BRAVS Cast Episódio 5: Inovações e Experiências com o Aflibercepte 8 mg
No quinto episódio do BRAVS Cast, o podcast oficial e independente da Sociedade Brasileira de Retina e Vítreo, a apresentadora e médica Beatriz Takahashi (São Paulo) conduz um bate-papo de altíssimo nível científico com os doutores Ricardo Japiassú (Rio de Janeiro) e Fernando Penha (Blumenau).
O foco central dessa conversa imperdível é o uso e o impacto revolucionário do Aflibercepte (Eylea) na dosagem de 8 mg para o tratamento de doenças retinianas severas, com destaque para a Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI) na sua forma neovascular, o Edema Macular Diabético e os desdobramentos mais recentes focados em oclusões vasculares da retina.
O Estudo Quasar: Uma Nova Fronteira para Oclusões Vasculares
O episódio começa com a Dra. Beatriz Takahashi trazendo à luz os resultados iniciais do estudo Quasar, apresentados recentemente em congressos internacionais (com destaque para o evento Euretina em setembro). O Quasar é um estudo multicêntrico e comparativo desenhado especificamente para avaliar o tratamento do edema macular causado por oclusão vascular da retina.
A estrutura do estudo foi dividida em três braços clínicos distintos para entender a melhor posologia e eficácia:
- O tradicional Aflibercepte 2 mg.
- O novo Aflibercepte 8 mg utilizando uma dose de ataque (loading dose) de três injeções mensais consecutivas.
- O Aflibercepte 8 mg utilizando uma dose de ataque de cinco injeções mensais consecutivas.
O Dr. Ricardo Japiassú explica que o racional por trás desse desenho de estudo deve-se ao fato de que, nas oclusões vasculares, os pacientes apresentam um nível intraocular de VEGF (Fator de Crescimento Endotelial Vascular) substancialmente mais elevado do que em outras patologias. Portanto, testar doses de ataque mais longas (três ou cinco injeções) com a molécula de 8 mg faz todo o sentido clínico.
Embora os resultados apresentados no Euretina ainda sejam de curto prazo (36 semanas), Japiassú destaca que eles já adiantam um excelente resultado. O objetivo principal do uso da dose de 8 mg não é apenas obter uma ação clínica melhor e mais rápida, mas sobretudo garantir uma maior durabilidade do efeito da droga no olho do paciente. Isso significa, na prática, um menor número de idas à clínica para injeções intravítreas, reduzindo drasticamente o que os médicos chamam de "fardo do tratamento" (treatment burden).
DMRI Neovascular e Edema Macular Diabético: Os Estudos Pulsar e Photon
A conversa avança para as indicações nas quais o Aflibercepte 8 mg já possui aprovação regulatória e uso clínico estabelecido: a Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI) neovascular e o Edema Macular Diabético. Para balizar a discussão, os especialistas recorrem aos dados dos estudos pivotais Pulsar e Photon.
O Dr. Fernando Penha relata sua experiência prática, mencionando que já utiliza amplamente o Aflibercepte 2 mg, mas tem migrado para a dose de 8 mg especialmente em casos de switch (troca de medicação em pacientes que não estão respondendo adequadamente à terapia anterior). Segundo ele, os dados de extensão do estudo Pulsar (DMRI), que já alcançaram 3 anos (156 semanas), são fantásticos e validam a sua percepção clínica:
- Aproximadamente 80% dos pacientes conseguiram manter intervalos de injeção de 12 semanas (Q12).
- Cerca de 40% dos pacientes estenderam o intervalo para 16 semanas (Q16) ou 20 semanas (Q20).
- Uma parcela de 20% dos pacientes conseguiu intervalos ainda maiores, mantendo a mácula seca e a visão estabilizada.
Para o Dr. Penha, o Aflibercepte 8 mg não é apenas uma droga nova, mas uma evolução de uma molécula já excelente e plenamente conhecida. A concentração molar quatro vezes maior entrega resultados formidáveis mantendo rigorosamente o mesmo perfil de segurança que consagrou a dose de 2 mg.
Resultados de Secagem Mais Rápidos e a Rotina de Vida Real
Um dos dados mais impressionantes compartilhados no podcast refere-se à rapidez na resolução do fluido retiniano. O Dr. Penha destaca que, nos estudos de extensão, os pacientes tratados com Aflibercepte 8 mg alcançaram uma mácula livre de fluido (fluid-free) na metade do tempo quando comparados aos pacientes tratados com 2 mg.
Enquanto no grupo de 2 mg a resolução levou em média 8 semanas, no grupo de 8 mg esse tempo caiu para apenas 4 semanas. A métrica de redução da espessura macular abaixo de 300 micra foi ainda mais brutal: 4 semanas com 8 mg contra arrastadas 28 semanas com 2 mg. A explicação científica para isso é simples: ao entregar uma densidade molar maior da droga dentro do globo ocular, o mecanismo de "armadilha" (VEGF trap) tem muito mais sítios disponíveis para capturar e neutralizar as moléculas de VEGF, secando a retina de forma quase imediata.
O Dr. Japiassú traz um relato empolgante de sua prática em consultório: ele tem conseguido adotar a posologia de 8 mg desde o início do tratamento (naïve) em alguns pacientes, em vez de apenas usá-la como resgate. Em um caso específico de DMRI, ele já conseguiu estender o intervalo sem injeção para quase 20 semanas e está acompanhando o paciente mês a mês (apenas com OCT e exame de fundo de olho) para tentar alcançar a marca de 24 semanas sem necessidade de uma nova aplicação, tudo isso mantendo a retina perfeitamente seca.
Dados do Mundo Real (Real-World Evidence)
Saindo do ambiente controlado dos ensaios clínicos pivotais, a Dra. Beatriz questiona sobre os estudos de "vida real". O Dr. Japiassú cita dois grandes grupos de pesquisa internacionais que corroboram as expectativas em torno da medicação:
- Austrália: O grupo liderado pela Dra. Robyn Guymer compilou dados de diversos centros australianos. Mesmo com as peculiaridades de acesso e população do país, os resultados de durabilidade e segurança espelharam fielmente os dados dos estudos Photon e Pulsar.
- Suíça: Um grupo de estudos suíço também publicou resultados compilados altamente positivos, inclusive utilizando algoritmos avançados de Inteligência Artificial (como o RetinAI) para ajudar a predizer a resposta dos pacientes e o acúmulo de fluido ao longo do tempo.
Os debatedores concordam que o Brasil deve seguir esse mesmo caminho, consolidando seus próprios dados multicêntricos para entender o comportamento da droga na nossa realidade socioeconômica e perfil demográfico.
Dicas Cirúrgicas e Preocupações Práticas: Volume e Pressão Intraocular
Uma preocupação técnica que frequentemente assombra os oftalmologistas ao migrar do Aflibercepte 2 mg (0,05 ml) para o 8 mg é o volume de injeção levemente maior, que passa a ser de 0,07 ml. O temor é que esse volume adicional possa causar um pico perigoso de Pressão Intraocular (PIO).
O Dr. Fernando Penha é taxativo ao tranquilizar a comunidade médica: os estudos pivotais provaram que não há diferença estatisticamente significativa em picos de pressão entre as injeções de 0,05 ml e 0,07 ml. Ele afirma que não altera em nada a sua técnica cirúrgica de aplicação. O pico de pressão ocorre nos primeiros 30 minutos e normaliza-se naturalmente.
No entanto, para pacientes de alto risco (aqueles com glaucoma avançado, por exemplo), os médicos sugerem estratégias preventivas como o uso prévio de Diamox (acetazolamida) via oral, colírios hipotensores ou até mesmo o uso do "Baro-oftalmo" (para amolecer o globo ocular antes do procedimento). Uma prática veementemente desencorajada pelo Dr. Penha é a paracentese (drenagem de fluido da câmara anterior) de rotina, pois é um procedimento invasivo que aumenta o risco desnecessário de endoftalmite infecciosa, devendo ser reservada apenas para casos de extrema necessidade isolada.
Um alerta fundamental levantado pelo Dr. Japiassú no final dessa pauta é o erro de dosagem em consultório. Alguns médicos, acostumados com seringas fracionadas, acabam aspirando ou injetando apenas 0,05 ml do frasco de 8 mg. Ele alerta: "A dose preconizada para entregar os 8 mg é de 0,07 ml. Quem aplica menos que isso não está entregando a dose terapêutica correta".
Conclusão: O Futuro do Tratamento Anti-VEGF
Ao encerrar o episódio, o consenso entre os três especialistas é absoluto e animador. Embora esbarremos muitas vezes em questões logísticas, de liberação de planos de saúde ou limitações do SUS para iniciar o tratamento com a melhor droga disponível, o objetivo do retinólogo deve ser sempre entregar a maior qualidade de vida possível ao paciente.
O Aflibercepte 8 mg representa um marco nesse sentido. O Dr. Japiassú acredita que, com o tempo e a adequação do mercado, a dose de 8 mg substituirá naturalmente a de 2 mg. A frase final do Dr. Penha resume o sentimento da classe médica: "Temos em mãos uma molécula com concentração molar muito maior, durabilidade expandida e com exatamente o mesmo perfil de segurança da droga que já estamos acostumados. Isso nos deixa totalmente à vontade para prescrever."
A inovação no tratamento de doenças da retina continua a avançar a passos largos, trazendo esperança clínica real para prevenir a cegueira e devolver a autonomia aos pacientes.