Blip Cast #10 | O Banco que não dominar IA vai desaparecer?

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Introdução: A Pergunta que Define o Futuro dos Bancos

No episódio de estreia da segunda temporada do Blipcast, o host Caio Calado recebe dois especialistas para responder a uma pergunta crucial: o banco que não dominar a IA vai desaparecer? Participam Paulo Quimura, CISO e diretor de segurança da Blip, e Auri Ronan, executivo com passagem por gigantes como iFood e Movile, hoje líder da Bank M. A discussão aborda desde a evolução da IA generativa até os desafios de governança, segurança e cultura organizacional no setor financeiro.

Evolução da IA Generativa: Do Ceticismo à Ubiquidade

Quimura relembra o surgimento do ChatGPT no final de 2022 e a onda inicial de ceticismo. A IA generativa não é um tema novo, mas mudou radicalmente com o advento de agentes autônomos. O executivo destaca que a IA transcendeu o mundo corporativo e chegou à vida pessoal das pessoas, resolvendo problemas complexos com muito mais eficiência do que os buscadores tradicionais. A qualidade da resposta depende diretamente da qualidade do prompt — quanto melhor o requisito, melhor o resultado.

Impacto no Setor Financeiro: Finanças como a Área Mais Impactada

Auri observa que, segundo pesquisas, a área de finanças é uma das mais impactadas pela IA. Quem não atuar rapidamente, não aproveitar o máximo da tecnologia e não avançar na exploração ficará para trás. Ele levanta uma questão fundamental: qual será o limite da interação entre humano e IA? Tarefas repetitivas podem ser delegadas a agentes, mas negócios são feitos de pessoas. A entidade CNPJ não produz nada sozinha — são as pessoas que decidem e agem. A grande questão é como fazer com que humanos e IA coexistam sem que um ocupe o espaço do outro.

Regulação e Maturidade Digital: O Brasil na Corrida Global

Caio menciona um relatório (provavelmente do Banco Mundial) que posicionava o Brasil na 42ª-47ª posição em prontidão digital governamental, mas como líder na América Latina. A experiência bancária brasileira é avançada, com o Drex (projeto de real digital) e operações financeiras programáticas. No entanto, com os agentes de IA, o mercado entra em um território sem regulação ainda. Auri rebate que o Brasil tem uma das melhores regulações bancárias do mundo, super evoluída e segura. O sistema financeiro brasileiro é sofisticado, e a credibilidade das instituições é alta. O problema é que os bancos tradicionais se concentraram demais e deixaram a inovação de lado por um tempo, até a chegada dos neobanks — que mudaram radicalmente a experiência do cliente.

Redesenho de Processos: Do Digital para o Redesenho Radical

A diferenciação crucial, segundo Auri, é que antes a digitalização significava pegar processos analógicos e transportá-los para o meio digital — o processo era o mesmo, apenas o formato mudava. Com a IA, o processo é redesenhado do zero. Na maioria das vezes, nem existe mais um processo linear, pois a decisão depende do input do usuário. Empresas que já nasceram com estrutura de dados adequada e orquestração de agentes estarão em vantagem. Dados da Microsoft mostram que empresas que usam IA em serviços financeiros têm retornos até três vezes maiores do que as que não usam.

Estratégia e Vantagem Competitiva: Construir a Melhor Experiência

Para Auri, a resposta está do lado de quem consome o produto. O consumidor está mais sofisticado e também tem acesso à mesma tecnologia. Se o investimento não se alinha ao que o cliente espera ou deseja, ele será desperdiçado. O caminho é construir a melhor experiência possível em cima do desenho do negócio. É preciso entender o propósito, a estratégia e a execução que tornam o negócio único — isso gera vantagem competitiva. Até mesmo uma notícia ruim, como uma negativa de crédito, pode ser entregue de forma a manter a fidelidade do cliente.

Sobre distinguir barulho de mercado do que é realmente relevante, Auri afirma que o segredo é entender o propósito do negócio e a demanda atual do mercado, porque o timing é tudo. Lançar muito à frente ou muito atrás pode ser fatal. A frase clássica do mundo da tecnologia — "se você não tem vergonha da primeira versão do seu produto, está lançando tarde demais" — ganha novo significado com a IA, que reduz drasticamente o tempo para prototipar e testar.

Segurança e Shadow AI: O Risco da Adoção Não Governada

Quimura introduz o conceito de Shadow AI (paralelo ao Shadow IT): o uso de IA sem governança, sem homologação pelos times de tecnologia e segurança. O maior risco é o vazamento de código proprietário e informações sensíveis. Incidentes já ocorreram em grandes organizações, inclusive em contextos de defesa civil de grandes países. O problema não é inexperiência do usuário, mas a falta de governança dos ambientes. A solução passa por uma boa comunicação e, mais importante, por uma definição clara do apetite de risco pela liderança sênior, board e investidores. Empresas em escala acelerada naturalmente tomam mais risco; bancos tradicionais, telecoms e birôs de crédito tendem a ser mais conservadores.

Homologação de Ferramentas: A Onda dos Take Notes e dos Assistentes de Código

Quimura descreve o desafio inicial que todos os CISOs enfrentaram: a invasão de take notes (agentes que escutam reuniões e fazem resumos). Havia reuniões com dois ou três diferentes simultaneamente. Essas ferramentas, em sua maioria, não eram homologadas e muitas vezes não liam os termos de uso que permitiam que os dados fossem usados para treinar modelos. O mesmo ocorreu com assistentes de código — inicialmente, os códigos gerados eram ruins e cheios de vulnerabilidades, mas evoluíram rapidamente com o aprendizado. Agora, a era é dos agentes autônomos, e a pergunta é: qual será a ferramenta predominante para criação e gestão desses agentes com todas as integrações necessárias?

Cultura e Fluência em IA: Democratização e Gamificação

Auri argumenta que a adoção da IA é, antes de tudo, um tema de cultura da empresa. Se adotada apenas individualmente ou em algumas áreas, ela amplifica o problema dos silos, que já é latente no modelo híbrido. Sem um acompanhamento centralizado pelo time de infraestrutura, com homologação, treinamento e capacitação, a empresa não avança. Ele observa que algumas áreas se abrem muito rápido e colocam a empresa em risco, enquanto outras se fecham para a inovação por competição de tempo. A liderança precisa compensar e recompensar o tempo investido em experimentação.

Quimura complementa com o exemplo da Microsoft e do Lloyd Bank: uma estratégia de gamificação e escassez, onde colaboradores competiam para ter acesso a recursos caros de IA. Isso gerou interesse genuíno e engajamento. A fluência em IA dentro de uma organização não pode ser delegada a um time pequeno de especialistas — deve ser democratizada horizontalmente, como já se faz com segurança da informação, que é responsabilidade de todos.

Proteção de Dados Proprietários e Governança: O Papel do Board

Quimura enfatiza que o equilíbrio entre risco e recompensa é complexo, mas não é a primeira vez que times de segurança lidam com isso. É preciso que o board e os principais stakeholders definam o apetite de risco da empresa. Não existe receita de bolo: bancos tradicionais, telecoms e birôs de crédito lidam com dados críticos e sensíveis e tendem a ser mais conservadores. O ponto fundamental é que os principais executivos e o board precisam participar dessa roda de conversa. Eles devem estar atentos e entender o caminho que a empresa está seguindo.

Auri complementa com uma analogia pessoal: você não compra um carro novo e deixa de contratar o seguro. Se não faz isso na pessoa física, por que faria na pessoa jurídica? Governança e compliance não são custos chatos — são investimentos em confiança. Para ele, a definição de CEO é Chief Engagement Officer: engajar todos no que é importante, cada um na sua área, mas todos na disciplina, governança e gestão de risco. O sentimento de dono precisa transbordar para o mundo corporativo.

Frameworks e Ética em IA: A Importância da Auto-Regulação

Quimura revela que a Blip já construiu internamente uma carta de princípios para o uso ético da IA, com a participação ativa de Caio. O objetivo é delimitar os parâmetros para que todos caminhem na mesma direção. Enquanto a Europa já tem o AI Act (conjunto de leis parametrizando o uso correto e ético da IA), o Brasil ainda discute o tema e não deve torná-lo prioridade número um no curto prazo. Por isso, é fundamental que as empresas se autorregulem para não correrem o risco de ter times caminhando em direções opostas.

Transparência e Regulação: Aja como Você Gostaria de Ser Tratado

Caio compartilha a experiência interna da Blip: um grupo de trabalho foi montado para discutir como a IA é usada no negócio, tanto no que a empresa oferta quanto no produto em si. A ideia foi antecipar uma eventual regulação, nos moldes da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados). O exercício foi valoroso para entender melhor o que a empresa estava se propondo a fazer. Auri conclui com uma regra prática: na dúvida, sem documentação, aja como você gostaria de ser tratado se estivesse do outro lado da mesa. Se não gostaria de ter seus dados expostos, aja internamente para que isso não aconteça. É mais fácil simplificar depois do que ampliar restrições.

Tecnologia vs Operação: A Migração de Talentos

Auri revela um dado público impressionante: o Itaú vem fechando agências consistentemente há 6-7 anos, acelerando após a pandemia. O headcount da empresa não diminuiu — ele se manteve estável porque os funcionários estão sendo migrados da operação para a área de tecnologia. O CEO Milton Maluhy Filho já declarou publicamente que o banco está transformando colaboradores operacionais em profissionais de tecnologia. Um banco com mais de 100 anos, trilhões em ativos e quase 100 mil colaboradores já está fazendo essa mudança há meia década. Se isso não é um sinal relevante para todas as empresas, não se sabe qual é.

Futuro dos Bancos Tradicionais: Irrelevância por Fases

Auri responde diretamente à pergunta do episódio: a irrelevância, se o banco não se adaptar, acontecerá em fases, não de forma abrupta. Bancos são muito capitalizados e têm "bala na agulha" para fazer mudanças estruturais. Eles podem perder relevância em algumas linhas de produto, mas dificilmente serão substituídos por completo. A população tem um quê de fidelização com marcas — a marca mais valiosa do Brasil hoje é a do Itaú, um banco. O Nubank, que chegou depois, associou sua marca a um público diferente e criou um diferencial onde o Itaú não estava ocupando. A lição é: à medida que você não amadurece e não se mantém relevante em tudo, precisa fortalecer aquilo em que é número um.

Automação e Produtividade: O Que Fazer com o Tempo Livre?

Auri observa que, até um ano atrás, o uso da IA em finanças se limitava a validar fórmulas no Excel, encontrar erros ou criar macros VBA. Hoje, com plugins dentro do próprio Excel e Google Sheets, você delega a tarefa — não mais ajuda a decidir. O poder disso é enorme na redução do tempo de execução. Mas a pergunta que fica é: o que as pessoas vão fazer com o tempo livre? Se não houver clareza de onde se quer chegar na evolução da estratégia do negócio, os profissionais vão apenas fazer mais rápido o que já faziam, sem ganhar efetividade, espaço no mercado ou relevância. O temor de layoffs é compreensível, mas trata-se de um território novo. É preciso planificar o uso desse tempo livre.

IA como Ferramenta Estratégica: Não é um Fim em Si Mesma

Quimura concorda que o instinto é dizer que bancos que não aderirem à IA vão sumir. Mas os contrapontos de Auri o fizeram pensar: bancos tradicionais estão tão consolidados na cultura brasileira que dificilmente serão "desruptados" de uma vez. Os neobanks já nasceram cloud-native e AI-native, partindo com vantagem competitiva. A verdade é que os bancos tradicionais estão se transformando em empresas de tecnologia que têm produtos bancários. É uma migração de esforços. A tendência é que, no futuro, as pessoas parem de falar que estão "usando IA" — será algo tão óbvio e embutido na tecnologia quanto um protocolo.

Aprendizado e Reskilling: A Era da Oportunidade

Na mensagem final, Auri resume: a IA reforça a necessidade de intencionalidade no investimento de tempo, recurso e engajamento das pessoas. Sem clareza, cada um age como achar melhor. Quimura acrescenta que estamos vivendo o início de uma transformação histórica. O que importa é acelerar a jornada do conhecimento e nunca parar de estudar. A sensação contínua de estar aprendendo algo novo é indescritível e não tem preço. Se você quer continuar relevante para a sociedade e para as organizações, precisa voltar para a cadeira, ler os livros, ver os filmes e entender como colaborar e tirar vantagem dessa mudança de era.

Conclusão: Intencionalidade, Curiosidade e Aprendizado Contínuo

Caio encerra o episódio convidando os ouvintes a seguirem os convidados no LinkedIn e a acompanharem a Blip nas redes sociais (@blipbr e @insideblip). A mensagem final é de otimismo e ação: a IA não é um alienígena que vem para substituir os humanos, mas uma ferramenta poderosa que, usada com intencionalidade, governança e cultura adequadas, pode impulsionar empresas e carreiras. O aprendizado contínuo, a curiosidade e a humildade de saber que não se sabe são os verdadeiros diferenciais nesta nova era.