#53 - GUSTAVO GIGLIO

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A Jornada de Gustavo Giglio: Mentor, Cafezeiro e Músico

Gustavo Giglio é um profissional multifacetado que construiu uma carreira de sucesso no mundo do entretenimento, marketing e cultura pop. Após passagens de destaque como curador do CCXP e líder na Omelete Company, onde passou 10 anos, Gustavo decidiu seguir um novo caminho. Ele identificou que, após muitos anos liderando equipes e projetos em um ambiente corporativo grande e burocrático, estava cansado do sistema e pronto para se aventurar como empreendedor independente. Sua saída do emprego fixo foi uma decisão consciente, planejada com anos de preparação financeira, investimentos e planos B e C. Ele destaca que não tinha dependentes (sem filhos, mãe ou irmãos que dependessem dele), o que lhe deu a liberdade para dar esse passo.

Atualmente, Gustavo se dedica a três frentes principais: mentoria e consultoria, sua marca de café Coffee Hunter e o projeto musical Kisser Clan (onde toca baixo com Andreas e Yan Kisser). A mentoria, que começou quase por acaso (300 pessoas demonstraram interesse em poucos dias), cresceu e hoje conta com um grupo de 55 mentorados. Ele não planeja escalar o negócio de forma massiva, mas sim manter um grupo seleto com quem troca ideias, indicando profissionais, realizando encontros presenciais e masterclasses. A mentoria virou uma rede de network ativa, onde os próprios participantes já fazem negócios entre si. Já o Coffee Hunter é sua marca de café, que ele finalmente conseguiu expandir com novos lançamentos, produtos em colaboração com outras marcas (branded coffee) e uma plataforma mais consistente. Por fim, o Kisser Clan, que ele considera um "hobby muito sério", realizará shows no final do ano, incluindo o tradicional Patfest no dia 26 de novembro na Audio (em São Paulo), onde recebem convidados especiais como Sand (Andria) e Bada.

O Mercado de Criadores de Conteúdo: Entre a Utilidade, a Curadoria e a Autenticidade

Gustavo analisa o atual cenário dos criadores de conteúdo sob uma perspectiva crítica. Para ele, a palavra curadoria nunca fez tanto sentido e é essencial tanto para quem produz quanto para quem consome. O criador de conteúdo que deseja se destacar hoje precisa ser útil para sua comunidade, e não apenas perseguir métricas de vaidade como número de likes. Ele ressalta que a autenticidade e a coerência são fundamentais, pois o público hoje confia mais em influenciadores do que na própria mídia tradicional, justamente por se sentir mais próximo.

No entanto, o mercado impõe desafios. As plataformas priorizam o tempo de engajamento, forçando criadores a produzir conteúdo freneticamente, o que leva à ansiedade, burnout e à sensação de que é preciso publicar todo dia. Gustavo acredita que a métrica de sucesso não deveria ser a quantidade de likes, mas o impacto real na vida de alguém. Um conteúdo pode mudar a vida de uma pessoa sem ter 50.000 curtidas. Ele critica a mentalidade de que sucesso é ser famoso, ganhar produtos e ser convidado para eventos, o que chama de 'subcelebridade'. Para ele, muitos criadores se frustram porque não se perguntam qual é o seu propósito.

A grande questão é: o criador deve se espelhar em quem fala para milhões (seguindo a cartilha do algoritmo) ou em quem constrói uma base menor, porém engajada (onde 3.000 pessoas impactadas de verdade já é um número imenso)? Gustavo defende o segundo caminho: ser útil, ter coerência, uma frequência sustentável e uma distribuição inteligente de conteúdo. Ele também alerta para o perigo de se tornar refém do algoritmo e da comparação, e reforça a importância de filtrar o que se consome nas redes sociais, fazendo uma curadoria ativa (silenciar, deixar de seguir, indicar 'não tenho interesse').

A Relação entre Marcas, Criadores e o Fenômeno das Colaborações

Gustavo também aborda o relacionamento entre marcas e criadores de conteúdo. Ele nota que o mercado evoluiu, e muitos criadores são vistos pelas marcas como meros espaços de mídia (garotos-propaganda), onde compram audiência como antigamente se comprava um banner ou um anúncio na televisão. Ainda prevalece a lógica dos números e do volume: contratar cinco criadores que somam 200 milhões de alcance em vez de três que são excelentes para o nicho. No entanto, há exemplos de marcas (como a New Era e a G-Shock, parceiras de Gustavo) que fazem o oposto: elas constroem relacionamento de longo prazo, dão liberdade criativa e tratam o criador como cocriador, não como mera mídia. O segredo, segundo ele, é quando a marca entende que o criador pode ser um representante autêntico de seus valores e não apenas um canal de divulgação.

O episódio dedica uma parte significativa à análise das colaborações (colabs) no mundo dos sneakers. Gustavo acredita que as colabs, quando bem feitas, são poderosas porque unem duas marcas (ou uma marca e um artista) que emprestam credibilidade e territórios uma à outra, juntando comunidades e criando storytelling. O sucesso de uma colab está na sinergia, na história e na exclusividade. No entanto, ele observa uma banalização das colaborações nos últimos anos, com repetição, falta de inovação e produtos que se resumem a 'dois logos um do lado do outro'. Quando banaliza, perde-se o interesse e o desejo. Exemplos de colaborações bem-sucedidas no passado, como Nike com Off-White ou a parceria da CCXP com a Puma (liderada por ele), mostraram que é necessário contexto, adequação, campanha e exclusividade para gerar hype real.

Nike, New Balance e a Crise de Hegemonia no Mercado de Sneakers

Uma das discussões mais acaloradas foi sobre a situação atual da Nike no mercado de sneakers. Enquanto um lado defende que a Nike ainda é a maior, vende muito e domina o mercado, o outro argumenta que a marca entrou em uma crise criativa e de identidade. A crítica é que a Nike se tornou repetitiva, sem inovação de produto e sem colaborações que realmente impactem o público nichado (heavy users). Enquanto isso, concorrentes como New Balance e Asics cresceram significativamente, ocupando o espaço de desejo e inovação que antes era da Nike.

Gustavo pontua que a New Balance, por exemplo, conseguiu se transformar de um 'tênis de tiozão' para uma marca desejada pelo público jovem e sneakerhead, através de uma estratégia conservadora, porém eficaz: poucas colaborações, mas muito bem pensadas, com um squad fixo de criadores (como Jaden Smith, Action Bronson e Joe Freshgoods), que trazem exclusividade e mantêm o hype. Já a Nike, apesar de ainda ser a marca de esporte mais vista na Copa do Mundo (através dos atletas) e ter um faturamento gigantesco, perdeu market share e top of mind entre os entusiastas.

Há uma divergência de opinião sobre o que a Nike representa: para alguns, é uma marca de esporte; para outros, transcendeu o esporte e virou lifestyle. A conclusão é que a Nike precisa urgentemente de inovação em produto, de novas silhuetas que criem imaginário e de um retorno à criatividade que um dia a tornou hegemônica.

Bate-Bola e Número do Dia

No quadro de perguntas rápidas (bate-bola), Gustavo respondeu:

  • Tênis preferido: Air Jordan 1 e Air Jordan 4.
  • Marca que mais surpreendeu nos últimos dois anos: BAPE e Asics.
  • Tendência que ainda vai pegar: Acessórios masculinos como lenços e a crescente do mercado de relógios (seguindo a receita de edições limitadas e colaborações).
  • Banda favorita: Metallica e Sepultura (nacional).
  • Filme recomendado: 'One Battle After Another' (com DiCaprio) e 'Sinners'.
  • Série recomendada: House of Guinness (Netflix) - embora os primeiros episódios comecem mal, após o quarto episódio a série engata e se torna muito boa (estética e história de guerra pelo poder, lembrando 'Succession' com 'Peaky Blinders').

O número do dia foi 2:29 (dois horas e vinte e nove minutos), relacionado ao tempo de duração de um filme. A resposta: 2:29 é o tempo exato em que Thanos estala os dedos em "Vingadores: Guerra Infinita" (Avengers: Infinity War). A curiosidade foi apresentada como um número misterioso relacionado a um filme de super-herói.