lugares seguros e boas práticas — algo que ela reconhece não ser a realidade de muitos iniciantes.
O Encantamento pelo Impact Play e a Ressignificação da Dor
Xu revela ser considerada uma das maiores masoquistas da cena fetista, um rótulo que ela recebe com timidez. Sua primeira prática formal de BDSM foi o Impact Play, vivenciado na casa Love Nox, em São Paulo — um local que ela recomenda por oferecer monitoria constante e um ambiente seguro. Ao entrar na casa, ela ficou maravilhada ao ver 'corpos livres' de todos os tipos circulando com naturalidade, sem se importar com a opinião alheia. Um monitor chamado Dom a acolheu e despertou sua curiosidade pela prática. Xu explica que o que a atraiu no Impact Play não foi a dor em si, mas o desafio de testar seus próprios limites. Todo o processo envolveu negociação, palavras de segurança e previsibilidade — aspectos que ela, enquanto pessoa neurodivergente, considera incríveis. A dor, que antes em sua vida esteve associada à autoflagelação em um ambiente familiar tóxico, foi ressignificada: agora ela escolhe sentir dor, escolhe a intensidade e o momento de parar, transformando uma experiência negativa em uma fonte de prazer e controle.
Jogo Rápido: Felicidade, Medos e Extravagâncias
Em um segmento de perguntas e respostas rápidas, Xu compartilha vislumbres de sua personalidade: sua definição de felicidade é 'se sentir livre'; seu maior medo é 'perder a voz'; seu maior defeito é ser 'perfeccionista' (em tom de piada); sua maior qualidade é ser 'empática'; a pessoa que mais admira é seu falecido avô; e sua maior extravagância é 'tudo', brincando com sua própria aparência. Sobre superpoderes, ela escolheria ser invisível. Sua frase mais usada é 'É raro, mas acontece muito'. Quando perguntada se mudaria algo em sua história, ela responde: 'Jamais'. A prática fetista que ainda não fez, mas deseja, é o Needle Play.
As Máscaras de Juliana: Autenticidade no BDSM vs. Vida Cotidiana
Um dos pontos mais profundos da conversa é a diferenciação entre Juliana (a pessoa do dia a dia) e Xu (o alter ego do BDSM). Xu explica que, devido ao autismo e TDAH, ela sempre usou máscaras sociais para navegar no mundo. No ambiente BDSM, especificamente quando ela é Xu, essas máscaras caem, permitindo-lhe ser mais autêntica e sem as amarras sociais. O conselho que a Juliana de hoje daria à Juliana do passado é contundente: 'Não tenha medo de dizer não. Se filho da puta voasse, não dava para ver o céu. E manda todo mundo tomar no cu.' Apesar do linguajar forte, Xu deixa claro que isso simboliza a necessidade de estabelecer limites e priorizar o próprio bem-estar. Ela conclui que a Juliana precisa aprender a ser mais Xu no dia a dia, ou seja, abandonar as máscaras e viver de forma mais plena e autêntica.