Há anos em que o calendário avança, mas a educação parece permanecer estática. E há anos que parecem conter uma década inteira de transformações. O ano de 2025 pertence claramente ao segundo grupo. Três forças se combinaram de maneira inédita para remodelar a experiência escolar no Brasil: a chegada da inteligência artificial como ferramenta cotidiana dentro e fora das salas de aula, a entrada em vigor da lei federal que proibiu o uso de celulares nas escolas — com resultados de aprendizagem surpreendentes — e o aprofundamento de uma crise silenciosa, mas crescente, na relação entre as instituições de ensino e as famílias.
Para analisar essas transformações a partir de dentro, o episódio #08 do podcast Entre Uma Coisa e Outra, do canal NR Oficial, reúne duas das gestoras escolares mais experientes e respeitadas de São Paulo: Valdenice Minatel, Diretora Institucional e de Tecnologia do Colégio Dante Alighieri, e Cláudia Sartoris Zaclis, Diretora Pedagógica do Colégio Santo Américo. Com décadas de vivência escolar e perspectivas complementares, as duas oferecem uma análise franca, baseada em histórias reais e observações de campo, sobre o que realmente mudou — e o que isso significa para o futuro dos nossos filhos e das nossas escolas.
As Convidadas: Duas Lideranças que Viram a Transformação de Dentro
Valdenice Minatel Melo de Cerqueira é doutora e mestre em Educação — com especialização na linha de pesquisa Novas Tecnologias — pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), e pedagoga formada pela Unicamp. Seu percurso no Colégio Dante Alighieri começou em 1994, como professora de programação e informática — uma raridade naquele contexto. Ao longo de mais de trinta anos na mesma instituição, ocupou posições de crescente responsabilidade: coordenadora de Tecnologia Educacional, coordenadora-geral de Tecnologia, diretora de Tecnologia, diretora-geral pedagógica, até chegar ao cargo atual de Diretora Institucional e de Tecnologia. Com formação complementar em instituições como Harvard, Stanford, Fundação Dom Cabral e EADA Business School, Valdenice é uma referência nacional na interseção entre tecnologia e gestão educacional.
Cláudia Sartoris Zaclis é graduada em Psicologia e mestre em Educação pela PUC-SP, com pós-graduação em Gestão Escolar pela PUC-Paraná. Com 16 anos de atuação no Colégio Santo Américo — instituição fundada em 1951 por monges beneditinos húngaros e mantida pelo Mosteiro São Geraldo de São Paulo —, ela estabeleceu ao longo de sua trajetória uma relação de profunda cumplicidade com alunos, pais e colegas. Sua nomeação como Diretora Pedagógica foi recebida com entusiasmo pela comunidade escolar, que reconhece nela um compromisso genuíno com a formação humana embasada pelos valores beneditinos que guiam o colégio.
Juntas, Valdenice e Cláudia representam duas visões complementares da escola contemporânea: uma com ênfase na tecnologia educacional e na inovação institucional; a outra com foco na formação humana integral e no cuidado com a convivência. A conversa entre elas — mediada pelo apresentador Kito — é rica justamente porque reconhece a complexidade de um cenário em que essas dimensões precisam coexistir e se reforçar mutuamente.
A Revolução da Inteligência Artificial na Sala de Aula
A primeira grande transformação discutida no episódio é a chegada definitiva da inteligência artificial ao cotidiano escolar. Se em 2023 a IA ainda parecia um tema distante para a maioria das escolas brasileiras, em 2025 ela já faz parte do dia a dia de estudantes e professores — com ou sem a mediação das instituições de ensino. Uma pesquisa da Fundação Itaú divulgada no fim de 2025 revelou que 84% dos estudantes e 79% dos professores brasileiros já utilizaram ferramentas de IA. O dado que mais preocupa os gestores, no entanto, é outro: apenas 32% dos alunos disseram ter recebido orientação escolar sobre como usar essas tecnologias de forma adequada e responsável.
Esse gap entre uso e orientação é o ponto central do debate que Valdenice e Cláudia travam no episódio. A IA chegou nas mãos dos alunos antes de chegar nos planos pedagógicos das escolas — e isso criou uma situação delicada. De um lado, jovens que usam ferramentas como o ChatGPT para fazer trabalhos e pesquisas sem qualquer critério de discernimento, sem entender os limites dessas ferramentas, e sem desenvolver o pensamento crítico necessário para avaliar o que recebem de volta. Do outro, professores que enfrentam dificuldade para distinguir o que foi produzido pelo aluno do que foi gerado pela máquina — e que precisam reconstruir sua prática pedagógica num cenário radicalmente novo.
O diagnóstico de Valdenice Minatel é preciso: a IA não é o problema. O problema é o uso sem intencionalidade, sem reflexão e sem formação. Ela aponta que o Colégio Dante Alighieri, com sua longa tradição de integração tecnológica — Valdenice chegou à instituição nos primórdios da informática educacional —, tem trabalhado para incorporar a IA como ferramenta pedagógica legítima, e não como atalho para evitar o pensamento. A IA deve ser um instrumento que amplifica as capacidades do aluno, não um substituto para elas.
Cláudia Sartoris traz à conversa a perspectiva da formação humana: numa escola guiada por valores beneditinos, o desafio não é apenas técnico, mas ético. Ensinar um aluno a usar bem a inteligência artificial é, em última instância, ensiná-lo a ser honesto, a reconhecer seus limites e os das ferramentas que usa, e a valorizar o processo de aprender — não apenas o produto final. Essa dimensão ética do uso da tecnologia precisa ser tão explicitamente ensinada quanto qualquer conteúdo curricular.
O Conselho Nacional de Educação, respondendo a essa urgência, aprovou em março de 2026 normas para o uso de inteligência artificial nas instituições de ensino brasileiras. O documento estabelece que a tecnologia deve funcionar como suporte ao processo pedagógico, e não como substituta do educador — um princípio que ressoa diretamente com o que Valdenice e Cláudia defendem no episódio.
A Lei que Proibiu o Celular: Impactos Impressionantes na Aprendizagem
A segunda grande transformação abordada no episódio é a entrada em vigor da Lei nº 15.100/2025, sancionada pelo presidente Lula em 13 de janeiro de 2025, que restringe o uso de aparelhos eletrônicos portáteis nas escolas públicas e privadas de todo o país — incluindo durante aulas, recreios e intervalos. A medida responde a um debate crescente sobre os impactos negativos do uso excessivo de celulares na concentração, no desempenho acadêmico e na saúde mental dos jovens.
Os dados que Valdenice e Cláudia trazem ao episódio são impressionantes — e estão alinhados com as pesquisas mais robustas sobre o tema. No município do Rio de Janeiro, que antecipou a legislação federal com uma lei municipal em 2024, uma pesquisa conduzida em parceria com a Universidade de Stanford revelou crescimento de 25,7% no desempenho em Matemática e 13,5% em Língua Portuguesa — índices equivalentes a aproximadamente um bimestre adicional de aprendizado. Nas escolas que implementaram a medida de forma plena, alunos do nono ano tiveram performance em Matemática 53% maior do que nas escolas com implementação parcial.
Mas os números, por mais expressivos que sejam, não são o aspecto mais marcante relatado no episódio. O que realmente chamou a atenção das duas diretoras foi a transformação qualitativa observada nos recreios e corredores das escolas. Com o celular fora do alcance, os estudantes voltaram a se olhar nos olhos, a conversar, a brincar, a jogar. Espaços que pareciam ter sido colonizados pelo silêncio individual das telas foram reativados como lugares de encontro, de conversa e de brincadeira. O recreio voltou a ser recreio.
Relatos coletados em diversas escolas — e que ressoam nas falas de Valdenice e Cláudia — descrevem alunos que, surpreendentemente, aderiram à proibição com mais entusiasmo do que se esperava. Muitos relataram que agora conversam mais com os colegas, prestam mais atenção nas aulas e têm a sensação de que o tempo rende mais. Alguns até sugeriram que a escola disponibilizasse mais atividades para os intervalos — ping-pongue, vôlei, peteca, rodas de leitura — o que foi prontamente atendido por diversas instituições.
Nem tudo foi simples, evidentemente. Os primeiros meses da proibição foram marcados por resistência, por episódios de ansiedade e, em alguns casos, por comportamentos que revelaram a profundidade da dependência dos jovens em relação aos aparelhos — fenômeno que a OMS reconhece como nomofobia, o medo irracional de estar sem celular. Mas a avaliação geral das gestoras é inequívoca: a medida foi correta, seus efeitos são positivos e duradouros, e o debate que ela gerou — dentro das escolas, nas famílias, na sociedade — é em si mesmo um resultado valioso.
O Recreio que Voltou a Ser Espaço de Encontro
Um dos momentos mais tocantes do episódio é a descrição do que aconteceu com os intervalos escolares após a proibição do celular. As duas diretoras coincidem ao falar de uma espécie de reencontro — dos alunos consigo mesmos e uns com os outros — que a ausência das telas tornou possível.
Valdenice descreve o recreio no Colégio Dante Alighieri com uma expressão que ficou gravada na conversa: "Retomamos a visão do recreio que já era saudosista e, ainda bem, não é mais." Grupos de alunos conversando, gargalhando, jogando, discutindo — cenas que pareciam pertencer a uma outra época, mas que simplesmente haviam sido deslocadas pelo uso compulsivo do celular, retornaram com força.
Cláudia Sartoris acrescenta que o Santo Américo, fiel à sua tradição de formação humana e convivência, investiu ativamente em preencher o espaço deixado pelos celulares com atividades significativas: jogos de tabuleiro, instrumentos musicais disponíveis nos corredores, atividades esportivas variadas. O objetivo não era apenas proibir, mas ocupar esse espaço com experiências que desenvolvessem habilidades sociais, criatividade e bem-estar — algo que o tempo de tela sistematicamente interrompia.
Esse retorno à socialização presencial tem implicações que vão muito além do recreio. Pesquisadores e psicólogos têm documentado que crianças e adolescentes que passam mais tempo em interações face a face desenvolvem empatia, resiliência emocional e habilidades de comunicação de forma muito mais robusta do que aqueles cuja socialização se dá predominantemente pelas telas. A escola, ao recuperar o intervalo como espaço de convivência real, está cumprindo uma função formativa que transcende qualquer conteúdo curricular.
A Crise na Relação Escola–Família: Presença Física e Grupos de WhatsApp
A terceira grande transformação — e talvez a mais delicada — discutida no episódio é a crise crescente na relação entre as escolas e as famílias. Ela se manifesta em duas dimensões aparentemente contraditórias: de um lado, a ausência física dos pais, que comparecem cada vez menos às reuniões, eventos e atividades escolares; de outro, uma presença invasiva e frequentemente conflituosa nos grupos de WhatsApp, onde comentários impulsivos, desinformação e julgamentos precipitados podem gerar tensões sérias entre famílias, professores e a gestão escolar.
Valdenice Minatel é franca ao descrever esse fenômeno: há pais que não comparecem às reuniões de início de ano, não acompanham o boletim com regularidade, não participam dos eventos da escola — mas que, ao menor sinal de desconforto de seus filhos, aparecem nos grupos digitais com mensagens que rapidamente escalam para conflitos desnecessários. Essa combinação de distância presencial e proximidade digital cria um ambiente de desconfiança mútua que prejudica todos os envolvidos — especialmente as crianças.
Cláudia Sartoris aborda o tema com a sensibilidade de quem vem de uma tradição de escola-comunidade. O Colégio Santo Américo, fundado com uma visão de escola como família ampliada, sempre cultivou uma relação próxima e de parceria com os pais. O que ela observa hoje é uma mudança de expectativa: muitas famílias passaram a tratar a escola mais como um serviço prestado do que como uma comunidade da qual fazem parte. Essa mudança de postura tem consequências diretas na capacidade da escola de educar de forma integral — porque a educação exige coerência entre o que se ensina dentro e fora dos muros escolares.
As duas gestoras convergem num ponto essencial: a solução para essa crise não é defensiva nem confrontacional. É pedagógica. As escolas precisam investir mais em comunicação transparente, em espaços de diálogo genuíno com as famílias, e em explicar o porquê de suas escolhas educativas — não apenas o quê. Quando os pais entendem os fundamentos das decisões pedagógicas, a tendência ao conflito diminui significativamente. O problema surge quando há um vácuo de informação que é preenchido por boatos nos grupos de WhatsApp.
A Escola como Espaço de Encontro, Não de Punição
Um dos temas mais importantes que emerge ao longo da conversa é a necessidade de reafirmar a escola como espaço de encontro — entre gerações, entre saberes, entre formas de ver o mundo — e não como espaço de punição, de vigilância ou de mera transmissão de conteúdo.
Tanto Valdenice quanto Cláudia resistem a uma visão de escola que se define pelo que proíbe, pelo que restringe ou pelo que pune. A proibição do celular, por exemplo, só faz sentido pleno quando acompanhada de uma proposta positiva: o que a escola oferece no lugar do celular? Que experiências, que encontros, que descobertas ela proporciona que justificam e sustentam essa escolha? Uma proibição sem conteúdo é apenas repressão. Uma proibição com proposta pedagógica clara é uma afirmação de valores.
Essa visão positiva de escola — que afirma, que propõe, que convida — está no centro do projeto educativo de ambas as instituições representadas no episódio. O Dante Alighieri, com sua tradição de excelência acadêmica e inovação tecnológica. O Santo Américo, com sua raiz beneditina e seu compromisso com a formação humana integral. Diferentes em muitos aspectos, mas unidas nessa convicção: a escola é, antes de qualquer outra coisa, um lugar de encontro entre pessoas — e esse encontro é, em si mesmo, educativo.
Desenvolvimento Emocional e Governança Familiar
O episódio encaminha suas reflexões finais para dois temas que estão profundamente interligados: o desenvolvimento emocional dos alunos e o papel da família como instância de governança educativa.
As duas diretoras são unânimes ao apontar que as demandas de suporte emocional aumentaram de forma significativa nos últimos anos. Crianças e adolescentes chegam às escolas com níveis crescentes de ansiedade, de dificuldade de tolerar frustrações, de baixa capacidade de autorregulação. A pesquisa científica aponta para uma correlação consistente entre o uso excessivo de telas e redes sociais e o aumento nos índices de depressão e ansiedade entre jovens — o que torna a questão do celular não apenas pedagógica, mas de saúde pública.
Mas a escola não pode — e não deve — assumir sozinha a responsabilidade pelo desenvolvimento emocional dos jovens. Cláudia Sartoris usa a expressão "governança familiar" para descrever o papel que os pais precisam exercer com mais consciência e consistência: estabelecer limites claros em casa, coerentes com o que a escola pratica; ter conversas honestas sobre o uso das telas; criar rituais de desconexão; e — fundamentalmente — modelar pelos próprios comportamentos o tipo de relação saudável com a tecnologia que desejam ver nos filhos.
Porque, como lembra Valdenice, a lei proibiu o celular dentro da escola. Mas as crianças voltam para casa todos os dias.
Reflexões Finais: O Que 2025 Ensinou às Escolas
O episódio se encerra com uma síntese que serve de convite à reflexão para todos os adultos que participam da vida escolar de uma criança: 2025 foi um ano que forçou as escolas a tomarem posição sobre questões que durante muito tempo ficaram em suspenso. A inteligência artificial exigiu que se definisse o que é aprender e o que é copiar. O celular exigiu que se enfrentasse a questão da atenção e da presença. A crise na relação escola-família exigiu uma revisão profunda de papéis e responsabilidades.
As respostas não são simples, e o episódio não pretende oferecê-las de forma definitiva. Mas o que Valdenice Minatel e Cláudia Sartoris deixam claro, a partir de suas experiências concretas em duas das escolas mais respeitadas de São Paulo, é que essas transformações são gerenciáveis — desde que enfrentadas com honestidade, com pedagogia e com o compromisso genuíno de colocar o desenvolvimento humano no centro de todas as decisões.
Para pais que querem entender o que realmente está acontecendo dentro das escolas dos seus filhos, para educadores que buscam perspectivas para navegar esse momento de transição, e para todos os que se preocupam com o futuro da educação no Brasil, este é um episódio essencial — e a Parte 2 promete aprofundar ainda mais os temas aqui iniciados.