#15 / SOS Educação - SXSW, Relação Família x Escola e Novas Gerações - com Taís e Roberta Bento

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Taís e Roberta Bento são referências nacionais quando o assunto é a relação entre família e escola. Mãe e filha, ambas com formação sólida em educação e especializações internacionais em neurociência cognitiva e aprendizagem cooperativa, elas fundaram o SOS Educação — projeto que se tornou o maior Instagram do Brasil voltado para gestores escolares, professores e famílias com filhos em idade escolar.

Roberta Bento é graduada em Letras, com especialização em formação de professores de línguas pela International House (Inglaterra), pós-graduação em Marketing e Gestão de Pessoas pela FGV, e especializações em Aprendizagem Baseada no Funcionamento do Cérebro pela Universidade da Califórnia e pela Duke University, além de Aprendizagem Cooperativa pela Universidade de Minnesota e pela Universidade de San Diego.

Taís Bento é pedagoga formada pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-graduação em Marketing pela FAAP e as mesmas especializações internacionais da mãe em neurociência e aprendizagem cooperativa. Juntas, as duas são autoras do livro Socorro, meu filho não estuda! e do Guia para Família Parceira da Escola no Pós-Pandemia, publicado em parceria com o Instituto Ayrton Senna. Como palestrantes, viajam o mundo ajudando escolas a fortalecerem sua relação com as famílias.

Neste episódio de número 15, gravado para o canal NR Oficial, as especialistas compartilham as principais percepções de uma recente viagem ao SXSW (South by Southwest), o festival de inovação, tecnologia e cultura realizado em Austin, Texas. A partir dessa experiência, a conversa se desdobra em reflexões profundas sobre os desafios das novas gerações, o papel da escola e da família na era digital, e o que o futuro da educação reserva para crianças e adolescentes brasileiros.


O SXSW e a Educação: O que acontece em Austin que importa para o Brasil?

O SXSW — South by Southwest — é muito mais do que um festival de música ou tecnologia. Ao longo das décadas, tornou-se um dos maiores termômetros globais de tendências em inovação, cultura e comportamento humano. Para educadores atentos, participar do evento é mergulhar em discussões que, muitas vezes, só chegarão às salas de aula brasileiras anos depois.

Taís e Roberta foram ao SXSW com um olhar específico: identificar o que está sendo discutido no mundo sobre infância, adolescência, educação e tecnologia, e traduzir isso para a realidade das escolas e famílias brasileiras. O que elas encontraram confirma — e amplifica — muitos dos alertas que já faziam em seu trabalho cotidiano.

Entre os temas mais presentes no evento estavam o bem-estar digital de crianças e jovens, o impacto da inteligência artificial no aprendizado, a formação de uma geração crescentemente bilíngue, e a urgência de projetos educacionais que integrem diversidade, equidade e inclusão. Não se tratava de discussões abstratas ou futuristas: eram conversas sobre o que está acontecendo agora, nas casas e nas escolas, com crianças reais.

Um dos pontos que mais chamou atenção das educadoras foi a discussão sobre o uso de inteligência artificial por crianças para substituir interações humanas. Há casos documentados de alunos que usam assistentes de IA para praticar apresentações orais — evitando o desconforto de se expor diante de colegas e professores. Embora a tecnologia possa ser uma aliada, o episódio aponta para um risco sério: o de que a conveniência digital enfraqueça habilidades socioemocionais essenciais, como a tolerância à frustração, a escuta ativa e a empatia.


Novas Gerações: Quem são os filhos que chegam às escolas hoje?

Um dos eixos centrais do episódio é a compreensão das chamadas novas gerações — crianças e adolescentes nascidos na era digital, para quem a tecnologia nunca foi uma novidade, mas sempre foi o ambiente natural de existência.

Taís e Roberta são enfáticas: não se trata de julgar ou romantizar essa geração. Trata-se de compreendê-la para poder educá-la com eficácia. Esses jovens têm características muito particulares: são multitarefas por natureza, têm dificuldade crescente de manter a atenção por longos períodos, buscam gratificação imediata e estão acostumados a um fluxo constante de estímulos visuais e sonoros. Isso não os torna incapazes de aprender — mas exige que as estratégias de ensino sejam profundamente repensadas.

A neurociência cognitiva, campo no qual ambas as educadoras têm especialização, oferece bases sólidas para entender o que acontece no cérebro dessas crianças. O excesso de estímulos digitais pode interferir na formação de circuitos de atenção sustentada, memória de trabalho e regulação emocional. Ao mesmo tempo, o cérebro humano é extraordinariamente plástico: com o ambiente certo, com as relações certas e com mediação adequada, é possível desenvolver todas essas capacidades — mesmo em crianças que cresceram hiperconectadas.

O que preocupa não é a tecnologia em si, ressaltam as especialistas, mas a ausência de mediação adulta. Quando crianças têm acesso irrestrito a dispositivos digitais sem que pais e professores estabeleçam limites, rotinas e espaços de reflexão, os prejuízos ao desenvolvimento podem ser duradouros. O SXSW confirmou esse diagnóstico: em todo o mundo, pesquisadores e educadores estão chegando às mesmas conclusões.


A Relação Família x Escola: Por que ela ainda é tão difícil?

A tensão entre família e escola é um tema que Taís e Roberta conhecem profundamente — é, afinal, a razão de existir do SOS Educação. Neste episódio, elas abordam a questão com uma franqueza que é, ao mesmo tempo, reconfortante e desafiadora.

Durante muito tempo, circulou no senso comum educacional a frase: "A escola ensina. A família educa." Essa divisão, aparentemente clara, sempre foi uma simplificação — e hoje é completamente insustentável. Escola e família não são instâncias separadas na vida de uma criança. Elas se interpenetram, se influenciam mutuamente e precisam, necessariamente, agir em parceria para que o desenvolvimento dos jovens seja saudável e integral.

O problema é que essa parceria raramente acontece de forma fluida. As razões são múltiplas. De um lado, muitas famílias chegam à escola com expectativas irreais, dificuldade de aceitar feedback sobre seus filhos, ou ainda com uma postura de consumidor — exigindo resultados sem assumir sua parte no processo. De outro, muitas escolas ainda não desenvolveram a cultura nem as habilidades necessárias para acolher as famílias como parceiras genuínas, tratando-as, muitas vezes, apenas como receptoras de informações.

Taís e Roberta destacam que o caminho para transformar essa relação passa por uma mudança de mentalidade nos dois lados. As famílias precisam entender que a escola não pode (e não deve) fazer tudo sozinha. E as escolas precisam reconhecer que os pais são aliados insubstituíveis — não obstáculos à gestão pedagógica. Quando essa parceria funciona, os resultados para as crianças são comprovadamente melhores, tanto em desempenho acadêmico quanto em saúde emocional.

A pandemia de COVID-19 foi, nesse sentido, um divisor de águas. O período de isolamento forçou famílias a assumirem um papel mais ativo na escolarização dos filhos — e revelou, de forma dolorosa, o quanto muitos pais não conheciam a rotina de estudos de seus filhos, nem tinham ferramentas para apoiá-los. Foi a partir dessa constatação que Roberta e Taís produziram o Guia para Família Parceira da Escola no Pós-Pandemia, com parte da renda revertida para projetos do Instituto Ayrton Senna.


Tecnologia, Limites e o Papel dos Adultos

Um dos momentos mais ricos do episódio é a discussão sobre como os adultos — pais e professores — devem se posicionar diante da tecnologia. Há dois erros simétricos que as especialistas identificam com frequência: a proibição total e a permissividade irrestrita.

Proibir o acesso às telas não é uma solução realista nem pedagogicamente desejável. A tecnologia é parte constitutiva do mundo em que essas crianças vão viver e trabalhar. Excluí-las desse universo seria prepará-las para um mundo que não existe mais. Por outro lado, entregar um dispositivo a uma criança sem qualquer critério, limite de tempo ou acompanhamento é abrir mão da responsabilidade educativa que compete aos adultos.

A mediação é a chave. E mediar não significa apenas controlar o tempo de tela — significa conversar sobre o que a criança assiste, jogá-la com ela, questionar o que aparece na tela, ensinar a distinguir informação de desinformação. Significa, acima de tudo, manter o vínculo afetivo como o principal regulador do comportamento infantil.

Taís e Roberta também alertam para um fenômeno crescente: pais que usam o celular como "babá digital" por exaustão ou falta de tempo, e depois se surpreendem com os comportamentos que isso gera. Não se trata de culpabilizar os pais — a vida contemporânea é exigente e as pressões são reais. Mas é fundamental que as famílias entendam as consequências neurológicas e comportamentais do uso excessivo e não mediado das telas desde a primeira infância.


O Que o SXSW Ensina Sobre o Futuro da Educação

Das discussões observadas no SXSW, as educadoras trouxeram algumas tendências que consideram especialmente relevantes para o contexto brasileiro:

1. Alfabetização digital como urgência — não como opção

Assim como aprender a ler e escrever é uma exigência básica de cidadania, aprender a navegar criticamente no ambiente digital tornou-se igualmente fundamental. Isso inclui entender como algoritmos funcionam, como identificar notícias falsas, como proteger dados pessoais e como usar ferramentas de inteligência artificial de forma ética e produtiva. Escolas que ainda tratam isso como extracurricular estão atrasadas em relação ao mundo.

2. Inteligência artificial como realidade — não como ameaça

A inteligência artificial já está presente na vida das crianças — nos jogos, nas plataformas de streaming, nos aplicativos de estudo. A questão não é se as escolas vão ou não incorporar a IA, mas como vão fazer isso de forma crítica, intencional e pedagogicamente responsável. No SXSW, ficou claro que os educadores mais bem posicionados para o futuro são os que aprendem a usar a IA como ferramenta — e ensinam seus alunos a fazer o mesmo.

3. Habilidades socioemocionais como diferencial irredutível

Em um mundo onde cada vez mais tarefas cognitivas repetitivas podem ser realizadas por máquinas, as habilidades que definem a humanidade — empatia, criatividade, resolução de conflitos, colaboração, resiliência — tornam-se o diferencial mais valioso que a educação pode oferecer. O SXSW reforçou essa mensagem com dados: as empresas mais inovadoras do mundo buscam profissionais que saibam trabalhar em equipe, se comunicar com clareza e lidar com a incerteza.

4. O bem-estar como pré-condição para o aprendizado

Não há aprendizagem de qualidade sem bem-estar emocional. Crianças ansiosas, sobrecarregadas ou desconectadas afetivamente de adultos de referência não conseguem aprender com eficácia — independentemente de quantas horas passem na escola ou em aulas de reforço. O investimento em saúde mental, em ambientes escolares acolhedores e em relações familiares saudáveis não é um luxo: é a base sobre a qual todo o aprendizado se constrói.


O SOS Gestor Escolar e a Missão do Canal NR

Este episódio faz parte de uma parceria entre o SOS Educação e o canal NR Oficial, que reúne conteúdos voltados para a comunidade de pais, educadores e gestores escolares. Taís e Roberta, que também conduzem o podcast SOS Gestor Escolar — lançado em maio de 2023 e publicado semanalmente no YouTube e nas principais plataformas de streaming —, trazem para este episódio o mesmo espírito que define todo o seu trabalho: conversa leve, conteúdo denso, linguagem acessível e foco em soluções práticas.

A proposta do SOS Educação nunca foi apenas diagnosticar problemas. Desde o início, o diferencial do projeto foi oferecer respostas concretas, baseadas em evidências científicas, que famílias e escolas pudessem colocar em prática no dia a dia. É essa postura — a de tradutoras entre a academia e a vida real — que faz de Taís e Roberta uma referência tão singular no cenário educacional brasileiro.


Reflexões Finais: O Que Levar Deste Episódio

Ao longo de mais de uma hora de conversa, Taís e Roberta Bento tecem um panorama honesto e esperançoso sobre o estado da educação no Brasil e no mundo. A visita ao SXSW funcionou não apenas como fonte de inspiração, mas como confirmação de que os desafios que enfrentamos aqui são globais — e que as soluções também podem sê-lo.

A mensagem central do episódio pode ser resumida em uma ideia: nenhuma criança aprende sozinha, e nenhum adulto educa sozinho. A escola precisa da família. A família precisa da escola. Ambas precisam de uma sociedade que valorize, invista e acredite na educação como o caminho mais poderoso de transformação humana e social.

Em um cenário de tantas mudanças — tecnológicas, comportamentais, sociais —, a tentação é buscar soluções rápidas e mágicas. Taís e Roberta oferecem algo mais valioso: uma bússola. Um conjunto de princípios, baseados em ciência e em experiência acumulada, que ajudam famílias e escolas a navegarem com mais confiança e menos ansiedade pelo território desafiador, mas extraordinariamente rico, de educar crianças e adolescentes no século XXI.