Introdução: O Tênis em Ascensão no Brasil
O universo do tênis no Brasil está passando por uma transformação significativa. Historicamente visto como um esporte elitizado, ele tem ganhado novos contornos, impulsionado por mudanças culturais, o surgimento de novas modalidades e a crescente busca por bem-estar e lifestyle. Para entender esse fenômeno, recebemos na Arena do CEO um dos maiores conhecedores do varejo esportivo brasileiro, Renato Zimmermann, da Bai Esports. Com mais de 50 anos de atuação no mercado, Renato compartilha sua visão sobre a evolução do esporte, o comportamento do consumidor, as tendências e o futuro do tênis no país, em uma conversa que revela os segredos de um mercado em plena ebulição.
A Jornada de 50 Anos no Varejo Esportivo
A história de Renato no varejo esportivo se confunde com a própria história do tênis no Brasil. A Baiar, empresa com 70 anos de história, atua no setor esportivo desde 1976. Ele presenciou a evolução desde a importação de raquetes de madeira do Paquistão por seu pai até a era das raquetes de grafite e titânio. No início, o mercado era carente de oferta, com apenas duas marcas nacionais (Mercur e Doni) fabricadas em Manaus. A importação era um desafio devido às altas taxas, como os 70% de imposto de importação que tornavam o produto final extremamente caro.
Segundo Renato, a grande evolução veio com a tecnologia dos materiais. Das raquetes de madeira, passou-se ao alumínio e aço (como os modelos T2000 da Wilson) até chegar à grafite, que revolucionou a performance. O encordoamento também evoluiu, saindo da exclusividade da tripa natural para uma miríade de opções sintéticas que permitem ajustes finos para cada estilo de jogo. Essa evolução técnica foi crucial para tornar o esporte mais acessível e aumentar a base de praticantes.
O Tênis, o Bit Tênis e o Lifestyle
Uma das maiores transformações observadas por Renato é a crescente interseção entre o tênis e outras modalidades de raquete, especialmente o Bit Tênis. Ele acredita que o Bit Tênis serviu como uma porta de entrada para o esporte, especialmente porque é mais fácil de ser praticado e extremamente social. "Pessoa já sai jogando", afirma. O fenômeno do Bit Tênis, que explodiu na pandemia, ajudou a democratizar o esporte de raquete, criando uma nova geração de praticantes que, em busca de mais técnica, podem migrar para o tênis.
Além disso, o tênis está cada vez mais vinculado a um estilo de vida (lifestyle). Renato observa que as pessoas não buscam apenas a competição, mas o networking e o pertencimento a uma comunidade. Assim como o surf, que vendeu um estilo de vida para pessoas que nunca pegaram uma onda, o tênis transcende a prática esportiva. As marcas investem em coleções de vestuário que vão além da quadra, com peças que identificam o tenista em seu dia a dia. Esse movimento, que transforma o esporte em lifestyle, é fundamental para o crescimento do mercado e do varejo, pois expande o público para além dos atletas e entusiastas.
Desafios do Varejo: Atendimento, Estoque e a Importância da Loja Física
No varejo esportivo, a experiência do cliente é um diferencial competitivo crucial, especialmente em um mundo dominado pelo e-commerce. O cliente de tênis busca uma loja que ofereça não apenas produtos, mas conhecimento e atendimento especializado. A Baiar investe pesadamente nisso, treinando sua equipe para entender as nuances do esporte: desde o peso e balanço da raquete até o tipo de corda e tensão ideais para cada jogador.
Renato destaca a importância do encordoamento como um serviço que mantém a loja física relevante. O cliente pode levar sua raquete, almoçar e buscá-la pronta, um serviço que não pode ser facilmente replicado online. No entanto, manter esse serviço de qualidade é um desafio, pois a mão de obra especializada é escassa. A Baiar investe em treinamento, como o curso da escola europeia ESRA, para garantir que seus encordoadores entreguem um serviço de excelência. A gestão de estoque também é complexa, pois cada marca lança coleções com frequência, exigindo um equilíbrio entre ter variedade e não acumular produtos parados.
O Elitismo, a Popularização e o Mercado Atual
Apesar de sua crescente popularidade, Renato considera o tênis ainda um esporte elitizado no Brasil. A principal razão é a escassez de infraestrutura: há poucas quadras públicas, e os clubes com boas instalações têm custos de acesso elevados. No entanto, novas iniciativas, como a rede Fest Tênis, que está democratizando o acesso com um modelo de franquias similar ao de academias de baixo custo, estão mudando esse cenário. Renato vê um enorme potencial de crescimento, especialmente se forem construídas mais quadras, o que tornaria o esporte mais acessível.
O mercado teve altos e baixos. O boom do Guga Kuerten e dos torneios como o Brasil Open trouxeram visibilidade, mas a curva de crescimento se estabilizou depois. O pós-pandemia, no entanto, gerou um novo pico de interesse, com o Bit Tênis e o tênis se beneficiando da busca por atividades ao ar livre. Hoje, o Brasil é um mercado de olho no consumidor que viaja e compara preços, mas a facilidade de parcelamento e a quase simultaneidade dos lançamentos nacionais e internacionais têm mantido o consumidor comprando no país.
O Consumidor e as Tendências do Mercado
O consumidor de tênis, segundo Renato, é uma mistura de emoção e razão. O lado emocional é movido pela vontade de ser o primeiro a ter a nova raquete do ídolo ou a peça de roupa da coleção de um torneio. O lado racional vem com a experiência: o cliente pesquisa, compara preços e entende que trocar de raquete apenas pela mudança estética nem sempre vale a pena. O acesso à informação, com canais como o YouTube e o Instagram, tornou o consumidor muito mais conhecedor, o que eleva a exigência por atendimento técnico de qualidade.
Uma das grandes tendências para o futuro é a adaptação do tênis a uma audiência mais jovem e dinâmica. Renato mencionou o Ultimate Tennis Showdown (UTS), uma nova modalidade criada pelo técnico francês Morataglou que promete partidas mais curtas e emocionantes. As regras são totalmente reformuladas: são quatro tempos de 8 minutos, não há vantagem, e o jogador pode puxar um "curinga" para um ponto valer três. Essa inovação busca atrair a geração que não tem paciência para assistir a uma partida de três horas, seguindo a tendência de outras modalidades, como a Kings League no futebol.
A Nova Geração e a Importância dos Ídolos
Renato acredita que o crescimento do tênis no Brasil está diretamente ligado à figura de ídolos. Atualmente, o grande nome é João Fonseca, um jovem jogador carismático que está inspirando uma nova geração. "O Brasil precisa de ídolos", afirma Renato. A presença de um herói nacional é fundamental para que as crianças se identifiquem com o esporte e queiram praticá-lo.
O Rio Open também é citado como um importante motor de crescimento, por trazer os melhores jogadores do mundo ao Brasil e criar um calendário de eventos de alto nível. A esperança é que, com João Fonseca e outras jovens promessas, como a Vitória Barros, que treina na academia do técnico Morataglou na França, o tênis brasileiro volte a ter uma era de ouro, impulsionando ainda mais o interesse e o consumo no esporte.
Conclusão: Uma Palavra sobre o Futuro do Tênis
A conversa com Renato Zimmermann revela um esporte em transição. O tênis está se movendo do elitismo para uma maior popularidade, impulsionado por novas modalidades, pela tecnologia e pela mudança no comportamento do consumidor. A indústria está de olho nas inovações, como o UTS, para atrair o público jovem, ao mesmo tempo que mantém a tradição e a elegância que sempre foram sua marca.
O futuro do tênis no Brasil parece promissor, com uma base de praticantes em expansão, uma infraestrutura que começa a se diversificar e ídolos em ascensão. Para o varejo, a chave está em continuar oferecendo uma experiência única, combinando a técnica apurada no atendimento com a adaptação às novas formas de consumo e entretenimento. Em palavras de Renato, o tênis hoje é representado por João Fonseca – um símbolo de esperança, renovação e do potencial de crescimento do esporte no país.