A arte de registrar o que os olhos não veem com Alexandre Bos e Bia Freitas

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Neste episódio do podcast Tomorrow Talks, os apresentadores João Pedro Morais e Bruno Betega recebem Alexandre Bozo e Bia Freitas, fotógrafos especializados em casamentos e um dos nomes mais premiados de São Paulo. Com mais de 500 casamentos e 30 prêmios em 15 anos de carreira, eles se destacam pelo olhar documental e linguagem de cinema, registrando histórias no Brasil e no exterior. A dupla também fotografou o casamento de João Pedro, o que torna a conversa ainda mais pessoal e rica em detalhes.

O papo vai muito além da técnica fotográfica. Eles abordam a complexidade emocional de um casamento, a importância da assessoria, o valor real do trabalho do fotógrafo, as mudanças pós-pandemia, os efeitos das redes sociais, a diferença entre fotografia documental e estética forçada, e histórias inusitadas — incluindo uma em que Alexandre “fugiu” com a noiva para um boteco de esquina.

Casamento: um ambiente planejado, mas descontrolado

Alexandre explica que, apesar de todo o planejamento, um casamento é inerentemente descontrolado. São dezenas de fornecedores, centenas de convidados, o clima, os imprevistos, os atrasos. “É pintar um quadro em branco”, resume. A equipe de fotografia precisa estar pronta para tudo — e muitas vezes o que dá certo é fruto de sorte, experiência e rápida adaptação.

Eles relembram o casamento de João Pedro, que ocorreu no horário exato do pôr do sol, com uma luz perfeita que raramente se repete. “Fizemos algumas dezenas de casamentos depois do seu, e não lembro de um sol tão perfeito naquele momento, no lugar certo”, diz Alexandre. A foto se tornou icônica e serviu de referência para muitas noivas que depois contrataram a dupla.

Um dos pontos centrais da conversa é a importância de uma boa assessoria de casamento (cerimonialista). João Pedro admite que só deu valor à assessora no dia do evento, quando ela resolveu problemas que ele nem imaginava — como tirar uma coxinha de sua mão para que ele não ficasse cinco minutos parado com um convidado aleatório. Alexandre complementa: “O fotógrafo e a assessora são as pessoas que mais trabalham no casamento”. Sem uma assessora experiente, o noivo e a noiva perdem tempo, a festa pode desandar e a fotografia sofre com o estresse geral.

Documental vs. estética: o dilema do fotógrafo contemporâneo

Há três grandes estilos de fotografia de casamento, explicam eles:

  • Tradicional: fotos pousadas, dirigidas, olhando para a câmera. É a foto que a mãe espera.
  • Documental: capturar o momento como ele acontece, com mínima interferência. O fotógrafo deve ser invisível, registrando lágrimas, gargalhadas, olhares espontâneos.
  • Estético/dirigido: foco na beleza da imagem, na luz, no ângulo perfeito, às vezes com poses ensaiadas.

Alexandre e Bia são essencialmente documentais, mas hoje enfrentam um desafio: as noivas querem o documental, mas também querem estética. “Chega uma foto de uma gargalhada, a noiva fala: ‘ai, que lindo, mas abaixei o queixinho, deu um volume, você não tira?’”, relata Bia. Isso força o fotógrafo a equilibrar a pureza do momento com a busca pela imagem “instagramável”.

A discussão se conecta ao efeito das redes sociais. Hoje, muitas noivas estão mais preocupadas com a ostentação e com a perfeição estética do que com o amor e a celebração. “Ela quer saber se o braço não ficou gordo, se o vestido está impecável, se vai receber muitos likes”, observa Alexandre. A fotografia documental, que valoriza a verdade do momento, às vezes entra em conflito com essa busca pela imagem irretocável.

Por outro lado, o Instagram também prejudicou a fotografia por criar uma cultura de imediatismo. “A noiva sai do casamento às 5h da manhã, às 7h já manda mensagem: ‘Já tem foto?’”, conta Alexandre. O trabalho de pós-produção (selecionar 1.500 fotos entre 9.000, tratar, equilibrar cor) leva meses, mas a geração digital não quer esperar.

O valor da fotografia: por que é “cara” e mal compreendida

Alexandre faz um cálculo didático para mostrar que a fotografia de casamento de qualidade não é cara — ela é mal compreendida. Um casamento médio envolve:

  • Ensaio pré-casamento (um dia inteiro, às vezes 12 horas, como nos “doramas” japoneses que contam a história do casal).
  • Dia do casamento: em média 12 horas de cobertura, com no mínimo 4 a 6 profissionais (fotógrafos, videomakers, assistentes, drone).
  • Três meses de pós-produção (edição, seleção, tratamento).
  • Equipamentos que ultrapassam R$ 200 mil, atualizados a cada 1,5 ou 2 anos.

Se o pacote custa R$ 15 mil (valor médio), dividido entre 10 pessoas por 4 meses, e considerando que o fotógrafo entrega cerca de 1.500 fotos, cada foto sai por R$ 10. É menos do que um ensaio de 15 minutos em um estúdio popular. “Se você for tirar uma foto do seu filho na escolinha, custa R$ 100”, compara Alexandre.

A percepção de valor, porém, só vem depois do casamento. “Minha mãe tem demência, mas eu tenho o álbum de casamento dela. O fotógrafo era um visionário em 1974 e fez um trabalho documental. Eu vejo minha mãe jovem, sorrindo, e aquilo é uma relíquia de família”, emociona-se Alexandre. O mesmo vale para os filhos: quando eles tiverem 30 anos, vão ver os pais jovens, apaixonados, felizes. “Isso não tem preço.”

Histórias inusitadas: a noiva que precisou de um boteco

Uma das histórias mais memoráveis (e engraçadas) envolve uma noiva que, minutos antes da cerimônia, começou a passar muito mal de nervoso — com urgência fisiológica. O motorista da limusine havia sumido, e a noiva, desesperada, implorou a Alexandre que dirigisse o carro para longe dali. “Nunca dirigi uma limusine, mas é um carro”, pensou ele. Foram parar em um boteco de esquina, com banheiro precário (descarga de puxar cordinha). Alexandre entrou com a noiva vestida de princesa, segurou o vestido, virou o rosto para a parede e esperou. “Pensa que eu sou sua melhor amiga, esquece que sou fotógrafo.” A noiva se aliviou, voltou com a cor do rosto, e conseguiu fazer o casamento lindamente — ninguém além dos dois e da equipe soube o que aconteceu. “Ela me segue até hoje, manda mensagem ‘ai, saudade de vocês’”, conta Alexandre, rindo. A identidade da noiva jamais foi revelada.

Outros casos incluem padres que atrasaram, padres que deram bronca na noiva durante a cerimônia (“Você vai acordar gorda daqui 10 anos”), madrinhas que quebraram o carro no caminho, e a assessora que disse “não está um caos, nem te conto” para a noiva recém-chegada — um clássico do que não fazer.

A pandemia e o recomeço

Para os fotógrafos de casamento, a pandemia foi devastadora. Eles foram os primeiros a parar e os últimos a voltar. Mais de 80 casamentos foram remarcados, alguns três ou quatro vezes. “Ficamos literalmente três anos sem trabalhar com dinheiro novo, só vivendo do que já tinha sido vendido”, lembra Alexandre. Muitos colegas quebraram, perderam tudo, migraram de profissão. O casal, que também tinha um buffet infantil, acumulou prejuízos e estresse.

João Pedro conta que seu casamento, em abril de 2021, foi um dos primeiros liberados após o pico da pandemia, na Bahia. “A alegria das pessoas que estavam ali era indescritível. Quem foi estava de corpo e alma. E a felicidade dos fornecedores ao retomar o trabalho foi emocionante.” Alexandre concorda: “Ver as pessoas se reencontrando, podendo abraçar de novo — foi vida voltando”.

15 anos: a nova fronteira do mercado de eventos

Surpreendentemente, a dupla revela que tem feito tantas festas de 15 anos quanto casamentos — e os 15 anos estão, em muitos casos, mais luxuosos e caros. “A gente não anuncia, é tudo indicação”, diz Alexandre. O mercado está aquecido, e eles já estão fotografando os filhos dos primeiros casais que atenderam. “Fotografei uma menina do nascimento até os 10 anos, depois a pandemia interrompeu, e agora fotografei os 15 anos dela. Foi uma emoção rever a família inteira.”

Além disso, eles expandiram para criação de conteúdo para empresas e fotos de arquétipo (branding pessoal de executivos), aproveitando a demanda do ambiente digital. “Hoje, o cliente decide se você é bom em 3 segundos olhando seu Instagram. Você tem que ter uma imagem forte.”

A volta do analógico e a busca por experiências táteis

Em um movimento curioso, Alexandre conta que há rumores de que casamentos de altíssimo padrão estão voltando a usar filme fotográfico. “O cara quer pegar na mão, quer ter o negativo, quer folhear um álbum”, explica. É uma tendência global de retorno ao analógico — assim como o vinil voltou a ser apreciado, a fotografia impressa ganha novo valor romântico. “É mais caro, mais demorado, mas é uma experiência sensorial diferente.”

Isso contrasta com a realidade atual: hoje, apenas 1 em cada 10 casais faz álbum. “Quase a gente não vende mais álbum, só o digital”, admite Bia. A velocidade e o imediatismo digital venceram a paciência e o tato — pelo menos para a maioria.

Conselhos práticos para noivos e noivas

Ao final, Alexandre e Bia deixam conselhos para quem está planejando casamento:

  • Invista em uma assessoria de qualidade. É a pessoa que vai salvar o seu dia. Uma assessora inexperiente ou desastrada pode destruir a festa e impactar a fotografia.
  • Valorize a fotografia desde o início. Não terceirize a decisão para “amigo que tem câmera”. Profissionais experientes sabem ler luz, dirigir sem aparecer e captar momentos que você nem viu.
  • Não proíba totalmente as fotos protocolares. Reunir a avó, os pais, os irmãos para uma foto dirigida é uma relíquia para o futuro. “Você pesou a gente, então me dá 5 minutos para a foto da família”, brinca Alexandre.
  • Peça aos convidados para guardar os celulares. Algumas noivas estão colocando avisos no convite e pedindo ao celebrante para repetir: “Contratei ótimos fotógrafos, curtam o momento”. Isso evita o “mar de telas” e permite que a emoção seja vivida de verdade.
  • Entenda que nem tudo está sob controle. O sol pode não aparecer, o padre pode atrasar, o carro das madrinhas pode quebrar. Uma equipe experiente contorna isso. Relaxe e aproveite.

E, claro, se você quiser uma foto documental de qualidade, com sensibilidade e técnica, o Instagram deles é @fotografoalexandrebozo. Eles atendem em São Paulo, Brasil e exterior, e também fazem 15 anos, ensaios de casal e fotografia corporativa.

O episódio termina com João Pedro e Bruno agradecendo a dupla pela generosidade em compartilhar histórias tão íntimas e profissionais. Fica a mensagem: a fotografia de casamento não é sobre apertar um botão. É sobre estar presente, invisível, e transformar um dia que passa voando em uma relíquia que atravessa gerações.