O Começo na Moda: Das Costuras Escondidas à Primeira Cliente
A jornada de Natália Santos no mundo da moda começou literalmente no berço. Filha de pais que possuíam uma confecção de jeans, ela cresceu imersa no ambiente de tecidos, máquinas de costura e uma equipe de costureiras. Aos 10 anos, movida por uma paixão silenciosa, Natália começou a fazer suas próprias roupas costurando escondida, pois seus pais temiam os riscos de uma criança operar uma máquina de costura. Com o tempo, eles perceberam seu talento e dom para a costura.
Apesar do dom evidente, seus pais resistiam à ideia de que ela seguisse a carreira de moda, um mercado que eles consideravam concorrido e saturado, onde eles mesmos não haviam alcançado o sucesso almejado. A preferência deles era por áreas mais tradicionais como medicina, direito ou arquitetura. No entanto, apoiada por sua avó, Natália seguiu sua vocação e fez faculdade de moda.
Um duro golpe veio com o falecimento de seus avós, o que desestruturou a empresa familiar. Seu pai, cansado, decidiu fechar a confecção e se aposentar, chegando a demiti-la para que ela pudesse sacar o seguro-desemprego, pois estava sem dinheiro. Foi nesse ponto de virada que Natália montou uma pequena sala nos fundos da confecção e começou a vestir suas amigas para casamentos. Essas amigas foram essenciais, divulgando seu trabalho e ajudando-a a construir sua primeira cartela de clientes em sua cidade pequena. O negócio evoluiu para vestidos de noiva e festa, e logo ela estava vestindo a cidade inteira.
A Virada Digital: Pandemia, Viralização e o Início do Conteúdo Online
A pandemia de 2020 foi um divisor de águas na carreira de Natália. Foi nesse período que um vídeo seu, gravado com um amigo, viralizou no TikTok, atingindo milhões de visualizações. Este momento foi crucial para que ela se visse e fosse vista como estilista na internet.
Aproveitando a oportunidade, Natália começou a produzir conteúdo sobre as roupas que fazia e, como não comprava roupas há mais de 10 anos, vestia suas próprias criações. Ela passou a postar sua vivência com as noivas e os bastidores do seu trabalho. O conteúdo mostrou-se um sucesso. Ela já dominava o mercado da sua cidade, mas sentia a necessidade de evoluir e sair da zona de conforto. Foi então que tomou a decisão de se mudar para São Paulo, sem conhecer ninguém, apenas com o celular e um amigo que a ajudou na busca pela casa. A mudança foi rápida e corajosa: em um mês, ela já estava vivendo na capital paulista, pronta para recomeçar do zero.
A Superação do Burnout: Equilibrando o Caos de São Paulo com a Saúde Mental
A transição para São Paulo, embora frutífera, foi extremamente desafiadora. A agenda lotada, a falta de uma rede de apoio e o ritmo acelerado da cidade a consumiram. Após um ano vivendo essa rotina intensa, Natália sofreu um burnout. Ela descreve esse momento como essencial para sua evolução, pois foi quando conseguiu parar e cuidar de si mesma como pessoa física, algo que havia negligenciado em prol da carreira.
Hoje, Natália aprendeu a importância do descanso programado. Ela organiza sua agenda de acordo com o movimento do mercado, sabendo que janeiro é um mês fraco para o comércio e, portanto, um período ideal para férias. Ela também busca ativamente momentos para se desconectar, viajando para a serra, indo a museus ou simplesmente não fazendo nada. Sua principal mensagem para outros empreendedores é saber viver no caos sem deixar que o caos os domine. Ela alerta que, muitas vezes, as pessoas só caem na real quando estão no fundo do poço, e que se recusar a descansar pode levar a consequências graves das quais é muito difícil se recuperar.
A Importância de Ser a Cabeça da Marca: Delegar e Montar uma Equipe de Confiança
Um dos maiores aprendizados de Natália foi entender que ela é a cabeça da sua marca, mas que não pode fazer tudo sozinha. Ela destaca a dificuldade de encontrar pessoas que realmente vistam a camisa e a ajudem a fazer acontecer. No início, ela reconhece que o empreendedor precisa fazer tudo, mas o objetivo é, com o tempo, montar uma equipe que permita ao dono se ausentar de certas funções.
Natália admite que demorou a contratar sua primeira assistente para cuidar da agenda, mas hoje considera esse investimento o melhor para sua qualidade de vida e saúde mental. Ela afirma que delegar funções é um investimento mental e de carreira, pois não é possível evoluir sozinho. A empresa é um reflexo do dono; se o dono não está bem, a empresa também não vai bem. Ela credita seus prêmios à sua equipe, pois acredita que sua marca não existiria se fosse apenas ela. A chave é saber a diferença entre os ciclos profissionais e pessoais, dando valor a quem a apoia e não tendo medo de dizer não quando um funcionário não está evoluindo junto.
Estratégias de Crescimento: Nicho, Digital e a Paciência de Fazer Acontecer
Para Natália, o sucesso está em saber esperar o tempo certo e nichar o seu público. Ela aconselha os lojistas a observarem a necessidade do mercado e a focarem naquilo que fazem de melhor, tornando-se especialistas em um segmento. Seja em moda festa, moda plus size ou biquínis, a diferenciação evita que a pequena loja concorra diretamente com gigantes generalistas.
Outro ponto crucial é a presença no digital. Ela afirma que hoje é preciso se cercar de todas as maneiras possíveis: físico, digital e todas as redes sociais. A recomendação é que o dono da marca vista a sua própria roupa e coloque a cara na internet, pois não existe melhor experiência para o consumidor do que ver o criador vestindo e validando sua própria peça. Para os que têm vergonha, a alternativa é buscar pessoas que estejam começando e possam representar a marca. Ela é categórica: se você não quer aparecer, nem quer buscar quem apareça, talvez o mercado da moda não seja para você. O conteúdo mais eficaz, segundo ela, não é o altamente produzido, mas sim o orgânico e genuíno, que mostra a vida real e cria uma conexão de amizade com o público.
Calendário Anual: Antecipação e Planejamento para Vender Mais
Uma das maiores lições de Natália é a necessidade de se adaptar ao calendário anual. Ela observa que começo de ano é tradicionalmente fraco devido a impostos (IPTU, IPVA) e despesas escolares, enquanto épocas de festas e feriados exigem preparação. Sua estratégia é simples mas poderosa: observar a necessidade de cada mês e investir com antecedência.
Se ela sabe que no final do ano há muitos festivais, começa a investir em equipe e mercadoria seis meses antes, quando o movimento está fraco. Da mesma forma, para a Copa do Mundo, ela planeja coleções específicas. Se uma coleção não vender como o esperado, ela a ajusta para uma nova data ou comemoração, evitando que o estoque fique parado. Para ela, onde há dificuldade, há oportunidade. A organização é a chave para transformar datas ruins em períodos menos piores e datas boas em momentos excepcionais. Ela sugere que o empreendedor reserve meia hora que seja para planejar a semana ou o mês, pois isso gera mais resultado do que horas perdidas em tarefas sem direção.
Como Contratar e Formar um Time Vitorioso na Sua Loja de Moda
O processo de contratação para Natália vai além do currículo. Por ser uma figura pública, ela recebe muitos currículos de seguidores que admiram seu trabalho, mas nem todos possuem a capacitação ou a atitude necessária. Ela busca pessoas que demonstrem conhecimento, proatividade e, acima de tudo, vontade de estudar e evoluir.
Um ponto de inflexão em suas entrevistas é a videochamada. Candidatos que aparecem deitados na cama ou tomando refrigerante durante a entrevista mostram uma falta de profissionalismo que, para ela, é um sinal claro de que não darão resultado. Natália valoriza quem se dedica, e em troca, oferece apoio, como pagar ou co-financiar cursos. Sobre contratar familiares, ela pondera que pode dar certo, como no caso de grandes empresários, mas que é necessário saber dividir o lado pessoal do profissional. Ela cita o exemplo da própria relação com seu pai, onde as brigas eram constantes devido à resistência dele com a tecnologia. Se não houver essa separação, a convivência saudável e o negócio podem ser prejudicados.
Erros Comuns que Impedem o Crescimento: Do Medo à Falta de Paciência
Natália lista os erros mais comuns que vê entre lojistas de moda. O principal é desistir logo no início. Ela lembra que manter um CNPJ é difícil, especialmente no primeiro ano e meio, e que muitas empresas fecham nos primeiros cinco anos. A montanha-russa emocional de ter CNPJ, com dias de euforia seguidos pela realidade dos boletos, é algo que precisa ser encarado com resiliência.
Outro erro grave é não inovar e ficar preso à zona de conforto. Para ela, se o lojista não busca o diferencial e a necessidade do público, não tem como evoluir, ficando fadado a competir com as grandes marcas sem sucesso. A falta de paciência também é um grande vilão: muitos querem resultados imediatos e se comparam aos outros, sem entender que cada um tem o seu momento. Por fim, ela critica aqueles que não se adaptam ao digital, seja por medo ou por teimosia, insistindo em métodos do passado enquanto o mundo e o consumo mudam rapidamente.
Conselhos Finais: Ame o que Faz e Transforme o Medo em Combustível
Para finalizar, Natália deixa um conselho direto para os empreendedores da moda: ame o que você faz. Pensar apenas no financeiro não é suficiente; é preciso ter paixão por vender e por dizer a verdade para quem está vestindo a peça. Quando o cliente se sente visto como amigo, o retorno financeiro vem naturalmente.
Ela incentiva a não ter medo de começar ou investir. O medo sempre existirá, mas ele deve ser o combustível, não o paralisante. Seja a melhor no que faz, mesmo que seja o básico, como fazer a melhor bainha. Recordando sua própria coragem de se mudar para os Jardins em São Paulo com capital para apenas um mês, ela repete a frase que ouviu: 'As pessoas mais doidas foram as que mais deram certo na vida'. Por fim, ela reforça a importância de não perder a essência e esquecer de onde veio, acreditando que, mesmo que demore, o sucesso virá para aqueles que persistem com paciência e dedicação.