#11 / Mais do que esporte - Ferramenta fundamental na educação - com Marcello Mauriz

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No décimo primeiro episódio do podcast "Entre uma Coisa e Outra", apresentado por Quito Vívolo e promovido pelo ecossistema educacional NR, a discussão central ultrapassa as linhas das quadras para investigar o papel do esporte como um dos pilares mais sólidos da educação contemporânea. O convidado de destaque é Marcello Mauriz, Diretor Atlético (Director of Athletics) da Avenues São Paulo e um veterano com mais de 28 anos de experiência na liderança de departamentos esportivos em escolas internacionais. Marcello é reconhecido por sua visão humanista do esporte, acumulando no currículo a participação em 116 torneios escolares, uma marca que reflete uma vida dedicada à formação de jovens através do movimento.

Ao longo de quase uma hora de conversa, Marcello Mauriz e Quito Vívolo exploram como o ambiente esportivo escolar serve como um laboratório seguro para a vida real. Eles discutem a gestão da frustração, o combate ao isolamento digital das telas, a importância da parceria com as famílias e como o currículo global de uma escola pode ser potencializado quando o jogo vai muito além do placar. Este resumo detalhado apresenta as principais lições e estratégias discutidas para transformar o esporte em uma ferramenta de inclusão e desenvolvimento de caráter.

1. O Esporte como Ferramenta de Inclusão e Acolhimento

Marcello inicia relatando sua transição de atleta da natação para educador físico formado pela USP. Embora sua intenção inicial fosse trabalhar apenas com performance técnica, sua entrada no Pueri Domus o encantou pelo potencial transformador do esporte no ambiente escolar. Diferente de um clube, onde o foco muitas vezes reside na descoberta de talentos naturais, a escola oferece a oportunidade de abraçar todos os alunos, independentemente de sua aptidão física inicial.

O diretor defende que o esporte escolar deve ser, primordialmente, inclusivo. Ele rompe com a lógica de seletivas rígidas que excluem a maioria para focar apenas em uma elite técnica. Para Marcello, o objetivo principal é o desenvolvimento do caráter e de competências socioemocionais como responsabilidade, liderança e espírito de equipe. Ele destaca que, para alunos novos que chegam a uma instituição, o esporte é o caminho mais curto para a interação social e o sentimento de pertencimento, baseados nos pilares de acolhimento, segurança e respeito (Welcome, Safety and Respect).

2. A Pedagogia da Vitória e da Derrota

Um dos temas mais sensíveis da educação física atual é como ensinar os jovens a lidar com o resultado. Marcello enfatiza que os alunos-atletas devem aprender a vencer com elegância e perder com dignidade. O esporte oferece um ambiente controlado onde a criança pode "criar casca", aprendendo a gerenciar emoções intensas de forma segura.

Ele compartilha uma história emblemática para ilustrar o conceito de teachable moment (momento ensinável): uma equipe feminina de basquete que, em um torneio no NR, sofreu uma derrota esmagadora de 40 pontos. As alunas saíram frustradas e sentindo-se desrespeitadas pelo adversário. No jogo seguinte, contra outra escola, elas venceram pela mesma diferença de 40 pontos. Nesse momento, o técnico interveio para ensinar sobre empatia: "Como vocês se sentiram ontem e o que podem fazer hoje para que o time que perdeu não tenha a mesma experiência negativa?". Essa capacidade de transferir o aprendizado da quadra para as relações humanas é o que Marcello define como a verdadeira mágica do esporte educacional.

3. O Antídoto contra a Geração das Telas

Em um mundo dominado pelo imediatismo digital e pelo sedentarismo das redes sociais, o esporte escolar atua como uma barreira protetora. Marcello relata com satisfação o fenômeno de adolescentes de 14 a 17 anos que acordam às 5h15 da manhã para estarem prontos para treinar às 6h, antes do início das aulas regulares.

Esse nível de comprometimento exige uma reorganização da rotina: o jovem precisa largar o celular mais cedo, priorizar o sono e contar com o apoio logístico da família. Marcello destaca os benefícios cognitivos dessa prática: o aluno que inicia o dia em movimento chega à sala de aula mais focado, alimentado e mentalmente desperto. Ele defende que as escolas deveriam normalizar a oferta de atividades físicas logo cedo, unindo esporte e nutrição (como a distribuição de frutas pós-treino) para combater a apatia e melhorar a performance acadêmica geral.

4. Cultura Escolar vs. Estratégia Familiar

Marcello Mauriz recorre à célebre frase "a cultura engole a estratégia no café da manhã" para explicar que programas esportivos só sobrevivem se forem parte intrínseca da identidade da escola. Um fator determinante para o sucesso dessa cultura é a transparência com as famílias. O diretor não enxerga os pais "superprotetores" como um problema, mas como uma oportunidade de diálogo.

Ele incentiva que os pais questionem e critiquem, pois isso abre espaço para que a escola explique os "porquês" pedagógicos de cada decisão esportiva. Quando a família compreende que o objetivo final é a autonomia e a independência do filho, ela se torna parceira do projeto. Marcello afirma que sem a adesão das famílias, não seria possível manter o volume de treinos e viagens internacionais que o programa exige.

5. Integração com o Currículo Global: A Tabela Periódica de Temas

Na Avenues, o esporte não é uma atividade extracurricular isolada; ele está integrado a um currículo único e global. Marcello explica que os temas trabalhados na quadra — como saúde mental, agilidade mental, história e identidade — estão catalogados em uma estrutura semelhante a uma tabela periódica.

Ele cita projetos interdisciplinares onde o esporte é o pano de fundo para discussões profundas. Por exemplo, estudar as Olimpíadas na Segunda Guerra Mundial através da trajetória de Jesse Owens para discutir racismo e contexto histórico. Ou analisar por que certas modalidades demoraram décadas para permitir a participação feminina, explorando temas de inclusão e exclusão social. Outro exemplo de impacto é o projeto "LIP", que oferece atividades esportivas para a comunidade ao entorno da escola, reforçando o papel social e a identidade comunitária da instituição.

6. Histórias de Transformação: O Caso do Aluno que Virou Líder

Ao ser questionado sobre a "fragilidade" da geração atual, Marcello Mauriz discorda veementemente dos rótulos negativos. Ele vê um potencial imenso de responsabilidade nos jovens, desde que sejam adequadamente desafiados e acolhidos. Ele compartilha a história emocionante de um aluno que enfrentava graves dificuldades acadêmicas e disciplinares.

O jovem entrou no time de basquete e, sob a orientação de um técnico que atuou como mentor, começou a entender o valor do compromisso e do sucesso através do esforço. Ao sentir-se valorizado e elogiado por sua performance esportiva, ele transferiu esse comportamento positivo para a sala de aula. O aluno descomprometido tornou-se o capitão do time, demonstrando um cuidado genuíno com os colegas — como no episódio em que cuidou pessoalmente de um companheiro de equipe lesionado durante uma viagem a Brasília. Para Marcello, esses são os alunos que mais precisam de atenção, pois o esporte é, muitas vezes, o único espaço onde eles conseguem vislumbrar seu próprio valor.

7. Conselhos e Legados: A Influência do Técnico Roberto Guerra

Encaminhando-se para o encerramento, Marcello reflete sobre as influências que moldaram sua própria ética de trabalho. Ele cita seu antigo técnico de natação, Roberto Guerra, que assumiu um papel paterno após o falecimento precoce de seu pai.

Mauriz recorda como, já nos anos 80, Guerra utilizava métodos modernos de visualização e metas, pedindo que cada atleta escrevesse seus objetivos individuais e coletivos em um papel colado na geladeira. A frase marcante de seu mentor, "Morra, mas não entregue", serviu como uma lição de persistência e resiliência que Marcello carrega até hoje e tenta transmitir aos seus alunos: o sucesso não vem do imediatismo, mas do trabalho diário e silencioso.

"Acredite no seu propósito e nunca saia do caminho dos seus valores humanos. Se uma instituição o força a abrir mão disso para privilegiar a vitória a qualquer custo, essa instituição não te merece."

Considerações Finais

Marcello Mauriz encerra o episódio com uma recomendação enfática para os jovens que estão entrando na faculdade ou iniciando carreiras: não abandonem a prática esportiva coletiva precocemente. Embora atividades como Pilates e academia sejam úteis para a manutenção física, o esporte escolar e universitário oferece uma riqueza de formação de caráter e laços de amizade ("a segunda família") que são irreplicáveis na vida adulta.

O podcast deixa uma mensagem clara: em uma sociedade cada vez mais técnica e digital, o esporte humanizado é o que garantirá a formação de cidadãos resilientes, empáticos e capazes de colaborar. A lição de Marcello Mauriz é que o campo de jogo é, antes de tudo, uma sala de aula sem paredes, onde os maiores troféus não são de metal, mas são as virtudes gravadas na personalidade de cada aluno-atleta.